Moda

"O brasileiro não defende o que é seu", diz Lino Villaventura, que desfila nesta sexta

Jarbas Oliveira/UOL
O estilista Lino Villaventura em sua loja em Fortaleza, no Ceará imagem: Jarbas Oliveira/UOL

FERNANDA SCHIMIDT

De São Paulo

Um dos estilistas de trabalho autoral mais rico do país, Lino Villaventura apresenta sua coleção para o Verão 2012 na noite desta sexta-feira (17), durante o São Paulo Fashion Week. Mas antes recebeu a reportagem do UOL em seu ateliê em Fortaleza, no Ceará, para uma conversa sobre moda, Brasil e artesanias.

Segundo Villaventura, a população não aprecia o trabalho manual como deveria. “O brasileiro não defende o que é seu. Tem esse grande problema de achar que o tecnológico é melhor ou o que já foi feito fora do país. A gente mora no paraíso da inspiração criativa, este é um país riquíssimo”, disse. O estilista acredita que quando um trabalho possui uma forte identidade autoral, ele não fica datado. “Quando inaugurei a nova loja de Fortaleza, em 2004, todas as clientes vieram com roupas que eu tinha feito no início [da carreira]. E elas não pareciam estar fantasiadas de anos setenta. É incrível isso”, disse. Entre elas estava Branca de Castro, uma personalidade local e a primeira pessoa a encomendar uma peça do estilista, há mais de três décadas.

“Meu trabalho foi muito pessoal desde o início. Nunca tive uma fase de me influenciar por alguém ou copiar. Nunca comprei revista de moda ou assisti a programas sobre o assunto, porque não gosto de ver o que é feito”, disse o estilista. Para ele, o que importa são seus livros. E imagens, muitas delas. São elas que, em algum momento, acabarão se transformando em detalhes de uma coleção, seja um bordado, uma textura ou uma nervura.

Ao mesmo tempo em que tem o trabalho manual como base para suas peças, Villaventura faz questão de buscar as novidades tecnológicas que poderiam ser incorporadas às criações. “Tenho isso de transformar materiais e dar um tratamento nobre a eles, tornando-os sofisticados, mesmo quando parecem rústicos. Sempre fiz isso muito bem e fui incentivado a continuar, porque era um trabalho original, numa época em que as coisas eram muito copiadas. Fiz disso uma característica da marca”, disse ele, sem falsa modéstia.

Ao seu lado, trabalha uma equipe de artesãs, contratada para desenvolver e reproduzir as ideias que tem. “Não tenho floristas, então se quero uma flor vou lá e invento. Mostro para elas, oriento como quero, e elas fazem”, contou. Apesar de não integrarem nenhuma comunidade ou organização de artesãs, elas sempre tiveram uma forte ligação com o ofício, aprendido em casa com suas mães, tias e irmãs.

O estilista nasceu no Pará e se mudou com a família aos 17 anos para Fortaleza, cidade que disputa sua residência com São Paulo. Essa miscelânea cultural é, em sua opinião, responsável pela pluralidade do trabalho que desenvolve. “No Pará é toda essa mistura, de uma cultura indígena muito presente, com a cultura portuguesa bastante forte. Então, tenho muita sorte de possuir essas três coisas: o superurbano, o nordestino e a Amazônia.”, falou.

Para ele, seu trabalho será sempre brasileiro, seja qual for inspiração. “Sou brasileiro e faço um trabalho autoral. Não preciso usar os ícones da cultura ou personagens históricos para impor isso”, disse. O estilista acredita que o desafio do criador, assim como o de qualquer profissional, é fazer algo que seja reconhecível. “Criar um estilo próprio, surpreender e notar a evolução, porque quanto mais o trabalho evolui, mas jovem fica”, completou.

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