Moda

A moda dos shorts permite aos homens mostrar um pouco de perna

Craig Arend/The New York Times
Hoel Goisbault, gerente em marketing, veste shorts United Arrows. Apesar de a tendência não ser nova, shorts para homens agora aparecem regularmente nos desfiles de estilistas como Michael Bastian, Giorgio Armani, Tommy Hilfiger e Prada imagem: Craig Arend/The New York Times

Do The New York Times

O colunista sobre sexo Dan Savage, da MTV norte-americana, foi questionado nesta temporada de seu programa se usava shorts. Sua resposta foi tão imediata quanto depreciativa: “Não, não, eu sou adulto”.

Este é um sentimento que ecoa em muitos árbitros de estilo: homens de certa idade e distinção, diz-se, não podem usar shorts e serem levados a sério. Isto se aplica não somente ao local de trabalho, mas também a eventos sociais.

Muitos no meio da moda parecem concordar: “Eu os evito”, disse Glenn O’Brien, editor de moda e escritor do “Style Guy”, da revista “GQ”. “Se estiver 40 graus ou se estiver indo só até o mercado, vou me render e usar shorts, mas procuro evitá-los no trabalho”. 

Em um guia sobre “como ser um cavalheiro moderno” da revista "AnOther", o estilista Tom Ford coloca a questão da seguinte forma: “Regra número 5: um homem não deve usar nunca shorts na cidade”.

Mas há dissidentes, inclusive figuras notáveis no mundo da moda masculina, que estão baixando a guarda, subindo as barras e trabalhando para dar mais respeito às calças curtas.

“O que está acontecendo agora é que há muitos estilistas dizendo: ‘espere um pouco, os shorts podem ter tanto estilo quanto um par de calças, se tiverem sido costurados do modo certo, com os detalhes certos”, diz Tyler Thoreson, diretor editorial do site de vendas Park & Bond.

Liderando este grupo está o estilista Thom Browne, que vestia shorts cinza de sua própria marca, combinado com um colete cinza e sapatos pretos, em seu desfile masculino em Paris, em julho deste ano. “Em meu mundo, os shorts são sempre apropriados”, disse ele, abrindo exceção para certos lugares de trabalho, como os escritórios de advocacia. 

A coleção de Browne há muito tempo traz shorts, sempre combinados com jaquetas encolhidas, cujas linhas enrugadas e lapelas estreitas dão ouvidos aos anos 1960. “É por isso que acho que são apropriados para a cidade”, diz. “Pelo modo como são costurados, são tão alinhados quanto um par de calças compridas”.

  • Craig Arend/The New York Times

    Steven Rojas, diretor de mídias sociais, usa shorts Marni com blazer ajustado e camiseta branca

Realmente, nas regiões habitadas pelo pessoal mais moderninho de Nova York, como Williamsburg e Lower East Side, homens bem vestidos -de shorts- podem ser vistos em brunches ou a caminho de feiras de antiguidades, geralmente vestidos com blazers de verão e camisas. Essa atitude não só permeia a América do Norte como também a Europa, onde jovens da moda não se envergonham em usar shorts para buscar uma baguete no bairro “cool” parisiense Marais, ou acenar para um táxi preto na praça Hoxton, em Londres.

“Eu realmente reparei em mais homens, dos dois lados do Atlântico, vestindo shorts nas cidades”, diz Frank Muytjens, estilista de moda masculina da J. Crew. “Os shorts possuem um elemento estiloso. Os homens estão mais conscientes do que nunca sobre caimento, tecido ou corte, e estão vestindo shorts com uma camisa mais formal, um blazer e um belo par de sapatos ou uma bota”.  

Estudantes de moda sabem que os shorts nem sempre foram relegados ao jardim de infância. Em épocas pré-vitorianas, culotes – o ancestral dos shorts, calças justas que acabavam abaixo do joelho – eram uma peça formal e comum. “Os culotes destacavam a parte da perna entre o joelho e o pé”, descreve Farid Chenoune, autor de “A History of Men’s Fashion” (Uma História da Moda Masculina, em tradução literal, sem edição em português). “Era parte do código de beleza masculina ter pernas perfeitas, especialmente a panturrilha, seguindo as linhas das esculturas da Grécia e Roma antigas. Este era o modelo. Ele deveria ser muito sexy”. Os culotes acabaram caindo em desuso. Enquanto isso, no século 19, os shorts se tornaram parte dos uniformes dos meninos em internatos britânicos e americanos. Daí vem a expressão “eu o conheço desde que usava calças curtas”. 

Depois da Primeira Guerra Mundial, a moda dos resorts, particularmente na Europa, possibilitou aos homens usar shorts em ocasiões mais casuais. “É a ideia do figurino da Riviera”, explica Patrick Hugues, professor de moda na renomada Parsons, em Nova York. “Se você reparar no crescimento das capitais do lazer – a Cote d’Azur nos anos 1920 e 1930 - é ali que você começa a ver o surgimento dos shorts”. Mas uma coisa era usar shorts na praia, outra bem diferente era usá-los na cidade. Foram necessária as revoluções sociais dos anos 1960, aliadas à crescente influência da cultura do surfe e da praia da Califórnia, para trazer isso à tona.

Até hoje permanece um certo estigma contra os shorts como traje do vestuário. “Conheço gente que não vai usar shorts sob nenhuma circunstância”, afirma Chris Black, o editor do popular blog de moda masculina “Words for Young Men”. “Existem essas regras como ‘Não use branco depois do Dia do Trabalho’, que alguns homens levam muito a sério. Eles seguem as dicas de pessoas de destaque, como Tom Ford”.

  • Valerio Mezzanotti/The New York Times

    O estilista Thom Browne posa em Paris com bermuda ajustada de comprimento acima do joelho com camisa e colete

O atual “revival”, se é que se pode chamá-lo assim, é refletido em recentes desfiles masculinos em Nova York, Paris e no resto do mundo. Enquanto a onda não é nova, os shorts agora aparecem com alguma regularidade em desfiles masculinos de estilistas como Michael Bastian, Giorgio Armani, Tommy Hilfiger e Prada.

Um deles, James Long, fez com que seus modelos desfilassem com nada além de shorts durante a semana de moda de Londres em junho. Muitos homens, claro, não se influenciam diretamente pelo que veem na passarela. Então, quando falamos em realmente ousar vestindo shorts, eles ficam desconcertados. A primeira questão é o caimento. “O truque é manter o comprimento certo”, ensina Brian Coats, editor-colaborador da revista “GQ”. “Geralmente logo acima do joelho, nunca mais comprida, ou você corre o risco de partir em direção ao mundo das calças capri”.

Nickelson Wooster, diretor criativo de moda masculina na J.C. Penney, vai além. “Os shorts masculinos devem cair imaculadamente e acertar a altura certa, proporcional à sua altura”, disse. “Não sou mestre em geometria, mas a maioria dos homens fica ótimo quando os shorts ficam exatamente acima do joelho e são cortadas elegantemente ao redor da perna. Este comprimento e caimento passam um ar moderno e clean”.

A questão mais complicada é com relação aos calçados. Browne e Thoreson sugerem modelo tipo oxford, enquanto Bonnie Morrison, um consultor de marcas e ex-editor da Vogue masculina, recomenda um mocassim, um loafer ou outro modelo com cadarço interno. Para looks mais casuais, Morrison sugere um dockside ou um tênis. Chinelos de dedo estão fora.

Aí surge a questão das meias. Pontos de vista muito contundentes são colocados. “Nunca”, disse Morrison. “Meia com shorts é como meia-calça com shorts para as mulheres”. Mas Patrick Sandberg, 27, editor das revistas “V” e “Vman”, coloca-se no outro lado do espectro. “Está na hora de todo mundo usar meias. Ninguém no [bairro de NY] SoHo quer ver seus tornozelos”, disse.

Por comparação, o que vestir em cima é fácil. Combinar shorts com camisas oxford de manga longa é sempre uma boa ideia, geralmente por dentro do shorts e uma jaqueta, se a temperatura permitir.

Mas no fim do dia (quente e úmido), a tendência contra os shorts pode se resumir a algo muito mais básico (e fútil) do que a preocupação com a etiqueta: alguns homens simplesmente não gostam da aparência de suas pernas e assumem que isso pode afastar potenciais paqueras.

“Se uma mulher estiver tentando avaliar a masculinidade de um homem, ela pode olhar para seu rosto ou para o seu tórax”, disse o Dr. Viren Swami, que estuda a psicologia da atração na Universidade Westminster, em Londres. “Há melhores maneiras de fazer isso do que olhando para as suas pernas”.

Topo