Moda

Bill Cunningham: fotógrafo de moda que conhece todos os segredos das ruas

Getty Images
O fotógrafo Bill Cunningham participa de evento em 2008 em homenagem à sua carreira e organizado pela loja Bergdorf Goodman, em Nova York imagem: Getty Images

De Nova York (EUA)

No passado, vestiu Jackie Kennedy e criou chapéus. Desde então, Bill Cunningham se transformou em uma lenda viva da fotografia da moda de rua, especialidade que ele praticamente criou. Sua paixão é também sua obsessão: capturar o charme.

Com olhar atento, vestindo uma camisa azul, as costas levemente arqueadas e a câmera pendurada no pescoço, Cunningham, de 85 anos, tem o jeito e o vocabulário de um homem de sua época. O fotógrafo do jornal The New York Times chama a todos de "criança", não importa a idade. Quando perguntado, ele se concentra e escuta com atenção. São raras as personalidades desse meio que podem, como ele, sempre se orgulhar de estar na moda ou prever qual será a próxima tendência.

Em um documentário de 2010 sobre Cunningham, Anna Wintour, a poderosa editora da Vogue americana, se mostrou maravilhada com sua habilidade para "ver algo, na rua ou na passarela, que todos nós ignoramos completamente. E em um período de seis meses, isso se transforma em moda!".

O homem discreto, que nasceu em Boston em 1929, "não fala muito", disse recentemente à AFP o editor da revista InStyle, Hal Rubinstein, em Nova York. "Sua riqueza de conhecimento é absolutamente assombrosa e ele é modesto. Sabe exatamente quem é. Não é nada além de si mesmo... está acima do acadêmico", disse.

Por décadas Cunningham se dedicou à moda das ruas, da qual ajudou a desenvolver um conhecimento enciclopédico. E os anos não parecem ter diminuído seu grande talento: a arte de descobrir grandes tendências nas ruas, nas passarelas ou em grandes festas.

Figura onipresente que muitas vezes andava de bicicleta na Quinta Avenida e ia aos desfiles de moda em Nova York, Cunningham também visita a Semana de Moda de Paris para "educar o olho". A atenção da mídia sobre ele gera uma grande frustração. Em entrevista à AFP, diz que atrai "atenção demais" para seu trabalho e que, de alguma maneira, isso o destrói.

É um animal raro em um mundo que gira ao redor do ego, da extravagância e da individualidade de estilo, onde as atrizes jovens e os blogueiros competem pelo centro da atenção. Mas Cunningham quer apenas ser uma coisa: "invisível". "Deixo que a rua fale por comigo", diz, acrescentando com humildade que não é um "bom fotógrafo". Mas seu trabalho captura momentos de moda pura: a elegância de uma mulher saltando uma poça d'água ou um dândi usando um chapéu enquanto atravessa a rua.

Impulso aos blogs

Cunningham descreve seu trabalho de maneira simples: "Não ter um pré-conceito, e sim sair e deixar a rua lhe falar".

Começou sua carreira como chapeleiro para a alta sociedade de Nova York. Em 1963 estava trabalhando na Chez Ninon, pequena loja de Alta-costura, quando Jackie Kennedy, cliente regular, entregou-lhe um terninho vermelho de Christian Dior antes do funeral de seu marido assassinado.

"Não havia tempo de conseguir o tecido e fazer um novo, então durante a noite tingimos de preto", lembrou Cunningham durante uma conferência em Nova York há algumas semanas. Suas primeiras fotografias de mulheres desconhecidas e celebridades, incluindo a atriz Greta Garbo em 1978, o ajudaram a conseguir uma coluna regular no The New York Times, "Na Rua" (On The Street), onde a cada semana apresentava as últimas tendências.

Durante todos estes anos, mostrou homens de saia, estampas de leopardo, blusas tanto para o dia como para a noite e um caleidoscópio de cores. "Consideraria absolutamente Bill Cunningham como o fundador da fotografia de moda de rua", disse Brad Paris, que ensina fotografia no famoso Fashion Institute of Technology de Nova York.

"Outros fotógrafos podem ter mostrado o estilo das ruas antes de Cunningham, mas ele realmente fez isso com sua visão consistente", acrescenta. E seu trabalho deu impulso aos blogs de moda, hoje tão conhecidos. "Fotógrafos como Scott Schuman (do blog The Sartorialist) foram diretamente influenciados pelo trabalho de Cunningham no The New York Times", diz Paris.

"A coluna de Cunningham levou, eventualmente, à ideia de que qualquer pessoa com uma câmera, uma conta no WordPress e algumas ideias sobre moda pode influenciar no mundo da moda", explica, lembrando que "Cunningham mostrou as possibilidades do estilo nas ruas e criou o ambiente em que ele (o estilo) pode ser levado muito a sério".

Topo