Moda

Katie Ford deixou agência de modelos para combater o tráfico de pessoas

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Katie Ford durante lançamento de cartilha com orientações para o trabalho de modelos no exterior, no São Paulo Fashion Week (14/06/2012) imagem: Divulgação

Fernanda Schimidt

Do UOL, em São Paulo

A ativista norte-americana Katie Ford teve uma infância divertida. Cresceu em um duplex em um dos bairros mais luxuosos de Nova York, cercada por modelos de diferentes nacionalidades e recebendo visitas de fotógrafos renomados do mundo da moda, com quem jogava pingue-pongue e vôlei aos fins de semana. Seus pais, Eileen e Jerry, criaram em 1946 a agência de modelos que leva o sobrenome da família e transformaram sua casa em acomodação para “new faces”.

“Quando era pequena, não percebia que a nossa casa era diferente das demais, só que era muito mais agitada. Era com o que estávamos acostumados, não conhecíamos outra coisa”, conta Katie, que recebeu o UOL na semana passada para uma conversa no hotel Unique, em São Paulo. Katie veio ao país a convite do governo brasileiro para lançar uma cartilha com orientações para o trabalho de modelos no exterior.

Katie, 57, começou a trabalhar na agência dos pais aos 12 anos, como um estágio nas férias de verão. Assumiu a empresa em 1995 e a vendeu em 2007, por uma quantia não revelada, a um bilionário russo. “Vendi a Ford porque queria trabalhar com grupos indígenas e ajudar a criar um modelo de negócios para que sua cultura não se perdesse com o tempo”, explica.  Antes que pudesse dar início à nova atividade, a empresária ficou sabendo durante um painel da ONU que havia no mundo cerca de 27 milhões de pessoas vivendo como escravas. Mudou os planos e virou ativista.

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    Katie Ford, então presidente da agência Ford, posa com a modelo brasileira Camila Finn, vencedora do concurso Supermodel of the World de 2005 (12/01/2005)

“Acabei me apaixonando pelo assunto. Pude fazer um paralelo com a maneira como trazíamos as modelos para os Estados Unidos. As vítimas do tráfico recebem as mesmas promessas, mas acabam presas a uma situação inesperada”, diz ela, que criou a Katie Ford Foundation e trabalha em parceria com ONGs ao redor do mundo para combater a escravidão moderna. Ao falar do tráfico, seu tom muda, a voz encorpa. Katie faz questão de deixar claro que este paralelo não tem nada a ver com as longas jornadas de trabalho pelas quais as modelos passam ou com os cachês baixos que recebem pelos editoriais de moda em troca de exposição. O tráfico de pessoas, diz ela, tem base no trabalho forçado. “São pessoas que vivem sob uma constante ameaça de violência - contra elas ou, mais frequentemente, contra os seus familiares”, explica. Aí entram trabalhadores em fazendas ou fábricas e até o turismo sexual, seja de um país para o outro ou, no caso de nações maiores, de uma cidade para outra.

O tráfico de pessoas tem ganhado espaço na mídia por meio da cultura pop ou do noticiário. Há a trilogia “Millenium”, do jornalista sueco Stieg Larsson, o “Projeto Liberdade”, da rede norte-americana de televisão CNN, e em breve “Salve Jorge”, novela que substituirá “Avenida Brasil”, na Globo. Segundo ela, “as pessoas estão mais conscientes porque os governantes e as ONGs têm falado sobre o assunto, e as empresas têm se preocupado mais com a sua rede de fornecedores”.

Na opinião da ativista, o Brasil é um exemplo no combate ao tráfico. “O Brasil é um dos melhores em criar soluções para o problema, que, acredito eu, serão copiadas no mundo inteiro. O governo é sério em relação a isso”, diz, citando os Termos de Ajustamento de Conduta contra o trabalho escravo, elaborados pelo Ministério Público do Trabalho.

É impossível não mencionar o caso Zara, em que fornecedores da rede de fast fashion espanhola em São Paulo foram flagrados com trabalhadores estrangeiros em condições análogas às da escravidão, ou a grife de lingerie de luxo Victoria’s Secret, acusada de utilizar em suas peças algodão produzido com mão-de-obra infantil em Burkina Faso, na África. “As empresas têm de checar a sua rede de fornecedores e conduzir auditorias independentes. É a única maneira de elas terem certeza [sobre a origem de seus produtos]”, argumenta Katie. “No Brasil, vocês têm a melhor solução. Saber que algo está acontecendo aqui –ou em qualquer lugar– é horripilante”, conclui.

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