Moda

'Graças a jogadores de futebol, homens mudaram o jeito de ver a moda', diz estilista da Dolce & Gabbana

JULIANA LOPES

Colaboração para o UOL, de Milão

Muito do que se fantasia hoje sobre o estilo italiano vem de raízes bem precisas. Como nas grifes mais famosas da Itália, o segredo da moda está em sobrenomes de peso. Dolce e Gabbana, dos italianos Domenico, 51 e Stefano, 48, estão no primeiríssimo time da moda internacional. Os dois estilistas são responsáveis por criar um aspecto contemporâneo do “italian way” de ser: inspiração na doce vida, no bem estar, no aproveitar momentos de glamour, na atenção à qualidade em cada detalhe, no luxo que não tem vergonha de assumir seu preço e beleza.

  • Mikael Jansson

    Os estilistas Stefano Gabbana e Domenico Dolce

O estilo italiano da Dolce & Gabbana virou um ícone do empresário-e-buon-vivant. Jovens usam calças bem cortadas, camisas estreitas, bermudas de alfaiataria e looks mais coloridos (muito branco, azul) e ganham ar de homem sofisticado (e rico). O homem da marca é ativo, que se cuida, faz esporte, gosta de viajar e não tem problemas em investir (muito) para se vestir, comer bem e circular em rotas jet-setters.

A dupla de estilistas celebrou, na última semana de moda masculina de Milão, os 20 anos da coleção Homem da Dolce & Gabbana. Foi em 1990 que apresentaram o primeiro desfile em Nova York e abriram um show room na cidade.

A comemoração do aniversário pontuou uma série de eventos para um público selecionadíssimo em Milão, como a festa no Palazzo Marino, com show da cantora Annie Lennox e presença de celebridades que usam a marca, como a atriz Monica Bellucci e a modelo Eva Herzigova. Paralelamente, a dupla também celebra a força da segunda marca, a D&G. Mais acessível comercialmente e um espaço para experimentações mais datadas dos estilistas, a D&G é símbolo de desejo dos jovens italianos, que têm acesso à marca pelo caminho mais pop.

  • Divulgação

    Modelos provam óculos em backstage do desfile masculino da D&G, em junho deste ano, em Milão

A dupla Domenico Dolce e Stefano Gabbana concedeu entrevista exclusiva ao UOL Estilo, em Milão. Na coversa, falaram da moda na Itália, do aniversário da marca e de futebol.


UOL Estilo: O mito do estilo italiano existe há muitos anos. Como vocês definiriam, na contemporaneidade, esse estilo?
Domenico Dolce: O adjetivo “italiano” hoje já passa a mensagem imediatamente. O estilo italiano é considerado, desde sempre, um sinônimo de elegância autêntica, de tradição na alfaiataria, sensualidade nos cortes e nas formas, de um leve requinte.
Stefano Gabbana: E pesquisa de matéria-prima de qualidade superior, mas não só isso. O estilo italiano não é só um método de se vestir e costurar, é um estilo de vida que deseja coisas belas. É ter o prazer de conceder, a nós mesmos, coisas que amamos.

O que significa para vocês fazer parte do sistema “Made in Italy” (Fabricado na Itália, em inglês)? Já chegaram a escolher um modo mais globalizado de trabalhar, produzindo em outros países?
SG: Antes de tudo, fazer parte do “Made in Italy” é um motivo de orgulho. Produzir na Itália significa buscar uma qualidade elevada, garantia de um produto feito como se deve e com alto nível de artesanato.
DD: Para nós, a globalização de hoje não deve tirar nada, só adicionar. Se decidimos produzir algumas peças fora daqui é porque descobrimos, por exemplo, algum pequeno fornecedor no exterior que é capaz de nos garantir a mesma qualidade.

Por que vocês escolheram o quadro impressionista “Almoço na Relva” de Édouard Manet como uma inspiração para a última coleção masculina da D&G? Uma vontade de voltar à natureza?
SG: Sim, mas não é só isso. Tínhamos vontade de recuperar a sensação daqueles dias despretensiosos, sem muita coisa na cabeça, que normalmente se passa no meio da natureza com os próprios amigos. Aquela felicidade relaxada que você só sente quando está entre as pessoas e as coisas que ama de verdade. O quadro de Manet nos dava exatamente essa sensação.

A colaboração de vocês com o mundo do esporte é frequente, principalmente com o futebol. Por que é importante para vocês ter essa ligação?
DD: Porque acreditamos que os esportistas são os novos ícones de estilo hoje. É principalmente graças aos esportistas e, em especial, aos jogadores de futebol, que os homens mudaram o jeito de ver a moda. Com o nosso livro “Cálcio” [“Futebol”, publicado em 2004], mostramos uma visão do que é considerado atlético, de como é um homem que cuida de si e da própria imagem.
SG: Falamos de homens que entenderam que, na sociedade de hoje, para vencer, é importante também ter uma imagem vencedora.

O momento de agora é muito significativo para vocês: a marca D&G, a cada desfile, ganha uma identidade mais forte. Paralelamente, há a celebração dos 20 anos de Dolce & Gabbana masculino. O que representa para viver essas duas estradas que fazem parte de uma mesma realidade?
SG: É realmente um momento muito importante para nós, que vivemos essa fase como uma meta, mas também como um novo começo.
DD: As marcas Dolce & Gabbana e D&G, mesmo tendo duas imagens e duas linguagens diferentes e tendo seguido percursos diferentes, são para nós duas faces da mesma moeda, que crescem e se envolvem com nossas vidas. Definimos as coleções Dolce & Gabbana como expressão de um sonho, da alfaiataria em um nível máximo, um novo conceito de luxo. Já a D&G representa uma forte ligação com tudo o que acontece no agora, tem um espírito mais anticonformista, que não segue regras pré-definidas.
SG: É muito interessante ver que, nesses anos, a D&G evoluiu tanto. Mostra exatamente o que queríamos no início. As coleções representam sempre o modo como nos sentimos em um determinado momento, as sensações que experimentamos e as influências que recebemos de fora.

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