Moda

Impostos, despreparo da indústria e "cultura de marca" inflacionam a moda brasileira

Arte/UOL

Augusto Paz

Do UOL, em São Paulo

Por que é tão caro comprar roupa no Brasil? Com esta questão em mente, o UOL Moda investigou quais são os fatores que compõem o preço de uma peça de roupa, no qual entram itens como tributação, capacitação do empresariado e encargos entre outros custos. Afinal de contas, qual é o preço da moda por aqui?

Existe um cálculo-base para se chegar ao preço final de um produto vendido no varejo, que consiste basicamente em somar os custos da matéria-prima usada no bem a ser comercializado, a mão-de-obra empregada e o “mark-up”, ou seja, o valor que o fabricante cobra além do que gastou para produzir e distribuir seu produto. Sobre isso, ainda é acrescida uma série de impostos que, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), corresponde atualmente a 40% do valor do produto final.
 
A carga tributária é o pesadelo dos empresários brasileiros, em especial dos produtores de roupas. De acordo com dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o setor de confecção foi o ramo da indústria de transformação que mais arrecadou impostos entre os anos de 2005 e 2009. Pesquisa realizada pela Fiesp com empresários do setor de pequeno, médio e grande portes aponta a tributação como empecilho número 1 ao crescimento de seus negócios. 
 
“O Brasil está caro”, afirma o presidente da Abit, Fernando Pimentel. Segundo ele, o cenário cambial de dólar fraco e real forte deixa o produto nacional mais caro que o estrangeiro. O preço das roupas sobe mais ainda com a má administração de recursos públicos, como energia elétrica e combustível.
 
De fato, é possível verificar que, quando comparado a outros setores da economia, o aumento dos preços das roupas brasileiras não foi tão grande. De acordo com dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (Ipca), o setor de vestuário brasileiro sofreu inflação de 107% durante o período de 1994 a 2012, enquanto que o índice geral ultrapassou o patamar de 300%. O aumento de setores como alimentação (236%), transporte (300%), habitação (533%) e energia (+500%) foi bastante superior ao do vestuário.
 
Mesmo com a inflação relativamente sob controle, a situação do confeccionista se complica quando o fator “concorrência externa” é somado a essa equação. Alessandro Pascolato, diretor-residente da tecelagem Santa Constância, afirma que, dos portões para dentro, a indústria têxtil e de confecções brasileira é moderna, atual e competitiva. Entretanto, no âmbito internacional, ainda deixa a desejar em comparação aos concorrentes. 
 
O empresário cita ainda a forte investida do setor têxtil asiático como ameaça ao mercado brasileiro. “Os lideres mundiais têxteis asiáticos, encabeçados pela China, subsidiam fortemente as indústrias locais para servir de primeira etapa de inclusão social urbana, baixando artificialmente ainda mais os preços de têxteis e confecções”, afirma.
 
Mas nem tudo se resume a números e equações. De acordo com Francisca Dantas
Mendes, doutora em Engenharia da Produção e docente no curso de Têxtil e Moda da
Universidade de São Paulo, existe um fator cultural relacionado ao preço dos produtos de vestuário no Brasil. Em sua opinião, a falta de capacitação do empresariado brasileiro é um dos fatores que mais contribui para a ascensão do preço da moda no país. Em vez de elaborar um estudo sobre os fatores compositivos do valor final a ser cobrado, o empresário mal preparado apenas estima tal preço.
 
A questão cultural a que a professora se refere estende-se além do confeccionista e atinge o consumidor final. O brasileiro ainda associa qualidade a preços altos. É a chamada "cultura da marca", tão arraigada no país. Portanto, qual é o interesse do comerciante em baixar os preços se o cliente está disposto a pagar o que lhe é cobrado?
 
Estudo do Instituto Data Popular aponta que, em 2011, a festejada Classe C foi responsável pela maior parte das compras de moda feitas no país, com 48,4% (R$35,3 bi) contra
33,6% da Classe A e 18% das Classes D e E. Resta questionar se o crescimento desse nicho de mercado afetará o setor. Até quando estaria a Classe C disposta a pagar mais caro por suas roupas?
 
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