Desfiles

Ronaldo Fraga mostra sua Disneylândia latina

MARIANA ROCHA
do prédio da Bienal

Ronaldo Fraga não é simples, apesar de amar a simplicidade. Não é comum, apesar de se alinhar com os tipos mais comuns. Ele também não é inocente, apesar de enaltecer a inocência.

Nessa coleção, intitulada "A Disneylândia de Ronaldo Fraga", o discurso do estilista sobre o parque de diversão mais conhecido do mundo e sonho de todas as crianças não é simples, nem comum e muito menos inocente.

Já ao primeiro olhar nos defrontamos com um cenário onde fragmentos de casas pobres são enfeitados com bandeirinhas pretas com vazados de caveira, do Dia dos Mortos do México. A primeira entrada anuncia que a conversa não vai ser pra boi dormir. Os cabelos carregavam dois coques enormes, que criavam a silhueta do Mickey ao mesmo tempo que citavam a artista Frida Kahlo, com suas roupas nacionalistas.

A partir daí as referências se entrecruzam e se multiplicam, bordados andinos, vazados inspirados nas bandeirinhas de papel de seda rendadas mexicanas. Os sapatos insinuam marmitas e os chapéus lembram trouxas de roupa. Pouco a pouco o grupo de modelos que desfila tenta cruzar a fronteira da pobreza latina ao encontro do sonho americano.

"Gostei! Gostei das sobreposições, ficaram sofisticadas, um pouco japonistas. São as formas do Ronaldo, mas menos ingênuas", diz Costanza Pascolato sobre o desfile de Ronaldo. "Muito interessante como ele apresentou extremos nos tecidos: numa ponta os sintéticos, na outra o tear manual e o bordado artesanal".

E a coleção é mesmo muito bonita, com sobreposições que lembram as formas das roupas folclóricas, as estampas coloridas sobre o fundo preto e tudo isso apresentado de forma apurada, com o jeitão do Ronaldo.

Mas o que fica claro pelas vozes de Jorge Drexler na trilha e a melancolia reinante, é que a Disneylandia sonhada não tem nada a ver com aquela da Cinderela.

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