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Grife Ermenegildo Zegna lança projeto que incentiva a arte; iniciativa deve chegar ao Brasil

Cecilia Fiorenza/Fondazione MAXXI
Obra de Lucy + Jorge Orta, que integra a mostra "Fabulae Romanae", em cartaz até 23 de setembro de 2012 no MAXXI, em Roma imagem: Cecilia Fiorenza/Fondazione MAXXI

Elisabetta Povoledo

Do New York Times, em Roma

Belas Artes e marcas de luxo vêm cruzando seu caminhos há tempos, criando uma mistura de cultura, merchandising e branding. O mais recente exemplo italiano desta associação vem por meio dos artistas Lucy e Jorge Orta, sediados em Paris e que criaram uma instalação para o Maxxi, o Museu Nacional das Artes do Século 21, de Roma. 

A obra foi encomendada pela marca masculina italiana de luxo Ermenegildo Zegna em uma situação proveitosa para todos: a marca tem visibilidade, os artistas podem trabalhar e o museu, carente de fundos, consegue o tão necessário financiamento privado. Na apresentação da instalação, Orta descreveu a família Zegna como os Medici dos dias de hoje, mencionando a família de Florença que patrocinava obras de Michelangelo e Bramante, celebridades artísticas do Renascimento. 
 

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Precisamos ter mais gente jovem atraída pela marca, então trilhamos o caminho da responsabilidade social, do meio ambiente e do apoio às artes

Gildo Zegna, CEO da Ermenegildo Zegna
“Trabalhar com arte faz com que a marca seja notável”, disse Gildo Zegna, presidente executivo do grupo Zegna. O empresário espera que a associação com as artes ajude sua grife. “Estamos felizes com o que temos feito, mas há negócios por trás disso tudo”, afirma. A colaboração da marca Zegna com o Maxxi acontece em um momento fortuito para o museu, que foi inaugurado há menos de dois anos e tem futuro incerto por problemas de investimento.
 
O Ministro da Cultura da Itália deu início a procedimentos para substituir o quadro de diretores da fundação que dirige o museu por um administrador indicado pelo governo. A disputa se concentra no que o governo diz ser uma inabilidade do conselho em atrair mais patrocínios privados para pagar por suas atividades. 
 
O vínculo entre moda e arte é forte no trabalho dos Orta. Para criar a obra, chamada “Fabulae Romanae” (ou Fábula Romana), uma microvila de tendas coloridas e manequins, os artistas visitaram a tecelagem da Zegna na região do Piemonte, ao norte da Itália, onde tiveram acesso às sedas, lãs e a outros tecidos da grife. O material foi utilizado junto com cobertores do exército francês, fardos de roupas de segunda mão e uma seleção multicolorida de luvas para compor os ”domos” ou “refúgios” típicos do trabalho dos Orta.  
 
Maria Luisa Frisa, que curou a exibição, disse que os artistas se encaixavam perfeitamente no projeto. Lucy possui um passado na moda, e os artistas geralmente usam tecidos em suas obras. Orta disse que a colaboração funcionou bem, “porque falamos a mesma língua”. Mas ele logo deixou claro que a marca não empurrou seus tecidos para os artistas usarem. “Eles nos deram carta branca para usarmos ou não: a situação ideal para o artista”, disse. “Não se tratava de um negócio ou da promoção de seus tecidos, mas de investigação.” 
 
Lucy Orta também leciona na Faculdade de Moda de Londres. “Na Europa, moda e educação artística geralmente se misturam”, disse Lorcan O’Neil, proprietário de uma galeria de arte contemporânea em Roma. “O mundo da moda se aproxima da arte com grande empatia e respeito”, acrescenta. “As pessoas que fazem roupas compreendem como é ser um artista. Há muita pressão para se ter tudo vendido ou exposto.”
 
  • Cecilia Fiorenza/Fondazione MAXXI

    Para "Fabulae Romanae", a dupla Lucy e Jorge Orta usou como matéria-prima tecidos e tramas cedidos pela grife Ermenegildo Zegna

A instalação dos Orta inaugura o ZegnArt, um projeto cultural plurianual da empresa Zegna que envolve instituições públicas como o Maxxi, bem como projetos de arte nas lojas Zegna ao redor do mundo. Na nova loja Ermenegildo Zegna na Via Condotti, em Roma, grandes fotografias do artista alemão Frank Thiel dividem espaço com as araras de ternos. 
 
Desde 2 de maio, a loja da marca em Nova York apresenta cinco trabalhos de Emil Lukas encomendados pela ZegnArt. Um artista americano cujo trabalho Zegna viu na Art Basel, a feira de artes da Suíça, Lukas usou fios de seda Zegna para a obra. “Tínhamos uma grande coleção de fios de seda e ele as usou em vez do poliéster. O resultado foi belíssimo”, diz o presidente da marca. “Este é o modo de abrir novas fronteiras para os artistas, este é o caminho a seguir”, afirma.
 
Flertar com o glamour é uma escolha conflituosa enfrentada cada vez mais por museus que dependem de fundos privados. Exposições de estilistas em museus, que geralmente excursionam pelo mundo, têm causado controvérsia, em parte porque as empresas destes estilistas ajudam a patrociná-los. A exposição de Giorgio Armani no Guggenheim Museum de Nova York em 2000 foi um exemplo. Ainda assim, estas exibições atraem público. A mostra de Alexander McQueen no Metropolitan Museum of Art em 2011, depois do suicídio do estilista aos 40 anos, foi um grande sucesso. 
 
Desde o início desta semana, o Costume Institute do MET abriga uma retrospectiva em homenagem a Elsa Schiaparelli, que faleceu em 1973, e Miuccia Prada, baseada em uma conversa imaginária entre as duas lendas italianas da moda. Ambas as mulheres possuem fortes ligações com a arte contemporânea de suas épocas. Salvador Dalí e Jean Cocteau colaboraram com a moda de Schiaparelli, enquanto o grupo de Miuccia administra uma importante fundação de arte e, no ano que vem, vai inaugurar um museu de arte contemporânea em Milão. 
 
Pio Baldi, presidente da Fundação Maxxi, diz não ser a favor de receber exposições de estilistas, que deixa evidências da lógica comercial. “Estamos interessados em produzir juntos. Do contrário, somos só o receptáculo”, acrescenta. E vai além: “O patrocínio puro não existe mais". Museus e patrocinadores “precisam encontrar um objetivo comum, que esteja no âmago do negócio de ambos, e desenvolver uma ação comum a partir dali”, afirma ele. 
 
  • Cecilia Fiorenza/Fondazione MAXXI

    Obra de Lucy + Jorge Orta, na mostra "Fabulae Romanae", patrocinada pelo ZegnArt. O projeto deve chegar ao Brasil em 2014, após passar por Turquia e Índia

Alguns especialistas em artes ainda duvidam dos híbridos produzidos por uniões comerciais e culturais. “Quando as disciplinas se misturam, é sempre um pouco complicado”, diz Angela Vettese, presidente da Bevilacqua La Masa Foundation em Veneza, que promove arte contemporânea. 
 
A colaboração do museu de Roma com a marca Zegna é relativamente rara na Itália, onde o patrocínio privado de atividades culturais recebe insignificantes incentivos financeiros do Estado e iniciativas pessoais podem ser vistas com desconfiança.  “Benefícios fiscais certamente iriam nos estimular a fazer mais”, disse Zegna. 
 
Quando Diego Della Valle, chefe da empresa de produtos de couro de luxo Tod’s, comprometeu-se a usar €25 milhões de euros (cerca de R$ 63 milhoões) para restaurar o Coliseu de Roma no ano passado, grupos pelos direitos dos consumidores se opuseram à doação na justiça, alegando que a empresa iria explorar o anfiteatro romano da antiguidade beneficiando interesse próprio. Zegna não diz quanto o grupo investiu em cultura. “Pelos padrões americanos, não é muita coisa, mas para nós é bem significativo”, afirma. 
 
Para aumentar a visibilidade internacional da Zegna, a ZegnArt planeja projetos com museus na Índia, Turquia e Brasil, mercados emergentes nos quais empreendimentos culturais podem ajudam uma marca a chamar atenção. “Precisamos ter mais gente jovem atraída pela marca, então trilhamos o caminho da responsabilidade social, do meio ambiente e do apoio às artes”, conclui Zegna. 
 

Tradutor: Erika Brandão

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