Desfiles

Ao homenagear Pina Bausch, Ronaldo Fraga brinca com os opostos

CAROLINA VASONE

Do prédio da Bienal

Os centros de areia vinham da peça “Ahnen”, de 1987. As cadeiras dentro dos círculos distribuídos pela passarela aparecem com freqüência no trabalho da grande coreógrafa alemã Pina Bausch, morta em 2009 e a homenageada pelo estilista mineiro Ronaldo Fraga no desfile para o inverno 2010. A apresentação começou com cara de espetáculo de dança. Enquanto fazia seus passos contemporâneos, a bailarina tocava o bandoneón. Seria um trecho de uma peça da homenageada? “Não. Nas coreografias de Pina Bausch as coisas são o que elas são. A bailarina nunca dançaria enquanto toca o bandoneón; simplesmente tocaria o instrumento”, afirma Fabio Cypriano, jornalista e autor de tese de doutorado sobre a bailarina e coreógrafa.

  • Alexandre Schneider/ UOL

    Modelos "bailam" na passarela de Ronaldo Fraga. O estilista homenageou Pina Bausch

Licença-poética à parte (afinal, não é preciso ser tão literal a este ponto em homenagens), a performance de Ronaldo Fraga trouxe bonitos momentos e imagens instigantes ao fazer referência à artista. Andando em círculos e levantando a poeira em volta das cadeiras vazias, os modelos apareciam em seu lado contrário: o cabelo no lugar da cabeça e a cabeça nas costas, todas uma máscara com o rosto (meio diferente demais) de Pina Bausch. Algumas das roupas também apareciam vestidas desta maneira, como o colete curtinho com camisa enervurada branca por baixo com calça ampla.

 

Depois de um tempo, a frente e as costas de modelos e roupas começaram a se confundir. Não se sabia mais quando se ia, quando se vinha. Ao misturar os lados opostos, talvez Ronaldo Fraga tenha querido brincar também com a diferença entre os movimentos leves, orgânicos e a simplicidade das roupas característicos do trabalho de Pina Bausch e o universo mineiro enfeitado, “barroco”, de suas roupas coloridas, propositalmente excessivas e, nesta coleção, amplas, com recortes mais agressivos.
 

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