Moda

A importância do guarda-roupa na disputa entre Hillary e Trump

Getty Images/ Montagem/ UOL

Libby Banks

Quando a candidata democrata à Presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, subir ao palco do próximo debate com o republicano Donald Trump, neste domingo, não serão apenas suas propostas e ideias que serão analisadas e dissecadas.  

Assim como ocorreu no primeiro encontro televisado dos dois, seu visual também deve passar por um intenso escrutínio.
 
Em nenhum outro lugar a obsessão pelas roupas e pelo corte de cabelo é mais aparente do que na política americana de hoje.
 
O terno branco que Hillary usou na Convenção do Partido Democrata, que referendou sua candidatura, foi interpretado de todas as maneiras possíveis: houve quem dissesse que se tratou de uma intenção de ser comparada a um feixe de luz, ou que foi o reconhecimento aos uniformes brancos usados pelas mulheres do movimento sufragista.
 
Trump parece ser bem menos exposto a esse tipo de análise, apesar de ser frequentemente ridicularizado por seu bronzeado, seu cabelo, seus paletós quadradões e até pelo tamanho de suas mãos.
 
Mas, apesar de tudo isso parecer bobo e irrelevante quando se trata de decidir quem é a melhor pessoa para governar um país, é um tanto ingênuo pensar que o visual não tem importância na política: a imagem hoje conta tanto quanto as propostas e a consistência de um político.
 
Kennedy pioneiro
 
Não se trata de um conceito novo. Nos anos 60, quando as eleições se tornaram eventos televisionados, o debate entre Richard Nixon e o elegante John Kennedy é apontado como fundamental para a vitória do segundo.
 
Estudos mostram que a aparência tem um peso na política muito maior do que queremos admitir.
 
Em uma pesquisa realizada em 2006 pela Universidade de Princeton, voluntários observavam rapidamente fotos de candidatos ao Congresso menos conhecidos e deveriam prever quais deles conquistariam cadeiras.
 
Resultado: eles conseguiram adivinhar corretamente, apenas pela imagem, cerca de 70% dos que acabaram se elegendo.
 
"Vivemos em uma sociedade muito ligada em estímulos visuais", afirma Corey Roche, assessora de estilo de personalidades do showbiz e da política dos Estados Unidos. "A moda é uma linguagem universal e, gostemos ou não, é uma das impressões mais marcantes deixadas por alguém."
 
Rebecca Arnold, professora de história da indumentária e dos tecidos no Instituto Courtauld, acrescenta que o interesse pela aparência dos políticos é maior na atual era das mídias sociais, em que as notícias costumam atrair leitores por meio de imagens.
 
Mas a especialista reconhece que há uma enorme disparidade na maneira como homens e mulheres são analisados sob esse ponto de vista.
 
"As atenções se voltam muito mais para elas, o que é ajudado pelo fato de não terem o 'uniforme' representado pelo terno masculino", afirma Arnold.
"Mas é importante lembrar que isso não se restringe apenas ao mundo da política. As mulheres, de maneira geral, são criticadas com mais severidade pela maneira de se vestir."
 
Para Lauren A. Rothman, assessora de estilo e autora do livro A Bíblia do Estilo, muito dessa atitude se deve ao fato de ainda existirem relativamente poucas mulheres no poder.
 
"Para eles, existe um uniforme para governar um país: o terno azul-marinho, com uma camisa branca e uma gravata vermelha ou azul. Mas não temos um equivalente para as mulheres. Vamos ver isso acontecer conforme tivermos mais mulheres em ascenção".
 
Dilma e Merkel x May e Kirchner
 
Até pouco tempo atrás, apenas as primeiras-damas e as esposas dos políticos atraíam as atenções do mundo da moda.
 
A chanceler alemã, Angela Merkel, tende a usar uma adaptação do guarda-roupa masculino, aderindo à crença de que, para uma mulher parecer forte em um mundo de homens, é preciso se vestir como um deles.
 
Trata-se de uma estratégia também utilizada por mulheres como a ex-presidente brasileira Dilma Rousseff, a presidente chilena Michelle Bachelet e a líder escocesa Nicola Sturgeon.
 
Em seus anos no poder, Margaret Thatcher adotou uma abordagem diferente, apostando em blusas com laçarotes, pérolas e bolsas pequenas para criar uma imagem quase caricatural, enquanto a ex-presidente argentina Cristina Kirchner chamou a atenção por seus vestidos de renda hiperfemininos.
 
Agora, Hillary Clinton e Theresa May, duas mulheres proeminentes no cenário internacional, estão mudando a maneira como uma líder de peso se veste.
O entusiasmo da nova primeira-ministra britânica pela moda é algo já bem documentado, com sua paixão declarada por revistas como a Vogue e seus colares e sapatos chamativos.
 
May é um bom exemplo de que ter estilo e conduzir um país dividido não são atividades incompatíveis - uma mensagem positiva para as mulheres mais jovens de que elas podem gostar de cuidar da aparência e, ao mesmo tempo, serem respeitadas por seu trabalho.
 
Além disso, esse interesse por roupas e acessórios é algo que de certa forma humaniza e aproxima a durona primeira-ministra das pessoas comuns.
 
'Sou uma mulher'
 
Hillary Clinton pode não ter a mesma paixão de May pela moda, mas certamente reconhece o peso que o assunto tem.
 
Sua atitude mudou desde a última vez em que se apresentou à corrida presidencial, em 2008. Recentemente, ela contratou Kristina Schake, ex-assessora de Michelle Obama, para ajudá-la a redefinir sua imagem. Também alistou para sua equipe uma maquiadora que trabalhou no celebrado seriado Veep.
 
Hillary chegou até a aparecer nas páginas da Vogue americana, uma publicação que ela antes evitava. Couro, pérolas e muitas peças Armani repentinamente passaram a fazer parte da agenda.
 
"Em 2008, a única marca de seu estilo era que ela se vestia com um homem. Agora, ela está usando a feminilidade a seu favor. E roupas ajudam muito nisso", observa Rothman.
 
"Seja ao se mostrar como mãe e avó, ou ao publicar no Instagram uma foto de uma arara cheia de roupas, o que Hillary diz agora é: 'Sou uma mulher'." Ou seja, a moda se tornou uma arma que Clinton incorporou à sua estratégia política.
 
Segundo Arnold, o importante é saber decodificar a intenção de um político com a roupa que ele usa, independentemente de seu gênero.
 
Rothman concorda. "Tudo faz parte de uma mensagem visual. Nunca assuma que um politico está mal vestido porque ele não tem noção de como fazer isso", diz.
Um bom exemplo disso é o líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, cujo visual que quebra o protocolo do Parlamento foi criticado até pela mãe do ex-premiê e rival David Cameron.
 
Outra questão importante é o valor das roupas e acessórios que os políticos usam.
O vice-presidente americano, Joe Biden, foi "aniquilado" ao aparecer com mocassins de US$ 800 (R$ 2,5 mil), apesar de ser um homem com um patrimônio considerável antes de ter assumido seu lugar na Casa Branca.
 
O presidente francês, François Hollande, foi vítima de críticas parecidas por causa de seu penteado, cuja manutenção custaria 10 mil euros por ano (R$ 36 mil).
 
Homenagem a Reagan
 
Segundo Rothman, Donald Trump parece ter percebido isso. "Ele tem tentado se vestir como um político, e não tanto quanto um banqueiro de Wall Street. Isso o ajuda a conquistar simpatizantes", diz ela.
 
Os ternos quadradões e as gravatas do candidato republicano são um claro distanciamento do estilo do presidente Barack Obama, com suas roupas de corte impecável e camisas sem gravata e de mangas arregaçadas.
 
O estilo de Trump é, de certa maneira, uma homenagem ao Reaganismo dos anos 80, período citado pelos republicanos como "a era dourada da América".
 
O empresário tem se mantido fiel a seus ternos azuis-marinhos, nunca caindo na tentação de usar roupas demasiadamente informais.
 
De vez em quando, ele abandona a gravata e coloca um boné com seu slogan de campanha, "Make America Great Again". Mas o terno azul fica. Isso contribui para sua retórica de "CEO do país" e evoca uma imagem de empreendedor à moda antiga.
 
Mesmo antes de se candidatar à Presidência, Trump instintivamente compreendeu a importância da imagem. Seu cabelo e seu bronzeado podem ter sido zombados nas últimas décadas, mas serviram para fixar o empresário - e seus ideais - no imaginário dos eleitores.
 
Se por um lado os candidatos deveriam ser julgados pelo conteúdo de suas mensagens, atualmente é quase uma loucura ignorar os sinais visuais que os políticos emitem com seu estilo. Acertar no look é praticamente fundamental.
 
"Nesse mundo do 'vestir é poder', é muito importante ser reconhecido instantaneamente", define Rothman. Por isso, segundo ela, é muito provável que Hillary continue apostando no terninho, enquanto Trump deve manter o terno grandalhão e o incomparável corte de cabelo.
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