Moda

Crueldade com animal pela moda é tema de manifestação durante SPFW, que começa nesta quinta

Júlia Guglielmetti/UOL
Painel criado por artistas de rua durante manifestação do Move Institute durante o São Paulo Fashion Week Inverno 2011 (02/02/2011) imagem: Júlia Guglielmetti/UOL

Fernanda Schimidt

Do UOL, em São Paulo

Diversos casos de crueldade com animais têm repercutido na imprensa e nas redes sociais nos últimos meses – um filhote de cachorro enterrado vivo, um yorkshire espancado até a morte, dezenas cães e gatos mortos e ensacados –, e o assunto voltará à tona durante o São Paulo Fashion Week, principal evento de moda do país, que começa nesta quinta-feira (19) na capital paulista.

Raio-X da indústria da pele

Materiais: couro (vacas, porcos, cangurus, bodes e ovelhas), pele (castores, chinchilas, coelhos, cães, gatos, lobos, minks, raposas, focas e ursos) e exótico (cobras, lagartos e crocodilos)
Estima-se que 85% da pele usada na indústria da moda venha de animais confinados
Entre os métodos usados para abater os animais estão sufocamento, eletrocussão, intoxicação por gás e envenenamento
É comum a pele ser retirada com os animais ainda vivos sem anestesia
Produtos tóxicos são usados na transformação da pele do animal em couro

Dados da ONG People For The Ethical Treatment of Animals (Peta)

Coelhos e raposas produzidos com isopor reciclável farão parte de uma intervenção comandada por artistas plásticos na entrada do evento, no prédio da Bienal, durante o fim de semana, com o objetivo de conscientizar o público contra o uso de peles, couro e penas em desfiles e editoriais de moda. “Não tem nenhuma diferença [a crueldade com animais domésticos daquela para a extração do couro]”, disse em entrevista ao UOL Adriana Pierin, ativista do Move Institute, responsável pela ação durante o São Paulo Fashion Week há quatro temporadas. “As pessoas muitas vezes não sabem que suas carteiras, bolsas e pulseiras são feitas de couro. Fotógrafos, editores de moda e maquiadores acabam sendo cúmplices desta alienação e da divulgação de peças que utilizam produto animal”, completou.

O fato de as passarelas desta edição mostrarem as coleções para o próximo inverno dá mais pano para a manga da discussão por uma moda ética, já que o Brasil tem um importante fator a seu favor: o clima. “É um país tropical. Não temos a necessidade de usar roupas de origem animal. O uso de pele nem deveria ser um assunto sobre o qual temos de pensar”, disse a consultora de moda Chiara Gadaleta, criadora do site Ser Sustentável com Estilo.

Chiara acredita que o ponto principal deste debate é apresentar soluções alternativas aos produtos de origem animal. A sua preferida são as tramas de tricô. “Temos trabalhos artesanais criativos e muito bonitos. Sinto que no São Paulo Fashion Week estão começando a prestar mais atenção nessas peças feitas à mão. Vi muito disso já nos desfiles do Fashion Rio e Fashion Business”, comentou ela. Há também as versões sintéticas que imitam couros de diferentes origens e até técnicas de serigrafia criadas para substituir peixes ou crocodilos.

No entanto, a ativista do Move Institute admite ter dificuldades para encontrar algumas peças. “O problema da moda ética, às vezes, é que ela é de mau gosto. A marca de calçados Piccadily, por exemplo, faz tudo sem couro, mas os sapatos são feios na minha opinião”, disse. A confecção de sapatos em couro vegetal é delicada e mais trabalhosa. “Os materiais sintéticos são mais finos e menos elásticos. Como a maioria das técnicas industriais não são apropriadas para a produção sem couro, a maioria das etapas da produção de um sapato acaba sendo feita manualmente”, explica o site da estilista britânica Stella McCartney, principal nome da moda sustentável no mundo.

Os custos, consequentemente, são elevados em comparação às linhas de produção industrial. “Os preços ainda são mais altos, porque tem pouca demanda. Quando a demanda aumentar, logicamente o preço baixa”, afirmou a consultora de moda Chiara.

Certificados

Uma questão polêmica mesmo entre os defensores da moda livre de crueldade é a certificação de couros e peles. Marcas como a carioca Osklen, por meio do Instituto E, promovem o uso de materiais como o couro de tilápia ou de dourado como alternativas ecológicas ao produto bovino.

Seja um fashionista consciente

Procure saber de onde vieram as peças que vai comprar
Evite comprar produtos de origem animal
Use alternativas como as peças artesanais de tricô e crochê
Dê preferência às roupas produzidas no Brasil
Cobre suas marcas favoritas por opções ecológicas e incentive as que já aderiram à moda

Chiara, por exemplo, apóia a iniciativa. “Eles são mais ecológicos, porque a indústria pesqueira é menos poluente do que as outras de couro”, disse.  Já Adriana é mais radical: “sou contra qualquer tipo. Os únicos produtos de origem animal que são obtidos sem sofrimento são leite e ovos orgânicos, porque os bichos ficam soltos no pasto”, afirmou ela, que é vegan, ou seja, não come alimentos que tenham carne, ovos, leite ou mel.

A ativista é a favor de outro tipo de certificados. “Queremos que o governo fiscalize e certifique esses termos ‘eco’. A moda teria de ter selos para que quem compra saiba de onde veio aquele produto”, falou. Adriana acredita que a superexposição de palavras como “eco”, “bio” e “sustentável” criou uma leva de “eco-oportunistas” que se utilizam destes termos para fazer propaganda de produtos que nem sempre são ecológicos de fato.

Com este princípio, ambas concordam. “É importante tomar cuidado, pensar na peça e em quem está por trás dela, e pedir mais transparência das empresas. Só temos a ganhar com isso”, comentou Chiara.

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