Infância

Nome neutro não basta para uma criação sem estereótipo de gênero, mas ajuda

Marcos Peron/UOL
Mica, 2, e Mariana Vieira Carvalho, que optou por um nome que não revelasse o gênero da criança e assim a preservasse de estereótipos imagem: Marcos Peron/UOL

Natália Eiras

Do UOL, em São Paulo

Mica tem dois anos e apenas os cuidadores, como os seus pais biológicos preferem ser tratados, e a criança sabem o seu sexo. Um dia, Mica sai com um vestido rosa cheio de babados e, no seguinte, com um bermudão azul. Fora o visual, nem mesmo seu nome entrega seu gênero de nascimento, porque a educadora Mariana Vieira Carvalho, 29, escolheu um nome que soasse neutro.

Vivendo em Campinas, no interior de São Paulo (SP), Mariana não se identifica nem como mulher nem como homem –por isso, não se importa de ser tratada no feminino ou no masculino. Por isso, quando descobriu que estava grávida, decidiu optar por uma criação de gênero neutro. O fator pessoal, no entanto, não deixou a situação mais fácil.

"A gente ainda fica muito preso nessa binariedade. Tanto que, quando vi o sexo na ultrassonografia, comecei a pensar em nomes para a criança vinculado a um gênero", afirma Mariana.

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Mica com os cuidadores, Mariana e Raul; a criança usa roupas diversas para não criar estereótipo de gênero imagem: Marcos Peron/UOL
Mariana, ao lado de Raul Almeida Carvalho, 31, que atua como profissional de psicologia, decidiu que a neutralidade tinha de vir desde o nome de registro. "Foi difícil porque não há muitas opções contemporâneas. E a gente teve o cuidado de não colocar nenhum nome que pudesse causar um constrangimento futuro."

De acordo com o terapeuta sexual Breno Rosostolato, professor da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, nomear uma criança com um termo que não entregue o sexo de nascimento ajuda a criar uma pessoa mais livre dos estereótipos de gênero, mas não é o bastante.

"A criança precisa ter condições de se representar do jeito que ela quiser e principalmente ter essa representação respeitada", fala Rosostolato.

O especialista diz que, aos cinco anos, uma pessoa já tem compreensão de si para se dizer homem ou mulher. "E se a criança cresce em um ambiente que respeita essa expressão dela por um gênero, isso dá forças para enfrentar preconceitos. A criança eventualmente vai sofrer, mas com o apoio dos pais tudo se torna mais fácil."

Para criar esse ambiente mais acolhedor, não é necessário nem mesmo entrar na discussão sobre gênero. Basta ensinar que não importa se é menino ou menina ninguém é melhor do que ninguém.

"É ensinar a se respeitar", fala Breno Rosostolato. Outro ponto é mostrar que um rapaz, por exemplo, pode, sim, entrar em contato com seu lado mais emocional, pode fazer atividades ditas femininas. "Eu mesmo nunca gostei de dirigir e isso nunca fez eu me sentir menos homem."

Bernardo, 3, é o filho mais velho da gerente administrativa Sthela Baltazar Bartholomeu, 28, e do assistente de relações internacionais Douglas Bartholomeu da Silva, 31. Ele sempre se identificou como menino e é, nas palavras da mãe, um "moleque".

No entanto, Bernardo também curte pintar as unhas das mãos. "Ele diz que está colocando cor, brilho. Bernardo me mostra os dedos falando: ‘Olha, mãe, parece um arco-íris’", fala Sthela.

Os pais de Bernardo nunca viram nenhum problema no fato de o filho gostar de passar esmalte ou brincar de boneca com a irmã mais nova, Cecília, de um ano e meio.

Edson Lopes Jr./UOL
Douglas e Sthela deixam Bernardo, 3, pintar as unhas, mas familiares acham estranho imagem: Edson Lopes Jr./UOL
"Mas a minha família estranhou muito. Ficavam perguntando se ele não ia ficar confuso, se não ia saber que era um menino. Sendo que ele nunca demonstrou se identificar com outro gênero que não o designado em seu nascimento", diz a gerente.

Por mais que o nome de Bernardo não seja neutro, ele já está um pouco mais distante dos estereótipos de gênero. "Mas todo dia, quando ele vai para a escola, preciso conversar com ele de novo sobre como não existe brinquedo de menino ou de menina. Existe brinquedo de criança", afirma Sthela.

Para Marcelo Moreira Neumann, professor de psicologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e um dos autores da pesquisa "Bullying Homofóbico e Desempenho Escolar", a neutralidade no registro facilitaria de maneira prática a vida de uma pessoa que não se identificasse com o gênero de nascimento.

"O indivíduo não teria de passar por um processo jurídico caso fosse transgênero nem enfrentaria situações vexatórias relacionadas ao nome", fala o especialista.

Cabe, no entanto, bom senso na hora de escolher uma opção que não exponha a criança a situações desconfortáveis socialmente. "É preciso ter muito cuidado com o nome porque ele é o nosso cartão de visita. Está muito ligado à nossa identidade. Um ataque ao nome nos atinge diretamente", diz Neumann.

Aspecto legal
Caso o nome escolhido seja considerado estranho, o Cartório de Registro Civil pode se negar a fazer o registro. "Existe uma regra nos casos de termos que podem expor uma pessoa ao ridículo, como é o caso de Hitler, satanás, lúcifer", explica Monete Hipólito Serra, diretora da Arpen -SP (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo).

De acordo com Monete, são poucos os nomes que são barrados, e os pais podem recorrer do veto.

Apesar de Breno Rosostolato não achar que seja o bastante, a preocupação em nomear uma criança com um termo de gênero neutro é uma decisão importante.

"O constrangimento que um transexual passa quando entrega os documentos de registro com um nome diferente do gênero pelo qual ele se apresenta é o mesmo que sofre uma pessoa que odeia o próprio nome."

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