Moda

"Moda girava em torno da população branca antes do hip hop", diz pesquisadora americana

Ernie Panicioli/
LL Cool J nos anos 1980, Rihanna e Azealia Banks, da esquerda para a direita mostram a evolução do estilo no hip hop imagem: Ernie Panicioli/"Free Stylin'" / Getty Images

Adriana Terra

Do UOL, em São Paulo

No início do hip hop, a ordem era improvisar para conseguir o visual desejado. Com a expansão desta cultura, a partir da década de 80 o estilo inspirado em rappers e grafiteiros foi conquistando seu espaço na indústria da moda, migrando das ruas para as grifes esportivas, as lojas de departamento, para as marcas comandadas por rappers (Jay-Z, nos EUA, e Ice Blue, no Brasil, são exemplos) e as araras de grifes caras. Se por um lado isso pode ter significado a padronização de uma moda genuína, por outro foi um processo que quebrou barreiras -- é o que defende a jornalista nova-iorquina Elena Romero, autora do recém-lançado livro "Free Stylin': How Hip Hop Changed the Fashion Industry" (ou "Free Stylin': Como o Hip Hop Mudou a Indústria da Moda"). 

"Até a comercialização do rap, as tendências de moda giravam em torno da população branca", conta a autora que pesquisa moda urbana desde a década de 1990. "O hip hop foi revolucionário porque forçou a indústria da moda a reconhecer o poder dos afro-americanos e dos latinos como consumidores. Por anos, os estilistas e as fábricas buscavam inspiração nas ruas para criar linhas de roupas, mas até a década de 1980 o consumidor urbano não era reconhecido como um público viável."

Enquanto hoje rappers como Kanye West e Nicki Minaj são fotografados na primeira fila de importantes desfiles, em meados dos anos 1980 o estilo urbano, apesar de efervescente, não era tão queridinho do mundo fashion. “As pessoas pensavam nele como algo barato, uma coisa ‘batida’. Não consideravam que aquilo era mesmo moda”, conta o editor da revista norte-americana “Vibe Magazine”, Emil Wilbekin, em entrevista ao livro de Elena. Foram necessários números altos para conquistar os empresários do setor. “Com um pico em 2002, a indústria da moda urbana representava um negócio de US$ 58 bilhões”, explica a autora.

Entre as grifes derivadas do hip hop que se destacam atualmente nos EUA estão a Rocawear, de Jay-Z, a G-Unit, de 50 Cent, além da Sean John, de P. Diddy (o Puff Daddy). No Brasil, o fenômeno não é o mesmo, mas encontra paralelo. Além da Ice Blue On Hip Hop, rappers da nova geração como Emicida e Rashid têm linhas de camisetas, moletons e bonés, e marcas icônicas como a FUBU e a Ecko ainda fazem sucesso por aqui.

Abaixo, saiba mais sobre a moda inspirada no hip hop e sua importância em trechos de uma entrevista com a pesquisadora. O cenário é os EUA, mas o reflexo dessa história é bem atual na moda mundial.

  • Ernie Paniccioli / John Van Hasselt/Sygma/Corbis /

    O diretor Spike Lee tinha uma loja de moda urbana na década de 1990 em Nova York; à direita, rappers do X-Clan, grupo que decidiu adotar um visual com influências afro, sem joias douradas ou roupas que exibissem logos de grifes famosas

O poder afro-americano e latino

“Ao longo da história, a música e a moda sempre foram conectadas. Do tango, jazz, rock and roll, disco ao funk, a juventude vestiu uma roupa que correspondia à música que ouvia. O que fez a geração do hip hop diferente de outras gerações musicais foi o fato de que o estilo era influenciado por uma cultura. Os estilistas que eram parte do hip hop [grafiteiros, designers, pessoas que estampavam camisetas] começaram a criar sua própria moda.”

“Por anos, os estilistas e as fábricas buscavam inspiração nas ruas para criar suas linhas de roupas, mas antes da década de 1980 o consumidor urbano não era reconhecido como um público viável. A popularidade do hip hop colocou os músicos em foco. O conhecimento de moda que esses artistas tinham vinha da vizinhança ou do bairro em que cresceram.”

“O hip hop mudou a indústria da moda porque levou a sensibilidade desse estilo vindo das ruas da cidade para todos. Forçou a indústria da moda a reconhecer o poder dos afro-americanos e latinos como consumidores. Até a comercialização do hip hop, as tendências de moda giravam em torno da população branca.”

  • Ernie Paniccioli/

    Da esquerda para a direita, Kwamé, Missy Elliot e Thaíde

Moda urbana, antes e depois

“Nos primeiros momentos, por volta de 1980, os consumidores tinham de procurar por todos os cantos por moda interessante. De toda forma, [a popularização do streetwear] não significa a padronização dos visuais. Nos anos 1980, as pessoas usavam marcas da cabeça aos pés. Hoje, os consumidores misturam marcas caras a outras de preços acessíveis para criar seu próprio estilo.”

“O consumidor do lifestyle do hip hop hoje também compra na Zara, Forever 21 e Hollister. Esse tipo de loja tem muito apelo e o consumidor tem bem mais opções em termos de marcas e estilos. A moda urbana um dia ditava que a roupa deveria ser larga; ou que deveria ser de cores fortes; ou que deveria ser encontrada em certas lojas e shopping centers. Agora essa moda não é mais assim porque quem a consome é transcultural”.

  • Divulgação

    Os MCs Big Sean, Jay Z e Kanye West (da esq. para a dir.)

Rappers fashionistas

“Os rappers não estão necessariamente mais fashionistas hoje em dia. Eles apenas reconheceram o poder e o negócio das marcas. Os rappers têm mais oportunidades além da música atualmente: contratos com marcas de bebidas, atuações em filmes, desenhar roupas, campanhas de publicidade, desfiles, fotos, comandos de times de basquete...”.

“Como os artistas e os magnatas do hip hop descobriram o poder do status de celebridade, muitos decidiram produzir suas próprias linhas de roupas. Conforme o tempo passou, parecia que os consumidores não precisavam nem mesmo gostar do artista ou conhecer sua música para usar as roupas da grife dele. O sucesso dessas marcas tem a ver com o ‘lifestyle’ que elas transmitiram e perpetuaram.”

“Os rappers também foram aceitos como celebridades e aproveitam os privilégios dados a todas as celebridades no mundo da moda, como convites para desfiles exclusivos, assentos na primeira fila nas semanas de moda, oportunidades de desfilar, campanhas de publicidade gigantes, ganhar roupas... Há um certo fator ´cool´ associado às celebridades do hip hop.”

:: "Free Stylin´: How Hip Hop Changed the Fashion Industry" ::
Autora: Elena Romero
Ed. Praeger, 242 páginas
US$ 48 (aproximadamente R$ 97)

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