Moda

Sem Galliano, Dior desfila em clima de luto e auto-homenagem

Jacques Brinon/AP
Funcionários da Maison Dior são aplaudidos ao final do desfile na Semana de Moda de Paris Inverno 2011 imagem: Jacques Brinon/AP

CAROLINA VASONE

Enviada especial a Paris

Não há nova tendência que Alber Elbaz possa lançar na Lanvin ou desfile conceitual que a maison Margiela venha a apresentar capaz de desviar a atenção do assunto do dia. Nesta sexta (4), o mundo da moda não consegue pensar em outra coisa, senão em Dior.

Foi no início desta tarde, no museu Rodin, que o desfecho final da saída de Galliano da maison francesa aconteceu. Poucos esperavam que o estilista aparecesse ao final do desfile, em uma das entradas triunfais já tradicionais que protagonizava na grife, mas também foi com certa surpresa que os fashionistas receberam Sidney Toledano, o presidente da maison francesa, para ler, em cima da passarela, microfone à mão, um comunicado sobre a posição da Dior em relação à demissão de seu diretor criativo. Em francês, o texto citou o caráter "intolerável" da situação, lembrou como, em 1947, ao criar o "new look", Christian Dior contribuiu para a atmosfera de novos tempos do pós-guerra (guerra esta vencida contra o nazismo, o qual Galliano teria enaltecido em sua declaração de amor ao Hitler num bar do Marais em estado de completa embriaguês), citou o respeito aos outros, "a todos", como um dos princípios da grife, ao lado da excelência, do caráter artesanal e exclusivo. Por fim, disse o quão doloroso era o momento, não só pelas consequências do que disse o estilista mas por ele ser alguém de extremo talento e apreciado pela grife.

Alguns minutos se passaram até que o pronunciamento acabasse, ouvido em silêncio tumular. O clima na sala de desfiles, aliás, era dramático, assim como o tom do discurso da maison, que começou e acabou por enaltecer os valores de uma casa tão tradicional e conhecida de todos. As luzes acenderam e a última coleção de Galliano para a Dior entrou na passarela.

  • François Mori/AP

    Modelos desfilam criações do estilista John Galliano para a Dior na Semana de Moda de Paris

Sem corpo presente, o espírito descarnado de Galliano estava todo lá, no inverno 2011 da Dior. Impossível olhar para as roupas da grife sem notá-lo, dos vestidos transparentes tipo lingerie longos ou curtos, com muitos ou pouco babadinhos, usados de maneira coquete mas também um tantinho perversa aos olhos e bocas marcadas em vinho, ou à referência às roupas de época masculinas na bermuda até o joelho com acabamento de lacinho, nas mangas bufantes a partir do cotovelo. A referência eram os dândis e os poetas românticos ingleses, mas também podia-se ver um pouco de Galliano naqueles looks  com influência masculina histórica.

A capa longa, com capuz, misteriosa, ao mesmo suntuosa e com aspecto gasto, abriu o desfile e serviu como ponto de partida para muitos dos casacos curtos, em "A", como o xadrez em verde e amarelo esmaecidos, com franzido logo abaixo do peito. A cintura tipo império apareceu em outros looks dando um clima romântico à coleção. Em cima dos vestidos extremamente femininos, paletós de alfaiataria longos, masculinos. Se o final do desfile pareceu mais delicado em tons lavados de rosa, amarelinho e creme, o início misturou tons sujos de azul petróleo e azul quase escuro com rosa magenta, além do verde com o amarelo e o vermelho escuro, quase vinho.

No final do desfile, os aplausos começaram a seguir o ritmo da música, como se pedissem timidamente um bis. No lugar do estilista, a equipe do ateliê da Dior, inteira de branco, apareceu na boca da passarela, num grupo de pelo menos 30 pessoas. Muitos se emocinaram. Houve quem tenha chorado. Outros, saíram mudos, carregando a cara de luto para a saída mais próxima.

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