Moda

Mulher e brasileiro vencem estrangeirismos e se impõem no SPFW

Alexandre Schneider/UOL
Desfiles de Maria Bonita, Ronaldo Fraga, Huis Clos, V.Rom e Reserva no quarto dia do SPFW Inverno 2011 imagem: Alexandre Schneider/UOL

CAROLINA VASONE
Editora de UOL Estilo

Não é fácil fugir do estereótipo da mulher de vestido curto e justo, o mulherão para quem todo mundo olha, e, parece, a "piriguete" (fina ou não, aí depende do dinheiro e do bom gosto investidos) que a maior parte das brasileiras ambiciona ser.  Também difícil não cair no estereótipo ao retratar a exclusão econômica e social do país numa coleção de moda. E, além de tudo, vencer os estrangeirismos inerentes ao "mundo fashion", cuja essência é européia e as afetações, pronunciadas apenas em inglês, para criar uma identidade que reflita o Brasil sem ufanismo, com um estilo ao mesmo tempo regional e global..

Na última segunda (31), a Maria Bonita parece ter conseguido colocar o último tijolo nesta complexa edificação, destacando-se não só no quarto dia, mas entre todos os desfiles do SPFW até agora. Ao som de "Construção", de Chico Buarque, a marca carioca fez homenagem aos nordestinos e trabalhadores vindos de outras partes do país para construir Brasília nos anos 1950. Os "candangos" (termo geralmente pejorativo usado de forma ao mesmo tempo irônica e direta pela grife) foram homenageados de forma subjetiva: na simplicidade das formas de suas roupas, na alusão das marmitas e maletas de ferramentas transformadas em bolsas como a de acrílico transparente ou as carteiras de metal, no caráter funcional do que usam por meio de vestidos com bolsas e pochetes acopladas. O material utilizado para as roupas era natural e também, em tese, simples:  uma malha de lá de alta qualidade, em tons terrosos e azuis acinzentados (os tons da terra de Brasília e de seu céu urbano).

Elegante e sofisticada sem ostentação, a mulher da Maria Bonita incorporou, ao seu estilo,  a sensualidade que a brasileira tanto preza quando se veste. Para a Maria Bonita, porém, a mulher merece um segundo olhar, merece ser contemplada. Assim, seus macacões são sexy na medida em que revelam as costas nuas, presas na pele pelo cinto fininho que, na parte da frente do modelo em lã marrom quase em tom de pele queimada, apenas insinuava marcar a cintura. As transparências mostram as pernas sob um véu leitoso e o decote nadador, costas e braços. Os azulejos e o trabalho de Athos Bulcão, arquiteto e artista parceiro de Niemeyer, que participou da construção de Brasília, foram citados nos looks resinados com recortes que lembravam as placas de metal do plenário do Senado, ou os desenhos triangulares do Museu de Gemas, também na capital brasileira. 

Também inspirada no azulejista, a coleção de Ronaldo Fraga mostra um outro olhar sobre a valorização do Brasil na moda. Com um clientela muito específica, a coleção tem como ponto alto as estampas. As modelagens, embora longe do corpo, como de habitual, revelam construções bem definidas, como a grande prega nas costas das blusas, que as deixava estufadas na parte de trás. Vestidos e saias longas, com bolsos, tops de mangas e formatos arredondados e estampas marcantes e humoradas definiram o Inverno 2011 de Fraga que agradará garotas românticas e alternativas, que não querem expor a sensualidade por  meio do que vestem.

A última segunda (31) foi ainda um bom dia para a moda masculina, com o desfile de streetwear da V.Rom e os almofadinhas descolados da Reserva.

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