Moda

Contador alemão criou "primeiro livro de moda" no século 16

BBC
Na Alemanha do século 16 gostar de moda não era visto com bons olhos imagem: BBC

Denise Winterman

Um contador alemão obcecado por roupas criou, no século 16, o primeiro livro de moda de que se tem conhecimento até hoje, registrando, em pinturas, os trajes que vestiu ao longo de quatro décadas.

Documento histórico, as aquarelas, feitas por três artistas diferentes, estão reunidas em um livro exposto em um pequeno museu na cidade alemã de Braunschweig. Segundo Ulinka Rublack, que pesquisa história na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, as pinturas são um dos mais singulares documentos já criados na história da moda.

O contador - tratado por outros historiadores como mero objeto de curiosidade - foi na verdade um inovador, que expandiu as fronteiras da moda, usando o estilo de se vestir como forma de autoexpressão, disse a especialista. Seu livro revela que, no século 16, gostar de moda não era, como se pensava, exclusividade de famílias muito ricas.

Regras Sociais
Matthaeus Schwarz era o chefe de contabilidade dos banqueiros e mercadores Fugger, uma das mais importantes e ricas famílias da Alemanha no período.

Ele começou a registrar sua imagem em 1520, quando encomendou 36 pinturas com o objetivo de fazer uma retrospectiva de sua aparência desde a infância até os 23 anos. Daí em diante, continuou encomendando desenhos de si próprio, vestindo suas diversas indumentárias, até os 63 anos. Ao todo, foram encomendadas 137 aquarelas. Depois, pediu que todas as folhas fossem encadernadas, criando o que ficou conhecido como "O Livro Schwarz de Roupas".

Segundo Rublack, esse comportamento chama a atenção porque, naquele período, na Alemanha, gostar muito de moda não era visto com bons olhos. "Naquele tempo, vestir-se apropriadamente era algo que alemães ricos viam com seriedade, mas gostar de moda por si só era considerado tolo", disse.

A indumentária de uma pessoa era controlada por convenções sociais rígidas, que desencorajavam o luxo e a extravagância. As normas estipulavam o tipo de roupas e joias que uma pessoa podia usar, de acordo com sua posição social. Schwarz tinha de tomar cuidado para não ultrapassar certos limites, mas ainda assim, inovava, brincando com seu estilo e explorando novos cortes, cores, tecidos e detalhes. Ele se divertia com suas roupas.

Um trabalhador não tinha permissão de se vestir de forma mais extravagante do que seus patrões e certos itens eram proibidos. No caso de Schwarz, havia uma complicação a mais: seus empregadores não queriam parecer "excessivamente ricos" e tentavam, conscientemente, vestir roupas mais simples, explicou Rublack.

Maria Hayward, professora de história com especialização em roupas e tecidos da Universidade de Southampton, Inglaterra, disse que Schwarz sempre encontrava um caminho alternativo: "Se calças colantes muito enfeitadas eram proibidas, por exemplo, ele optava por mangas mais trabalhadas".

Por trabalhar para mercadores importantes, ele tinha contatos e acesso a materiais diversos. Além disso, o contador empregava os mais talentosos artesãos. Naquele tempo, tudo era feito à mão, já que a máquina de costura ainda não havia sido inventada.

Os custos eram altos. Schwarz não era rico mas ganhava bem e optou por investir grande parte de seu salário em sua aparência.

O resultado podia ser espetacular. Em uma das aquarelas, pintada pouco depois dele completar 26 anos, o contador veste uma espécie de meia calça branca ajustada, que cobre suas pernas e parte do tronco, e um doublet - peça usada na parte superior do tronco que era conectada à calça na altura da cintura. Estava na moda fazer talhos no tecido por meio de um estilete afiado e observações feitas por Schwarz revelam que seu doublet tinha 4.800 pequenos cortes.

As cores e acessórios que ele vestia também tinham significados específicos. O branco usado neste traje, por exemplo, representava fé e humildade.

Schwarz fazia dieta para manter seu corpo no padrão da moda naquele período e empregava pessoas que o ajudavam a se vestir todos os dias. Às vazes, era necessário costurar as roupas em seu corpo. "Muito tempo era gasto arranjando-se as vestimentas para que tudo ficasse perfeito", disse a figurinista e diretora da Schooll of Historical Dress Jenny Tiramani. "Frequentemente, um criado acompanhava o patrão para assegurar que a roupa estava impecável o tempo todo".

Mensagem Política
Schwarz não apenas usava roupas para criar uma boa aparência. Eles as escolhia com cuidado por razões sociais e políticas. Por exemplo, para receber uma promoção ou cortejar uma mulher.

Após nove anos de forte influência do protestantismo na Alemanha, Schwarz vestiu, em sinal de lealdade ao catolicismo, um elaborado traje em vermelho e amarelo marcando o retorno, ao país, do imperador Carlos 5º. "É fácil descartar Schwarz como um dândi em suas roupas coloridas", disse Maria Hayward, professora de história da Universidade de Southampton. "Mas ele usava roupas de forma inteligente para dizer coisas a respeito de si próprio. Os figurinos não eram apenas coisas que ele gostava de vestir, tinham significado e propósito".

E o livro de Schwarz foi revolucionário também por outra razão, dizem os historiadores: ele inclui dois nus do contador, um de frente e um de costas. Schwarz tinha 29 anos quando as aquarelas foram pintadas. "Naquele tempo, pintar nus em um contexto não religioso era extremamente raro, nus eram usados em contextos bíblicos e clássicos", disse Rublack. Ela explicou também que não houve qualquer tentativa, nos nus, de melhorar ou embelezar o retratado. "As pinturas são um simples documento de sua aparência, sem roupas, naquele momento". Isso era algo sem precedentes na época.

"Eu estava gordo", anotou Schwarz abaixo das aquarelas. "Sua honestidade é tão impressionante e incomum", disse Rublack. "As pessoas usavam pinturas para projetar uma imagem de si próprias, mas as pinturas de Schwarz não eram idealizadas. Ele era incrivelmente honesto em relação ao curso da vida, ao envelhecimento. Ele mostrava o que você não podia controlar e o que você podia".

Schwarz deixou de registrar seus trajes a partir dos 67 anos. Ele tentou persuadir o filho, Veit Konrad Schwarz, a continuar o projeto. Veit chegou a encomendar 41 aquarelas de si próprio, mas abandonou a ideia após os 19 anos.

Por que Schwarz teria feito seu livro continua sendo um mistério. Após sua morte, o objeto foi passado de geração a geração, até ir parar no acervo do Herzog Anton Ulrich-Museum, em Braunschweig.

Topo