Moda

Quarentão, hip hop ainda mostra fôlego para ditar as tendências da moda

Fernando Santos/Folhapress
O rapper Código Treze durante show no extinto Aeroanta em 1988, em São Paulo (SP) imagem: Fernando Santos/Folhapress

Ricardo Oliveros

Do UOL, em São Paulo

A relação entre música e moda sempre rendeu ótimos frutos, e com o hip hop não poderia ser diferente. A cultura dos bairros negros de Nova York espalhou-se pelo mundo e lançou um grande número de ídolos que influenciaram gerações de fãs fora dos guetos de onde surgiram. Mesmo que você não seja adepto do estilo, que está presente em novelas globais e outros programas de televisão, saiba que muitas peças do seu guarda-roupa têm origem neste movimento. 

 
“A moda que vem do hip hop fala da nossa identidade. Eu moro na Cohab 1 (conjunto habitacional de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo), e a música ‘Elegância’ é baseada na minha experiência. Nela, cito o fato de que se vestir bem é importante para não ser confundido com bandido e, ao mesmo tempo, ser notado pelas minas. Tem gente que, quando me vê, acha que eu sou gringo, porque gosto de usar cores como amarelo, verde e vermelho que caem bem com a minha cor. Mas não tem essa de grife. Neguinho me olha achando que gastei uma fortuna, mas, na verdade, é roupa de brechó, que não saiu mais de R$ 50”, explica Rincon Sapiência, um dos rappers de destaque da nova geração nacional, que conta ainda com nomes como Emicida, Criolo, Slim Rimografia e Rael da Rima.
 

Aula de estilo hip hop

No clipe da música “Elegância” de Sapiência, podemos observar os diferentes estilos de roupas usados pelos fãs do hip hop. “Hoje não temos um estilo tão definido como nas origens do movimento. Eu observo que os jovens do bairro, ou dos que frequentam nossos shows, têm muita influência do rock, com calças mais justas e camisas xadrez, por exemplo. Por outro lado, vejo que voltaram a usar os bonés ‘snapback’ (com aba reta), os tênis dos anos 80 e o moletom com capuz, agasalhos esportivos, que são bem característicos do começo do hip hop”, conta o rapper.
 
A origem do hip hop
O Hip Hop surgiu nos meados da década de 1970, nos bairros negros e latinos de Nova York, um ambiente de pobreza e violência, dominado pelo tráfico de drogas, gangues e racismo. "Hip", que significa atual, é um termo usado por negros desde 1898; e "hop", um passo de dança. Entre suas origens, conta-se que Grandmaster Flash, um dos primeiros rappers da história, usou o termo hip/hop/hip/hop para marcar o compasso de marcha, uma brincadeira com um colega que tinha entrado no Exército. O DJ Afrika Bambaataa, porém, credita o DJ Lovebug Starski como o primeiro a usar o hip hip para definir algo como o “balançar os quadris”.
Da junção do DJ e do MC, que cantam de maneira quase falada suas rimas e animam as pistas de dança, surgiu o rap (junção das iniciais de “rhythm and poetry”, ou rítimo e poesia). O break é a dança oficial, assim como grafite é o seu elemento visual e artístico. Uma das grandes conquistas do movimento foi substituir a violência pelas batalhas de dança entre gangues, assim como oferecer uma série de oficinas de dança, poesia, música e grafite para tirar os adolescentes do tráfico. O modelo é usado até hoje em diferentes locais do mundo, inclusive no Brasil.
 
Roupas esportivas revelam a relação entre moda e hip hop
Nos final da década de 1970 e começo dos anos 1980, o estilo particular do DJ Afrika Bambaataa incorporou elementos africanos como cores e símbolos usados com camisetas estampadas com dizeres políticos, óculos extravagantes e jaquetas esportivas. O grupo Grandmaster Flash trouxe elementos do funk, a boina, o uso de cores fortes e o tênis de cano alto, herança do basquete praticado pelas ruas dos bairros pobres em quadras improvisadas. Não se deve esquecer que os grandes jogadores de basquete são negros, o que injeta auto-estima nos jovens desses bairros. É daí que surgiram também os bonés com logos dos principais times desta modalidade e o uso dos agasalhos esportivos.  As roupas mais folgadas dos dançarinos de “break” (dança toda quebrada como movimentos robóticos), também marcaram o estilo da época e estão novamente na moda.
 
A calça baixa com cueca aparecendo é proibida em cidades americanas
Peça mais polêmica do hip hop, a calça bem baixa com a cueca aparecendo, chamada de “sagging pants”, começou a ser usada na década de 1990. A origem está nos presídios, nos quais eram proibidos cintos, que eram usados como arma ou para suicídio por enforcamento. Os presidiários, após cumprirem suas penas, continuavam a usar as calças caídas, e o estilo acabou sendo adotado por vários ícones do hip hop, ganhando status de símbolo de liberdade. No começo no século 21, muitas cidades americanas fizeram leis que proibiam o uso de calças em que mostrassem a barriga ou a cueca, com direito a multa e até prisão. Entre o que protestaram contra esta lei estava o então candidato à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, em 2008, dizendo que isto era um desperdício de tempo.
 
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    O rapper Nas usa bandana com nó para frente e camiseta em homenagem a Tupac Shakur, que tinha o acessório como marca-registrada de seu estilo

Bandanas: origem incerta, mas sucesso nas cabeças dos rappers
Outra peça bastante comum é o uso de bandanas (lenços de cabeça), sozinha ou sob os bonés. As origens do uso são incertas. Como era comum em países latino-americanos, como Jamaica, Porto Rico e Cuba, seus imigrantes continuaram o costume nos Estados Unidos, nos bairros onde o hip hop nasceu.
Os negros, que optaram por penteados de estilo africano, como tranças, usavam óleo, pomada e até graxa para dar brilho aos cabelos, e a bandana permitia que as mechas não embolassem, além de proteger os bonés do contato com estas substâncias oleosas.
 
Marcas de luxo apostam no rappers
A partir dos anos de 1990, as grandes marcas começaram a perceber a capacidade de penetração dos rappers. Por exemplo, foi estabelecida a parceira da Adidas com o grupo Run DMC. Isso foi somente a ponte do iceberg que estava por vir. Snoop Doog fez uma aparição com uma camisa polo da marca Tommy Hilfiger no programa “Saturday Night a Live” e, no dia seguinte, a peça estava esgotada nas lojas. Era o auge da cultura de rua que atravessou os primeiros anos do século 21. O rapper Kanye West desenhou um modelo de tênis para a Louis Vuitton e surgiram dezenas de marcas dos cantores de hip hop: Wu-Tang Clan (Wu-Wear), Nelly (Vokal e Apple Bottom Jeans), Russell Simmons (Phat Farm), P. Diddy (Sean John), TI (AKOO), Damon Dash e Jay-Z (Rocawear), 50 Cent (G-Unit), Eminem (Shady Limited) e OutKast (OutKast Clothing).
 
“Se a ostentação de comprar artigos de luxo, como roupas de marcas, joias e carros pelos cantores de rap americanos pode significar, dentro da cultura hip hop, algo como ‘eu também posso’ e servir de inspiração para milhares de jovens, pode também soar como agressão”, comenta Rincon Sapiência.
 
De fato, até outros rappers, como membros do Public Enemy e Ice Cube, fizeram várias declarações contra o uso de peças caras, porque isso estava criando uma mentalidade entre os jovens de que eles só seriam felizes se tivessem o carro mais possante, o tênis mais caro e o penteado da moda, como na letra da música “Us” (1992), de Ice Cube, ou no hino “Don’t believe the hype” (1988), do Public Enemy.
 
“Bling Bling” é o barulho dos vistosos colares dos rappers
O uso de joias pelos rappers é outra característica importante do movimento, que teve origem em dois termos: “Pimp” e” Bling Bling”. “Pimp”, uma gíria para cafetão, também acabou sendo uma imagem forte para os rappers dos anos 1980, que se adornavam com enormes colares brilhantes, anéis e brincos de diamantes. É desse estilo que derivou o termo “bling bling”, o som dos colares batendo um nos outros.
 
“No Brasil, esta onda de usar muitas joias não pegou muito, e acho que por dois motivos: machismo e dinheiro. O que vejo mais é o uso de um colar, não mais que isso”, pondera Sapiência. Todavia, muitos jogadores de futebol e pagodeiros, especialmente no final dos anos 1990, usaram enormes brincos de diamantes. O uso do colar pode ser visto em todos os lugares, em diferentes camadas sociais, e é um dos itens de maior de sucesso em novelas como “Avenida Brasil”, por exemplo.
 
Moral da história
Você pode até não gostar de hip hop, mas em alguma fase da sua vida já usou um boné, um agasalho esportivo fora das quadras, gostou de um tênis de cano alto e usou uma corrente no pescoço. Estas peças todas ganharam peso e notoriedade graças ao movimento cultural que saiu dos guetos. A própria palavra “tag”, tão usada em sites, blogues e Twitter, é a mesma palavra usada pelos grafiteiros desde os anos 1980, para definir sua assinatura. “É nóis”, como dizem por aí.
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