Moda

Para fast fashion inglesa, é possível produzir sem "trabalho escravo"

Fernanda Schimidt/UOL
Gordon Richardson e Kate Phelan, diretores criativos da Topman e Topshop, respectivamente, estiveram em São Paulo para inauguração da nova loja da rede inglesa na cidade imagem: Fernanda Schimidt/UOL

Fernanda Schimidt

Do UOL, em São Paulo

Foi-se o tempo em que as tendências de moda estavam restritas a pequenos círculos de elites com dinheiro de sobra e acesso às últimas novidades do vestuário. Mas o que muitos não se dão conta é que não é apenas a moda de luxo que influencia as marcas populares, o contrário também tem acontecido e forçado o mercado a se adaptar. “É muito interessante ver como as marcas de luxo estão mudando o seu comportamento. Eles querem um consumidor de massa agora”, explicou a stylist Kate Phelan, 48, diretora criativa da Topshop, a gigante do varejo britânico que abre sua segunda loja no Brasil, no shopping Iguatemi de São Paulo.

“Nosso sucesso está no fato de que conseguimos mudar e não estamos presos a uma única identidade. E o luxo está quase se apropriando deste mesmo pensamento para ter um maior alcance”, completou ela, que trabalhou durante 18 anos para a inglesa “Vogue”. Kate veio à capital paulista acompanhada de Gordon Richardson, 59, diretor criativo da Topman, o braço masculino da rede.

Na última temporada de desfiles em Paris, a coleção da grife francesa de luxo Saint Laurent foi comparada por críticos às peças da fast fashion inglesa. “Estou vendo um desfile da Saint Laurent ou Topshop?”, escreveu uma editora do “LA Times” durante a apresentação realizada no início de março e com um forte caráter grunge. Para a dupla responsável pelas criações da rede de varejo, a semelhança é pura imagem de moda.

“Essa coleção da Saint Laurent teve mais a ver com styling do que com as peças em si. Era o syling que estava sendo comparado, de certa maneira, ao jeito como teríamos combinado as nossas roupas”, disse Kate. Richardson lembra ainda que as fontes de inspiração, como referências culturais atuais, são as mesmas independentemente de quem está criando. “Todos nós vamos produzir algo que seja desejável pelo público e que vai influenciar as pessoas”, completou ele.

Fast fashion na passarela

Segundo a dupla inglesa, os desfiles de moda são extremamente importantes para uma marca comercial, funcionam como uma espécie de validação de seu trabalho frente ao público. “É o que nos diferencia dos demais”, afirmou Kate. É por meio das passarelas – da semana de moda de Londres, no caso da Topshop e Topman – que consumidores de outros países entram em contato com as suas criações e passam a desejá-las. “Caso contrário, ficaria algo restrito apenas às pessoas passeando pelo Reino Unido”, disse Richardson. Ele tocou ainda em outros pontos: “O público consome moda cada vez com mais rapidez, e existe tanta informação disponível que você tem de fazer parte dela. Se não estiver naquele palco, você fica de fora e corre o risco de cair no esquecimento”.

Brasileiro careta?

“Não há nada errado em ser conservador”, afirmou Richardson. Para ele, a chegada de mais marcas como a Topman, conhecida pelas peças modernas com respaldo da alfaiataria clássica, ao mercado brasileiro incentiva mudanças mais profundas de estilo entre os homens, normalmente avessos às tendências. “Ainda que clássico seja o que eles queiram, eles não vão saber se também querem 'moda', se ela não estiver disponível. Uma vez que há a opção no mercado, haverá um maior desejo por ela”, disse.

Sem “trabalho escravo”

Em meio a flagras de confecções em que os trabalhadores eram submetidos a condições análogas à escravidão, como aconteceu recentemente com Zara e Luigi Bertoli, os diretores criativos da rede inglesa são categóricos aos afirmar que, sim, é possível ter certeza de que a sua cadeira produtiva é responsável. “Absolutamente! Temos um grupo de pessoas trabalhando nisso. Todas as confecções têm de passar por testes e, se não forem aprovadas, não podem trabalhar para nós”, explicou Kate. “Eles visitam cada fábrica e observam todos os detalhes, ao ponto de mandar substituir uma janela quebrada. Levamos isso muito a sério”, completou Richardson.

Moda verde

Para os interessados em um consumo sustentável, o responsável pelas criações da Topman afirma que é necessário fugir um pouco da loucura das tendências. “Você precisa conhecer o seu estilo e escolher as peças que tem a ver com a sua personalidade e guarda-roupa. Não simplesmente comprar tudo no calor do momento. É se afastar, ver o que funciona para você e pinçar a partir daí”.

Segundo ele e Kate, o meio ambiente é uma das preocupações do grupo Arcadia, multinacional responsável pela Topshop e Topman. Entre as ações, estão políticas para reduzir as emissões de carbono, reciclar as sobras da produção e otimizar o transporte de produtos. “Fazemos tudo o que podemos em termos de sustentabilidade. Como somos uma empresa muito grande, tem de ser aos poucos, analisando os ângulos que estão ao nosso alcance”, falou Richardson. 

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