Moda

Artista recria poses de editoriais de moda com mulheres comuns

Bruno Garcez

Uma mulher caída no chão e rodeada de pepinos, uma jovem estatelada no asfalto e cercada por homens e uma senhora segurando o toldo de uma mesa de bar com ar desafiador. A artista espanhola Yolanda Domínguez vem se dedicando a usar imagens de mulheres comuns para reproduzir poses esdrúxulas de revistas e editoriais de moda.

"O projeto começou em 2011, como denúncia sobre editoriais de moda e a violência implícita que eles contêm contra a mulher. Cenas que lembram crimes, em que aparecemos jogadas no chão, em situações humilhantes ou com cara de loucas ou doentes", disse a criadora do projeto em entrevista telefônica, de Madri, onde vive. "Minha intenção era descontextualizar essas poses, levá-las para outro contexto e ver qual a reação das pessoas diante dessas poses. As imagens consumidas nas revistas têm muita importância. Não estão só vendendo um produto, mas também representando o feminino, transmitindo símbolos e valores ligados a esse conceito. É importante que esse tipo de imagem tenha um impacto no que a sociedade, tanto sobre homens e mulheres, consideram feminino".

Um dos principais trabalhos da artista foi o vídeo Poses, realizado em 2011, no qual promove uma intervenção urbana em diferentes pontos de Madri, fazendo com que mulheres diversas reproduzissem poses de revistas de moda. As reações são de espanto e de perplexidade. Hoje ela recorre às redes sociais para obter novas colaborações para seu projeto artístico, que tem caráter participativo.

Desde que lançou o projeto, Domínguez conta que passou a receber espontaneamente novas colaborações de diferentes partes do mundo, enviadas por email. "Começaram a chegar versões das pessoas fazendo poses, então me ocorreu de criar uma plataforma virtual, para que as pessoas possam integrar esse projeto". Há poucas semanas ela inaugurou a plataforma Strike the Pose, bem como páginas no Facebook e Twitter, pelos quais qualquer um pode enviar novas poses e ainda tecer comentários sobre as fotos originais.

"Uma das características do momento em que vivemos é que todo mundo quer participar, não só como espectador, mas também como protagonista. Há anos venho tentando fazer do espectador um protagonista do que faço. Me interessa que a arte seja um campo de ação e um ponto de encontro entre as pessoas", comenta a artista. Ela completa: "A arte, antes de tudo é um meio de comunicação, e eu como artista utilizo as ferramentas que me permitem comunicar com as pessoas. Não quero estar em uma galeria onde me comunico com trinta pessoas, quero fazer parte de uma plataforma como YouTube ou em um site acessados por milhões de pessoas. Minha intenção é recuperar o caráter coletivo da arte, que acredito ter sido anulado pelo capitalismo. As redes sociais são uma ferramenta fantástica para recuperar esse caráter coletivo", acrescenta.

O mundo da moda não é o único alvo da artista espanhola de 37 anos. Um dos trabalhos de arte ativista que ele criou este ano consistia em conclamar mulheres a ir à Câmara de Comércio e de Propriedade de suas respectivas cidades, a fim de registrar a "posse" de seus corpos. A ação, que gerou filas de mulheres em edifícios públicos de Madri, Barcelona, Bilbao e Sevilha, foi um reação a um projeto de lei que pretendia limitar os direitos ao aborto.

No ano passado, outra de suas intervenções públicas, intitulada Fashion Victims (em português, Vítimas da Moda), levou uma série de pessoas usando bolsas e modelitos chiques a aparecer em ruas espanholas cobertas de detritos. A ação foi um comentário crítico sobre o colapso do telhado de uma fábrica têxtil em Bangladesh, que matou 1.127 funcionários.

Agora, o corpo humano volta a servir como inspiração para a artista. "Minha próxima ação será na Califórnia. Não quero revelar muito, porque as ações são surpresa, mas é sobre o excessivo culto ao corpo. Minha intenção é fazê-la em Venice Beach".

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