Infância

Na hora da vacina, em vez de tranquilizar a criança, prefira distraí-la

The New York Times
Médico injeta vacina em criança no Texas, nos Estados Unidos, em 2014 imagem: The New York Times

Perri Klass*

Do The New York Times

Na próxima temporada de gripe, muitas crianças que estão esperando gotinhas no nariz vão, em vez disso, receber agulhadas nos braços.

Isso porque um comitê federal de saúde decidiu que a vacina de gripe nasal (cujo nome comercial é FluMist) não deve mais ser usada, já que não foi tão eficaz na proteção das pessoas nas últimas duas temporadas da doença. Pela primeira vez desde que a FluMist foi lançada 13 anos atrás, todos devem tomar a vacina injetável.

Ao ouvir essa notícia, algumas crianças vão dar de ombros e arregaçar as mangas, mas outras vão explodir em lágrimas só de pensar.

Acontece que há muita pesquisa a respeito do que faz com que a imunização seja menos dolorida –e o que ajuda as crianças a lidarem com elas sem tanto sofrimento. Os pais podem pedir com antecedência ao pediatra um anestésico tópico para ser passado na pele antes da aplicação da vacina. Mudanças na técnica de imunização também podem reduzir a dor. Por exemplo, no passado, médicos e enfermeiras algumas vezes aprendiam a adicionar mais um passo –puxar a seringa para ter certeza de que a agulha não havia inadvertidamente atingido alguma veia e isso hoje não é mais recomendado.

Se o profissional faz isso, "soma mais tempo ao procedimento, mexe a agulha e causa mais trauma aos tecidos", explica Anna Taddio, professora de farmácia da Universidade de Toronto e a primeira autora de um conjunto canadense de diretrizes de práticas clínicas para reduzir a dor durante as vacinações, de 2015.

Muito já foi escrito sobre estratégias psicológicas que podem ajudar a reduzir a aflição em torno das imunizações mesmo para crianças pequenas. Em uma revisão de 2013 de intervenções psicológicas para "dor e sofrimento de procedimentos relacionados com agulhas", os pesquisadores descobriram que havia fortes evidências de que técnicas de distração funcionam para crianças, entre as quais algumas estratégias simples como ler histórias e assistir televisão.

"A mensagem principal é que a técnica mais comprovada é a distração", afirma Lindsay Cohen, professora de psicologia clínica na Universidade Estadual da Geórgia.

"Coisas simples como amamentar ou dar água com açúcar para crianças com menos de um ano mostraram-se realmente muito poderosas em termos de diminuição de dor", conta Mark Connelly, psicólogo pediátrico do Children’s Mercy Kansas City e professor de pediatria da Escola de Medicina de Kansas City na Universidade do Missouri.

Para crianças maiores, segundo ele, é preciso alguma atividade que envolva ativamente a atenção da criança, seja a leitura de um livro, girar um catavento ou fazer bolhas de sabão. "Algo que atraia o foco de atenção é o suficiente para mudar o que o cérebro faz, então a criança não sente do mesmo jeito."

Também há pesquisas sobre como o comportamento dos pais afeta o sofrimento das crianças, diz Cohen. Há alguma evidência mostrando que uma tentativa mais intensa dos pais de tranquilizar os filhos está correlacionada com uma aflição mais prolongada –embora isso não revele se uma angústia mais forte das crianças cause mais tentativas de acalmá-las ou se mais garantias dos pais aumentem o estresse da situação.

Em vez disso, os pais deveriam se concentrar em ajudar a distrair os filhos. "Encoraje as crianças a respirar fundo e a contar até dez de trás para frente", fala Cohen. "Mais distração e menos tentativa de tranquilizar."

"Muitos pais passam muito tempo dizendo que não vai doer, que será ok. Isso faz com que as crianças fiquem mais preocupadas", diz Connelly.

Por outro lado, os pais devem ajudar a preparar a criança antes, assim eles sabem o que vai acontecer e descobrem que terão algumas estratégias para lidar com a questão.

"Todo mundo fica ansioso quando não sabe o que vai se passar com ele", afirma Anna Taddio. "A ideia é dizer a eles o que acontecerá durante o procedimento –uma picada, a pressão no braço e depois acaba– isso incomoda algumas crianças, outras não, teremos de tentar descobrir uma maneira de ajudar você para que não incomode."

E os pais podem trazer um iPad ou iPod ou o que for para distrair os filhos, afirma ela.

Mas também é trabalho da clínica inventar técnicas de distração e outras estratégias para diminuir a dor de tomar vacinas.

"As imunizações são necessárias, mas nem sempre é preciso ter a dor como efeito colateral", afirma Connelly. "Imunizar-se não precisa absolutamente levar a uma grande quantidade de sofrimento e dor."

É incrível ver, na clínica, como as crianças diferem em sua relação com as agulhas.

Mesmo aos cinco anos, há crianças que têm orgulho de mostrar que não é grande coisa ou que ficam interessadas em ver a agulha entrando na pele –e, claro, há crianças aterrorizadas, chorando tanto antes de tomar a vacina ou ter o sangue colhido que é difícil acreditar que a agulha faça qualquer diferença.

As crianças que se lembram de ter sofrido muito ficarão muito mais assustadas da próxima vez que precisarem de uma injeção.

"Faça o que puder para não transformar isso em um grande evento", diz Anna.

É possível acompanhar o desenvolvimento do pavor de agulhas à medida que a criança cresce. Cerca de um quarto dos adultos continua a ter medo delas, conta Anna. Os adultos que temem as agulhas também podem pedir uma anestesia tópica para diminuir a dor, e aqueles com fobias sérias podem descobrir que a terapia comportamental cognitiva oferece estratégias úteis, assim eles terão condições de ajudar as crianças a tomar sua vacina de gripe anual ou de tomar as próprias.

E esse, claro, é o motivo de tudo isso: tornar mais fácil fazer uma coisa que deixa as pessoas seguras, explica a doutora Flor Munoz, professora associada de doenças pediátricas infecciosas da Faculdade Baylor de Medicina, que é membro do comitê de doenças infecciosas da Academia Americana de Pediatria. "O objetivo das pessoas que vacinam é proteger seus filhos contra as doenças", diz Flor.

* Perri Klass é pediatra.

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