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Criadora de bijuterias de novelas das 9, designer mineira vende para todo o Brasil

Marcus Desimoni/Nitro/UOL
A designer Mary Figueiredo Arantes, da marca de bijuterias Mary Design, posa em seu showroom, em BH (12/5/2011) imagem: Marcus Desimoni/Nitro/UOL

CAROLINA VASONE

Editora de Moda, Beleza e Casamento do UOL

Mary nasceu no Vale do Jequitinhonha, "uma das regiões mais pobres do Brasil", enfatiza, sobre o semi-árido mineiro. A mãe era professora primária. Os estudos do  primário, o pai de Mary não completou. Criou oito filhos graças à profissão de alfaiate, que muito cedo já inspiraria a caçula da família. Nestes tempos, Mary ainda era Meire.

"Desculpe, mas seu nome é Mary ou Meire?". "Acho que a gente pode começar a entrevista por aí", responde a designer das bijuterias acostumadas aos holofotes das novelas das nove, com um sorriso no rosto que parece querer revelar uma história curiosa. "Sabe como é pobre quando quer dar nome em inglês para o filho. É Mary, mas todo mundo me chamava de Meire lá no Vale do Jequitinhonha. E eu achava que Meire era o meu nome. Aí, quando me mudei para Belo Horizonte, começaram a me chamar de Mary, e eu já não sabia mais quem eu era!", conta.

Foi aos 13 anos, quando mudou-se para a capital mineira, que Meire descobriu que também podia ser Mary. Aos 17, trocou os restos de tecido do pai que costumava usar para confeccionar as mais diversas bijuterias, por conchas, e fez o que considera sua primeira coleção, inspirada pelo dia em que conheceu o mar, em Guarapari (ES). Alguns anos mais tarde, quando as vendas já não se restringiam às peças pedidas pelas amigas, poucos meses antes ou depois de Marília Pêra usar um colar de sua marca na minisséria "Quem ama mata", em 1982, Mary Figueiredo Arantes oficializou lançou-se oficialmente no mercado com a abertura do seu primeiro ateliê. Tinha três funcionários: ela mesma, o irmão e o marido.

Quase trinta anos mais tarde, 60 pessoas integram a equipe da fábrica da marca, que hoje cria cerca de 15 mil peças mensalmente, vendidas em 500 lojas multimarcas por todo o Brasil e desfiladas no Minas Trend Preview, cuja última edição terminou há uma semana. Do total  produzido de bijuterias também fazem parte coleções elaboradas especialmente para grifes de roupas como a carioca Farm e as paulistas Maria Garcia e Alcaçuz.

A principal vitrine da designer autodidata, dentista de formação, é a televisão. A primeira aparição em rede nacional de uma bijuteria dela aconteceu no início dos anos 1980, no pescoço da Marília Pêra, na minissérie "Quem ama mata". "Um amigo conhecia a figurinista e mostrou a ela um colar meu de cristais com uma conta de cada lado", lembra, sobre o modelo usado pela atriz. Desde então, emplacou várias novelas das seis, sete e, principalmente, das nove (a antiga novela das 8) da Globo. "Celebridade" (2003), "Sete Pecados" (2007), "A Favorita" (2008) e, atualmente, "Morde & Assopra" são alguns exemplos. Em "Passione" (2010), vestiu seis personagens, entre elas Bete Gouveia, interpretada por Fernanda Montengro, cujo anel de olho de tigre assinado por Mary esteve entre os mais pedidos pelas telespectadoras no serviço de atendimento da emissora.

Sem loja própria, com apenas um showroom localizado numa região central de Belo Horizonte (MG), Mary faz questão de valorizar as próprias origens e memórias afetivas em suas peças. Referências religiosas e o uso de tecidos (a primeira matéria-prima, apresentada a ela por meio do ofício do pai, com que fez um acessório) são marcas de seu estilo. O colar de penca, com pingentes de santos e símbolos de sorte, criado no começo da carreira, está na coleção até hoje. Entre os tecidos, o algodão e o cetim são os mais usados. Por uma questão prática: há muito desperdício de tecido quando ele é cortado no viés (técnica usada para a confecção de muitas de suas bijus) e Mary não quer encarecer seu produto. "Tenho carinho pelo dinheiro do outro", diz, como quem não esquece dos tempos em que não tinha dinheiro para comprar roupas e acessórios. "Lá no Vale do Jequitinhonha era assim: a gente não podia ter, então fazia."

Aos 55 anos, dois filhos crescidos, livros de poesia publicados, peças vendidas por todo o país e alguns pontos no exterior, Mary Arantes agora planeja, sem data prevista para inauguração, sua primeira loja própria. "Meu sonho é ter uma loja tipo conceito em São Paulo", diz.

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