Infância

Descobrir-se trans na infância como Shiloh Jolie Pitt é menos traumático

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Desde os 3, Shiloh, hoje com 10, gosta de usar roupas masculinas. Na foto, de azul, visita a Turquia com a mãe, Angelina Jolie imagem: AP

Do UOL

Aos três anos, Shiloh, a filha de dez anos dos atores Angelina Jolie e Brad Pitt, já era fotografada com roupas tidas como masculinas. Em 2008, durante um programa da apresentadora americana Oprah Winfrey, Brad Pitt revelou que a primeira filha biológica, ainda com dois anos, só queria ser chamada de John. Ou Peter, por causa do personagem  Peter Pan. “É exatamente o tipo de coisa que é fofa para os pais, mas provavelmente será irritante para outras pessoas”, disse o ator, na ocasião. Anos depois, Jolie e Pitt parecem ter deixado de enxergar o comportamento como “coisa de criança” e passaram a respeitar o fato de a filha não se reconhecer como uma garota. No casamento dos atores, em 2014, Shiloh vestiu paletó e gravata, assim como os outros três irmãos.

Nesta semana, a garota voltou a ser assunto nas redes sociais, porque tabloides dos Estados Unidos afirmaram que os pais estão empenhados em criar um ambiente livre de preconceitos para que Shiloh possa agir espontaneamente.

Para entender como se dá a identidade de gênero em crianças e de que forma os pais podem lidar com filhos que não se reconhecem no corpo biológico, o UOL conversou com o psiquiatra Saulo Ciasca, do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), que também oferece atendimento específico para crianças.

Com que idade a criança conhece o seu gênero?

Com três ou quatro anos. Quando a criança começa a falar e a se expressar, ela já mostra qual gênero a representa. Primeiramente, ela aprende a nomear o gênero. Depois, descobre que o gênero não muda de acordo com a roupa que usa. Mas não são todas que percebem que não se identificam com o gênero de nascimento.

Qual é o papel dos pais nesse processo de identificação?

Os pais não influenciam na identidade de gênero da criança, mas no papel de gênero, que é a maneira como ela se expressa na sociedade. O pai pode fazer com que a criança reprima isso, mas, com três ou quatro anos, ela não tem maturidade para esconder um gênero, ela será espontânea. É mais tarde que ela vai aprender a simular um comportamento, se achar necessário.

E como diferenciar uma fase de experimentação da criança, uma brincadeira, de uma crise de identidade de gênero?

Arquivo pessoal
O psiquiatra Saulo Ciasca imagem: Arquivo pessoal

Brincar com jogos que a sociedade atribui a determinado gênero e vestir roupas diferentes são formas de experimentação. É preciso ficar atento quando há persistência em alguns comportamentos. Se a criança passar mais de um ano e meio agindo de uma forma que parece não condizer com o gênero, por exemplo, é sinal de crise. Mas existe uma diferença da criança que diz ser do outro gênero e da criança que deseja ser. A que deseja ser talvez não tenha crise [estudo do "Journal of the American Academy of Child Adolescent", publicado em 2013, descobriu que crianças do sexo masculino que diziam "sou uma menina" tinham maior chance de serem transexuais na fase adulta do que as que diziam "quero ser uma menina". A despeito disso, tanto no primeiro quanto no segundo caso, pode-se tratar de um comportamento transitório].

Há uma idade específica em que a criança dá sinais de que não está se identificando com o gênero?

Aos seis anos, a criança tende a brincar só com amigos do mesmo gênero. Então, se a menina se identifica como menino, ela vai querer brincar só com meninos. Geralmente, a criança transgênero se espelha nos personagens também. Por exemplo, um menino trans, que nasceu menina, quando brincava de boneca, assumia-se como o pai da boneca. No videogame, a criança também pode escolher um avatar do gênero com o qual se identifica.

O que os pais podem fazer ao perceber que não se trata de uma experimentação?

Reprimir só vai gerar problemas de autoestima no filho. Por outro lado, eles também não precisam incentivar. O melhor é deixar o filho livre para experimentar e se conhecer. A criança tem de testar a mudança e se sentir à vontade para voltar ao passo inicial quando quiser. Pode ser difícil para os pais terem paciência durante esse processo, mas é preciso aceitar a indefinição do filho. Muitas vezes, os adultos querem uma resposta rápida, mas é a criança quem vai determinar o tempo para se reconhecer. E é só o amadurecimento que dirá se uma criança é trans ou não.

É mais fácil quando essa descoberta é feita ainda na infância?

É muito mais fácil. Depois, na puberdade, a criança vai conseguir se adaptar melhor. Imagina como se sente uma adolescente que se reconhece como menino e, de repente, menstrua. É muito sofrimento. Já se ela tem um acompanhamento desde a infância, pode conversar com os pais sobre um procedimento hormonal. Os que cometem suicídio, que têm dificuldade na escola ou sofrem de transtorno de personalidade, são os que não têm apoio em casa.

E como lidar com uma criança que assumiu outra identidade de gênero, como parece ser o caso de Shiloh?

É preciso assumir para a família e para a sociedade que o filho é uma criança com um gênero diferente do nascimento. Os pais têm de participar desse processo, não dá para deixar a criança sozinha. As atitudes devem ser pensadas caso a caso. Há pais que fazem uma carta para a escola, por exemplo, pedindo que o nome do filho seja mudado. Imagina essa criança ser chamada com um nome masculino e estar vestida toda de menina? É uma chateação.

E se a criança tem outros irmãos, até mais novos? Como dar a notícia?

As crianças entendem esse assunto com muito mais facilidade do que os adultos. Tem um caso de uma menina de nove anos que contou para um colega da escola: “Sou menina, mas nasci com um pênis. Um dia vou fazer uma cirurgia para retirar ele”.

Nesse processo, sempre será necessário buscar ajuda médica?

É complicado dizer “sempre”, porque os pais podem lidar bem com a situação e, nessas condições, a criança pode não sofrer. Sem sofrimento, não é preciso acompanhamento médico. Mas, se acharem necessário, um psiquiatra pode ajudar. 

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