Moda

Lady Gaga abala espírito "blasé" parisiense e incorpora fetiche de Mugler

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Lady Gaga para Thierry Mugler, Gareth Pugh, Dries Van Noten e Rochas foram alguns dos destaques do segundo dia de desfiles em Paris imagem: AFP PHOTO/REUTERS/Montagem UOL

CAROLINA VASONE

Enviada especial a Paris

"Fulano, fulano, ela chegou, ela está aqui!", gritava uma assessora exasperada para outro assessor que ja tinha se postado no meio da rua. Não era Lady Gaga, mas madame Suzy Menkes, uma das poderosas editoras de moda com renome mundial, do "International Herald Tribune". Não fosse o estardalhaço da relações públicas, a senhora Menkes teria passado pela entrada discretamente, como geralmente o faz. Meia hora antes, outro alarme falso: muitos seguranças, um empurra-empurra, um grito na multidão: "I love you...Anna!", soltou um jovem fashionista de lápis preto no olho e câmera do celular na mão. Fotografou a cabeleira chanel tipo peruca de Anna Wintour e a editora da "Vogue" América passou, sem deixar nem cheiro de Lady Gaga no ar.

O tempo, aliás, não estava para "groupies" ( da moda ou da música) de plantão: haja amor pelas silhuetas fetichistas de Thierry Mugler e pelo exibicionismo profissional de Lady Gaga para aguentar vento gelado às nove da noite de uma quarta-feira. Ou será que ninguém tinha companhia para tomar um bordeaux em casa?

A espera dos fãs por um convite ou uma aparição relâmpago da cantora americana foi em vão. Gaga, há muito, se preparava no backstage da marca, montado em um ginásio parisiense, onde aconteceu o desfile. Com curvas de menos e pose de sobra, a estrela pop incorporou - com a categoria performática que a fez conhecida - a sensualidade agressiva da grife, mesclada aos volumes geométricos talhados na alfaiataria masculina, agora intepretados por Nicola Formichetti, ex-stylist de Gaga (ah, agora foi feita a conexão) e estreante na direção criativa da grife.

A marca francesa ícone dos anos 1980 sem dúvidas foi a grande atração do segundo dia da semana de moda de Paris, tanto pela curiosidade sobre a participação de Gaga quanto pela curiosidade sobre a nova fase da marca. E até pela mudança de comportamento do "métier" fashion francês, sempre tão "blasé", educado até para ser mal-educado ("por favor, o senhor não pode ficar aqui", "eu sinto muito, o senhor não está na lista", são frases ditas para expulsar gente da porta ou do próprio desfile sem um pingo de impaciência ou rispidez no tom da voz), posto à prova por gritinhos de fãs e tentativas de discretas invasões ao desfile a cada dez minutos. "Vocês vão ver o desfile daqui a pouco dos seus iPhones", vociferava a assesora na frente da grade que formava um corredor de acesso à porta de entrada do desfile, numa última tentativa de apaziguar a pequena turba fashionista.

Burburinhos à parte, outras três marcas se destacaram neste dia de tantos desfiles (ao todo foram quinze, incluindo os paralelos ao evento). A Rochas é eficiente em oferecer roupa impecável, clássica sem ficar totalmente careta para uma mulher tradicional e feminina. Já Dries Van Noten, o nome conceitual mais forte do dia, investe em cores, texturas e a alfaiataria em preto num desfile ao mesmo tempo alegre e intelectual. E, por fim, Gareth Pugh, que foi colocado numa situação curiosa: com a condenação moral pública de Galliano (por apologia ao nazismo) e a morte de Alexander McQueen, o também estilista inglês se tornou o novo queridinho na categoria "provocação com muita qualidade" da temporada francesa.

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