Moda

Autora norte-americana relaciona passagens da vida às roupas que usou

David Hughs/Divulgação
A autora norte-americana Ilene Beckerman imagem: David Hughs/Divulgação

Adriana Terra

Do UOL, em São Paulo

Em seu aniversário de 13 anos, Ilene Beckerman usou um vestido azul marinho de gola removível que custou cerca de R$ 80 e foi comprado por seu pai em uma loja de departamentos em Manhattan, onde viviam. Até aquele dia, meados da década de 1940, grande parte das roupas da garota era caprichosamente costurada por sua mãe. No entanto, ela havia morrido naquela primavera, e Ilene e a irmã logo passaram a morar com os avós e a usar vestidos comprados em grandes lojas.  

Com muita sutileza, passagens da vida da autora de 77 anos são conectadas a roupas usadas por ela em "Amor, Perdas e Meus Vestidos", best-seller que ganhou recentemente edição brasileira. Lançado originalmente em 1995, o título foi levado aos palcos norte-americanos pelas irmãs Delia e Nora Ephron e, no Brasil, teve uma adaptação teatral com Arlete Salles, Carolina Ferraz e Taís Araújo, atualmente fora de temporada.  

Por meio de blusas com mangas bufantes, saias godê, camisas de seda, casacos, gravatas, botas de cano alto e vestidos-envelope, a autora narra a ousadia dela e de suas amigas ao querer usar agasalhos de basquete na adolescência, nos anos 1950; a reprovação de seu avô por seu primeiro marido não ser judeu; a "enrascada" em que quase se meteu ao usar um tomara-que-caia justinho em uma festa cheia de garotos animados; o sentimento ao flagrar o marido beijando outra no Ano Novo e ao notar, após uma ida ao cabelereiro para fazer um permanente, lá pela década de 1980, que não podia mais viver com alguém que deixou de amar.  

“Roupas desencadeiam memórias!”, diz Ilene. "É surpreendente como nos lembramos de pequenos momentos de nossas vidas em vez do grande aniversário de 16 anos ou do primeiro carro", filosofa. Recordando a vida por meio do guarda-roupa, Ilene torna mais leve um livro de memórias, e mais humano um livro que, ao repassar peças da vestimenta popular feminina entre as décadas de 1940 e 1990, também é sobre moda.  

Abaixo, você lê um papo por e-mail com a autora, e também ilustradora, de “Amor, Perdas e Meus Vestidos”. 

UOL: Ilene, a primeira coisa que me impressionou no seu livro é a riqueza de detalhes com a qual desenha e descreve roupas que usou há muitos anos. Você se lembra de tudo?

Ilene Beckerman: Não, eu não me lembro de tudo. Fico surpresa como nos lembramos de pequenos momentos de nossas vidas. Em vez do grande aniversário de 16 anos ou do primeiro carro (se você é mulher). Eu também creio que o fato de minha mãe costurar as roupas para mim e para minha irmã me fez começar a reparar nos tecidos e nos detalhes ainda bem novinha.  

Naqueles tempos, tempos antigos, muitas mulheres costuravam e muitas lojas de departamento tinham um piso que servia de fábrica. Minha mãe costurava nossas roupas porque ela não tinha condições de pagar pelo tipo de roupa de que gostava. Também, naqueles tempos, jovens garotas, adolescentes, mulheres, todas usavam vestidos. Não era apenas colocar uma calça jeans e uma camiseta. Nós não tinhamos muito controle sobre nossas vidas, mas tinhamos o controle dos nossos guarda-roupas.   

Quando notou que um livro sobre a sua vida poderia ser, também, um livro sobre moda?

Eu escrevi o livro para meus cinco filhos, porque eles nunca imaginaram que eu havia tido uma vida antes de ser mãe. Um amigo enviou uma cópia para um editor e este editor me ligou. Minha vida não é tão emocionante, eu apenas dei às mulheres um novo modo de relembrar das passagens de suas vidas -- roupas desencadeiam memórias! Mas agora que eu já escrevi e publiquei cinco livros [após a estreia com “Amor, Perdas e Meus Vestidos”, aos 60 anos, Ilene escreveu outros quatro títulos sobre família, amor e beleza], eu não poderia estar mais contente.  

Você se recorda de coisas como comprar tecidos na Macy's [loja de departamento norte-americana] com sua mãe. Há algum hábito do passado, relacionado a moda, do qual você sente falta?

Sim. Eu sinto falta da habilidade de costurar -- grandes bainhas, fios que não soltam quando você lava uma roupa, individualidade. Ninguém no mundo tinha o mesmo vestido que você fazia.  

Uma parte do livro que chama a atenção é quando escreve sobre seu vestido de aniversário de 13 anos, comprado por seu pai em uma loja, sendo que antes sua mãe provavelmente o teria costurado [a mãe de Ilene havia morrido naquela época]...

Como muitas crianças, eu queria o que não podia ter e não gostava do que eu tinha. Tudo o que eu queria era um vestido comprado na loja -- para ser como todas as outras garotas. Quando meu pai me levou às compras naquele dia, eu estava cheia de emoções. Ainda não entendia bem a perda da minha mãe, estar sozinha com meu pai (naqueles tempos, os pais não eram tão próximos dos filhos como hoje em dia), gastar todo aquele dinheiro.  

Você fala no livro sobre ter sido influenciada, em seu gosto por moda, por sua mãe e pela mãe de Dora [sua melhor amiga, cuja mãe desenhava e costurava trajes para fora]. Você acha que também influenciou seus filhos nesta área?

Não. Eu tento ter uma relação bem próxima com meus filhos. Na verdade, não me importo muito com o que eu visto. Tento não parecer esquisita, mas como eu sinto que somos colocados em categorias do que "devemos" vestir em determinada idade, tento encorajar outras mulheres a vestir o que elas querem. A propósito, acabo de pintar meu cabelo de azul. 

Você está preparando um novo livro atualmente?

Sim. Mas eu não gosto de falar sobre algo no qual estou trabalhando. Algumas vezes as coisas que eu começo terminam em outras coisas. Para mim, este tempo de pensar e de experimentar é como estar grávida. Ambas as situações são vivências criativas e eu não quero a opinião dos outros, porque se eles falarem algo negativo, eu fico arrasada.  Eu soo estranha, mas na verdade eu não sou. Algum dia espero que alguém me convide para ir a seu belo país.  

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“Amor, Perdas e Meus Vestidos”
Ilene Beckerman
Ed. Rocco, 143 páginas
R$ 34,50 

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