Infância

4 razões para meninas frequentarem escola de cidadania, não de princesas

Arte UOL
Desenvolver habilidades e capacidade profissional são, de acordo com especialistas, mais importantes do que aulas de etiqueta imagem: Arte UOL

Natália Eiras

Do UOL

A notícia de que Silvia Abravanel, 46, filha do apresentador Silvio Santos, iria abrir uma filial da Escola de Princesas em São Paulo –a primeira unidade foi criada em Uberlândia, em 2013— causou polêmica na internet por causa da proposta da instituição: ensinar etiqueta para meninas entre cinco e 15 anos.

"Saber como se comportar em um jantar é um caráter cultural que serve até para uma mulher de negócios. Uma menina tem de saber se portar em todas as situações", fala Silvia, que, na pré-adolescência, fez aulas com a ex-modelo Christine Yufon, especialista mais requisitada no tema, nos anos 1980.

Na grade curricular da Escola de Princesas –aberta na quarta-feira (19)-- estão aulas de como arrumar a cama, montar uma mesa para diversas ocasiões, como se maquiar e fazer penteados.

Segundo Silvia, ainda serão ministrados cursos de música, teatro e educação sexual. Esse último abordará desde prevenção de doenças sexualmente transmissíveis até como se depilar. “Teremos a ajuda de psicólogos e ginecologistas", fala a empresária.

Para os críticos da iniciativa, a escola –que não aceita meninos—reforça estereótipos de gênero, como a de que o cuidado da casa é responsabilidade da mulher.

Silvia diz que os comentários negativos são "combustível" para ela melhorar a ideia da instituição, porém afirma que, por mais que concorde que garotos também precisam ter aulas de etiqueta, a unidade de São Paulo não poderá aceitar o público masculino por ser uma franquia. “Todo mundo precisa ter educação, não importa o sexo. O importante é não passar vergonha”, afirma.

A seguir, especialistas ouvidos pelo UOL listam quatro razões para esse tipo de escola ser um retrocesso na educação das crianças.

1- As meninas devem conquistar o mundo

Já parou para pensar que, na maior parte dos contos de fada, a princesa nunca luta para resolver a própria vida? "Todos os personagens agem, menos a princesa, que fica esperando na sua torre", fala o pedagogo Paulo Pereira Neto, mestrando em filosofia da educação na Universidade de São Paulo (USP) e assessor educacional do Instituto Juvenescer, que trabalha o diálogo e formação humana de adolescentes.

Para o especialista, alimentar essa fantasia de ser princesa faz as meninas acreditarem que precisam de um marido ou namorado para se sentirem completas. "Em uma Escola de Princesa, a menina é preparada para ser bela, recatada e do lar. Para viver em função do marido. Ela pode escolher ser uma dona de casa, mas para tanto precisa ser educada em um contexto variado e de liberdade. Uma educação baseada em ser dona de casa limita o projeto de vida e de felicidade da menina", afirma.

2- A casa não é responsabilidade só da mulher

De acordo com Rosana Schwartz, professora de sociologia e líder do Núcleo de Estudos de Gênero, Raça/Etnia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, as aulas de etiqueta eram ensinadas, em sua origem, tanto para meninos quanto para meninas.

"No caso dos homens, eram usadas para fossem bem recebidos no mundo público e político, não para o privado, como nas aulas nas quais a menina aprende a cuidar da casa e do marido", diz.

Os cursos de etiqueta se tornaram "femininos" após a Segunda Guerra Mundial, quando houve um movimento para resgatar o papel da mulher dona de casa, já que a população feminina tinha ido para o mercado de trabalho, enquanto os homens estavam nos campos de batalha. Terminado o conflito, a mulher, então, voltou a ser a única administradora do lar. "Ela tinha de saber, organizar e aguentar tudo relacionado à casa sozinha", afirma Rosana.

Na opinião da socióloga, seria muito mais interessante uma escola para meninos e meninas em que eles aprendessem a dividir as despesas, os cuidados domésticos e com os filhos.

3- No lugar de etiqueta, uma aula de respeito

A psicóloga e consultora de educação Roseli Sayão diz acreditar que etiqueta pode se aprender em casa, enquanto respeitar a diversidade e o par amoroso poderia ser responsabilidade da escola regular.

"Todo mundo deveria aprender a ter tolerância no relacionamento íntimo. Não podemos responsabilizar apenas as mulheres em relação a isso", fala a especialista. O mesmo vale para "formação de caráter" e princípios éticos, que seriam muito mais importante do que aprender a não colocar os cotovelos na mesa. 

4- Crianças deveriam aprender a ser cidadãs

Segundo Roseli Sayão, saber arrumar a cama e aprender tarefas domésticas contribuem para criar indivíduos autônomos, o que é bom tanto para meninos quanto para meninas.

"Saber se portar em um espaço público ou privado é praticar cidadania", fala a psicóloga. Além disso, aprender que cuidar de si e da própria casa é inerente a um cidadão contribuiria para a igualdade entre os sexos.

"A Escola de Princesas ajuda a naturalizar essa divisão de coisas 'para menina' e 'para menino', o que é uma questão cultural. Desconstruir isso não é acabar com a família, mas criar uma cumplicidade entre as pessoas de ambos os gêneros", fala o pedagogo Paulo Pereira Neto. 

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