Moda

Paixões escondidas de "Anna Karenina" são visíveis no figurino

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As joias Chanel usadas por Anna Karenina no filme podem ser identificadas pelo desenho de camélia, ícone da grife francesa imagem: Divulgação

Eric Wilson

Do New York Times

O choque de infidelidade entre a aristocracia russa do século 19 foi o tema de “Anna Karenina”, de Tolstoy. Então, embora audaciosa, faz algum sentido que a adaptação para o cinema do diretor Joe Wright (com roteiro de Tom Stoppard) seja tão intencionalmente infiel ao livro, sem falar na moda da época. Você consegue acreditar nessa Anna? Quem ela pensa que é, ostentando todas aquelas joias Chanel antes mesmo de Coco ter nascido? Na verdade, o que os personagens principais usam nesta narrativa tem menos a ver com chapéus cossacos e de pele animal do que com um estilo próprio – inspirado principalmente na modelagem extremamente feminina da alta-costura dos anos 1950, refletindo um período diferente de promessas. Pense em Balenciaga, não em Bolshoi.   

Para Wright e sua companheira da moda, Jacqueline Durran (a figurinista indicada ao Oscar pelos filmes “Desejo e Reparação” e “Orgulho e Preconceito”, ambos de Wright), o vestuário pode ser um meio eficiente de contar uma história, e esta versão é altamente estilizada. “Talvez eu tenha enfatizado exageradamente os detalhes dos anos 1950, especialmente nas roupas da Anna”, disse Jacqueline, “porque queria que o público percebesse que não estávamos necessariamente fazendo uma obra de época com autenticidade”. 

Os únicos figurinos que realmente chegam próximo às peças de época são os usados pelo elenco coadjuvante, ou seja, os burocratas em seus coletes e as campesinas em vestidos cinza genericamente vitorianos. O fato de Anna (Keira Knightley) e sua trupe se destacarem tanto tem um propósito. “Joe gosta de figurinos que pareçam ser de época, mas ao mesmo tempo sejam acessíveis para uma plateia moderna”, disse Jacqueline. “Eles podem ver que Anna é a pessoa mais bonita na sala.”

Anna de preto

No livro, a pobre Kitty, como uma jovem debutante, entende a importância do vestido preto usado por Anna Karenina em um baile no qual ambas dançam com o conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson). “É um dos trajes mais famosos da literatura”, disse Jacqueline. “A maneira como o vestido é descrito e o motivo de ser o vestido mais perfeito para aquele dia é porque ele emoldura a beleza de Anna”. Enquanto o formato da saia mostra como um vestido daquele período poderia ser, Jacqueline estudou croquis de Balenciaga e Dior dos anos 1950 para criar o corpete, fazendo com que parecesse ligeiramente deslocado. Para acentuar uma certa extravagância, Anna usa joias Chanel ao longo de todo o filme, identificáveis pelo desenho de camélias. (E antes que você se esqueça, Keira aparece – como ela mesma – em uma campanha de perfume para a marca). Também vale ressaltar que as demais pessoas no baile vestiam roupas de cores muito claras – “pastéis ácidos”, como Durran as descreveu – para que o vestido preto de Keira “funcionasse visualmente, porque Anna se opõe a esta sociedade”.

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    Kitty (Alicia Vikander) com o vestido branco que dá ar de criança debutante à personagem

O contraponto

Como contraste visual de Anna no baile, Kitty (Alicia Vikander) usa um vestido simbolicamente branco, enfeitado com rosinhas cor-de-rosa. “Era para parecer uma criança debutante indo ao baile”, disse Jacqueline. “Era uma modelagem genericamente vitoriana, com um corpete apertado e uma saia armada. Coincidentemente, esta modelagem também é a cara dos anos 1950. A vontade foi realmente mantê-la num formato de sino simples, mas levemente curto, como um contraponto à sofisticação de Anna. Mantivemos a saia mais curta para deixá-la com ar de criança”. O figurino de Kitty passar por uma evolução durante o filme”, conta Jacqueline. “À medida em que cresce, ela deixa de usar rosa claro, azul bebê e branco para vestir o bege champanhe quando se casa com Levin e se muda para a casa dele. A cor evolui para uma cartela muito mais sofisticada”.

Vermelho, em duas

Em uma festa na noite que leva à sua submissão ao conde Vronsky, Anna vestiu vermelho. “Vermelho foi bom para aquela festa”, disse Jacqueline. “Ela iria dar início de fato ao seu caso extraconjugal”. Como muitos dos vestidos do filme, este era composto por duas peças. O corpete é mais curto na frente, com uma anquinha que se apoia sobre a saia estruturada. O detalhe brilhante que aparece ao longo do corpete é, na verdade, uma outra peça dos anos 1950, que Jacqueline encontrou em uma liquidação vintage e incluiu no traje final. “Tive que escondê-la, parcialmente dentro do vestido, porque mostrar muito do debrum teria sido um choque em toda a estética”, disse ela. “Foi sempre uma luta descobrir como modernizar estas formas dos anos 1870”.

O austero

“Os figurinos militares se aproximam dos uniformes russos, mas não são encontrados em nenhum exército específico”, conta Jacqueline, ressaltando que o conde Vronsky aparece durante todo o filme em uma variedade de uniformes minimalistas (mas ainda assim muito chamativos), em tons de cinza, azul pastel ou branco, incluindo aí uma aparição muito rápida de um uniforme com extravagante detalhe dourado nos ombros. Karenin, como o marido covarde, entretanto, ganha uma imagem própria. Karenin (Jude Law) aparece mais frequentemente em figurinos sóbrios, com linhas duras e retas que refletem a personalidade do personagem ou talvez a confine. “Russos sempre amam uniformes”, contou Jacqueline. “Os czares tomaram a dianteira em reduzi-los a quase nada. Os homens mais poderosos são os que menos ostentam. Karenin era tão austero, que era quase monástico”.
 

  • Joel Ryan/Invision/AP

    A figurinista Jacqueline Durran posa ao lado de vestidos usados no filme "Anna Karenina", que concorre ao Oscar de melhor figurino

Tradutor: Erika Brandão e Fernanda Schimidt

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