Infância

Como o temperamento pode expor uma criança ao uso de drogas

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De acordo com pesquisas, certas características determinam na infância propensão a vício em drogas imagem: iStock Images

Maia Szalavitz

Do The New York Times

Educação sobre drogas é a única parte do currículo do antigo ginásio de que me lembro – talvez porque fracassou espetacularmente. Antes de atingir a idade legal para beber, eu injetava cocaína e heroína.

Já me recuperei do meu vício, e pesquisadores agora estão tentando desenvolver programas de prevenção inovadores para ajudar as crianças em risco a tomar uma estrada diferente da minha.

Criar um programa público antidrogas que realmente funcione não tem sido fácil. Muitas pessoas nos Estados Unidos cresceram com programas do gênero, como o DARE ou a campanha "Basta Dizer Não", inspirada em Nancy Reagan. Só que a pesquisa mostra que esses programas e outros semelhantes que dependem da educação e táticas de amedrontamento foram em grande medida ineficazes e pouco fizeram para reduzir o uso de drogas pelas crianças que correm mais risco.

Agora, porém, um novo programa antidroga testado na Europa, Austrália e Canadá está se mostrando promissor. Chamado "Preventure" e desenvolvido por Patricia Conrod, professora de psiquiatria da Universidade de Montreal, no Canadá, ele reconhece como o temperamento de uma criança a estimula ao risco de usar drogas –e que características diferentes criam caminhos diferentes para o vício. Testes clínicos iniciais mostram que um exame de personalidade pode identificar 90% das crianças que correm o maior risco, identificando características perigosas antes que elas causem problemas.

Ao reconhecer que de 80% a 90% dos adolescentes que experimentam álcool, cocaína, opiáceos ou metanfetamina não se viciam, eles se concentram no que é diferente na minoria que se vicia.

As características que colocam a criança no patamar mais elevado de vício não são aquelas nas quais se poderia pensar. No meu caso, eu parecia uma candidata improvável. Era excelente na escola, eu me comportava bem em sala de aula e participava de várias atividades extracurriculares.

Por dentro, no entanto, sofria de solidão, ansiedade e sobrecarga sensorial. As mesmas características que me faziam "talentosa" na área acadêmica me deixavam sem noção em relação às pessoas.

É por isso que, quando meu professor de saúde disse que a pressão dos colegas poderia me fazer tomar drogas, o que eu entendi foi: "As drogas vão me tornar bacana". Como uma pessoa que se sentia excluída, isso transformou as substâncias psicoativas em uma espécie de chamariz.

Os testes de personalidade do "Preventure" são mais profundos. Eles se concentram em quatro características de risco: busca de sensação, impulsividade, sensibilidade à ansiedade e desesperança.

De forma mais importante, a maioria das crianças em risco podem ser detectadas precocemente. Por exemplo, na pré-escola, fui diagnosticada como tendo TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), que triplica o risco de vício em drogas ilegais. Minha dificuldade em controlar as emoções e o excesso de sensibilidade atraíam as brincadeiras maldosas dos colegas. A seguir, o isolamento levou ao desespero.

Uma criança que começa a usar drogas por sentir desesperança –como eu, por exemplo– tem um objetivo muito diferente de que quem busca emoções.

Três das quatro características de personalidade identificadas pelo "Preventure" estão ligadas a problemas mentais, um fator de risco crítico para o vício. A impulsividade, por exemplo, é comum entre pessoas com TDAH, enquanto a desesperança costuma ser uma precursora da depressão. A sensibilidade à ansiedade, isso é, estar extremamente ciente e assustado com os sinais físicos da ansiedade, está ligada à síndrome do pânico.

Embora a busca por sensações não esteja ligada a outros diagnósticos, ela eleva a risco de vício pelo motivo óbvio de que pessoas atraídas por experiências intensas provavelmente vão gostar de drogas.

O programa "Preventure" começa com um treinamento de dois ou três dias para os professores, que recebem um curso intensivo em técnicas de terapia comprovadas para combater os problemas psicológicos. A ideia é impedir que pessoas com personalidades desajustadas se afundem em um pensamento transtornado que pode levar a um diagnóstico ou, no caso da busca por sensações, a um comportamento perigoso.

Quando o ano escolar começa, os alunos do ginásio fazem um teste de personalidade para identificar os desajustados. Meses depois, duas oficinas de 90 minutos –apresentadas como uma maneira de canalizar a personalidade no sentido do sucesso– são oferecidas à escola inteira, com um número limitado de vagas. Predominantemente, a maioria dos alunos se candidata, conta Patricia Conrod.

Embora a seleção pareça aleatória, somente as pessoas com pontuação extrema no teste –que demonstraram pegar 90% das em risco– podem fazer as oficinas, direcionadas à sua característica mais problemática.

Mas o motivo da seleção não é inicialmente revelado. Se os estudantes perguntam, eles escutam a informação sincera; contudo, a maioria não pergunta e normalmente consideram as oficinas relevantes e úteis.

"Não existe rotulagem", explica Patricia. Isso reduz as chances de que as crianças peguem um rótulo como "alto risco" e o transformem em uma profecia que irá se cumprir.

As oficinas ensinam aos estudantes técnicas de comportamento cognitivo para atacar problemas comportamentais e emocionais específicos e incentivá-los a usar tal ferramental.

O "Preventure" foi avaliado em oito testes clínicos aleatórios na Grã-Bretanha, Austrália, Holanda e Canadá, que constataram reduções em bebedeiras, uso frequente de drogas e problemas relacionados ao alcoolismo.

Um estudo de 2013, publicado em "Jama Psychiatry", incluiu mais de 2.600 alunos de 13 e 14 anos de 21 escolas britânicas, metade dos quais entraram de forma aleatória no programa. Como um todo, o "Preventure" cortou a bebida em escolas selecionadas em 29% – mesmo entre quem não frequentava as oficinas. Entre as crianças de risco elevado que participaram, a bebedeira caiu 43%.

Para Patricia, o "Preventure" provavelmente afetou os não participantes ao reduzir a pressão dos colegas em estudantes de alto risco. Ela também suspeita que o treinamento dos professores tornou os instrutores mais compreensivos em relação aos alunos de alto risco, o que pode aumentar a conexão escolar, fator conhecido por reduzir o uso de drogas.

Outro estudo de 2009 também demonstrou que o "Preventure" reduziu os sintomas de depressão, ataques de pânico e comportamento impulsivo.

Para crianças com traços de personalidade que as colocam em risco, aprender a administrar o que as torna diferente, e muitas vezes difíceis, poderia mudar a trajetória que pode levar à tragédia.

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