Moda

Com forte trabalho manual, moda mineira busca seu espaço no mercado

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Looks de Patrícia Motta, Victor Dzenk e Vivaz desfilados durante o Minas Trend em Belo Horizonte imagem: Agência Fotosite

Augusto Paz

Do UOL, em São Paulo

É possível notar que existe algo de muito particular na moda de Minas Gerais, um caráter que diferencia as criações mineiras das demais e torna-se gritante ao observar as criações apresentadas durante o Minas Trend, evento em Belo Horizonte dedicado a mostrar os talentos da moda local e promover negócios. Arriscando uma acachapante queda no lugar-comum, pode-se enumerar logo de cara a preciosidade do trabalho manual e as manifestações da cultura mineira quando o assunto é moda festa.

De acordo com a stylist Mariana Sucupira, responsável pela produção dos looks do desfile de abertura do evento, paira sobre a  capital mineira uma névoa de conservadorismo, que, por sua vez é interpretado de diferentes formas. Os homens seguem se vestindo como seus pais: camisa branca ou azul, calças compridas e escuras e costume. Já as mulheres se apropriam do tradicional, aqui traduzido na forma do artesanato e dos bordados, para incrementar as produções do dia a dia. É raro ver a dupla calça jeans e camiseta branca perambulando pelas ruas de Lourdes, do Sion ou da Savassi – bairros de BH.

O barroco é talvez a característica mais marcante do estilo mineiro. Olhos pouco acostumados podem se assustar com a profusão de canutilhos, lantejoulas, berloques e pedrarias que pode conter um único vestido. Tudo muito brilhante, tudo ao mesmo tempo e agora. A designer de acessórios Mary Arantes atribui esse apreço pelo trabalho manual à tradição da educação católica em Minas Gerais. “As meninas tinham aula de prendas domésticas, bordado e costura no colégio”, diz. Ela pontua ainda que talvez essa singularidade percebida no estilo do mineiro se deva à própria geografia do local: “a moda de Minas olha mais para si, porque o estado está cercado de montanhas”.

Todavia, existem aqueles mais avessos a essa estética, embora o preciosismo persista. Luís Cláudio, estilista da Apartamento 03, prima por formas mais limpas e dificilmente usa aplicações em suas peças, além de quase sempre trabalhar seus tecidos de maneira a adotar características diferentes das originais. "Eu nunca estou contente com o tecido, porque eles oferecem o mesmo para todo mundo". Virgílio Andrade, nome por trás da Virgílio Couture vive transitando entre o estilo rebuscado e o "clean" (no inglês, limpo). Vindo de Patos de Minas (oeste do Estado), o rapaz trabalhou no ateliê do paulista Samuel Cirnansck e hoje emprega em sua marca as técnicas lá aprendidas. Muito embora seja mais afeito à estética concretista, que remete a formas retas e superfícies lisas, Virgílio sempre dá um jeito de incrementar suas peças com algum bordado ou tecido mais brilhante, ainda que pontualmente.

Tamanho zelo com a produção custa caro, literalmente. "Estou disposto a pagar quanto a costureira cobrar", diz Andrade. "São poucas as que trabalham bem e não posso perdê-las", diz. O mesmo problema é enfrentado por Luís Cláudio e tantos outros estilistas e confeccionistas de Minas (e do resto do país). A carga tributária também parece jogar no time da concorrência, formado basicamente por competidores chineses. O criador de bolsas Rogério Lima investe cada vez mais em modelagem a fim de se desvencilhar das cópias orientais. 

Apesar dos pesares, a roupa mineira parece vender bem, principalmente no eixo Rio-São Paulo, que busca justamente a "expertise" da terra de Patrícia Bonaldi, Mabel Magalhães, Bárbara Bela e Coven, entre outras marcas, na roupa de festa e no vestuário casual . A região Sul também é uma boa compradora. A estilista Patrícia Motta anuncia com orgulho as boas vendas feitas para Curitiba e Porto Alegre. Mais feliz ainda está Patrícia Schettino, proprietária da Gig, grife especializada em tricôs. A marca hoje exporta para cerca de 20 países e está presente em mais de 70 pontos de venda pelo Brasil.

Em Minas Gerais, a moda é encarada como uma declaração individual de independência, com a qual as pessoas têm mais liberdade para expressar sua personalidade, seja com o fim de ostentar uma riqueza (real ou imaginária) traduzida em muito brilho, honrar as tradições regionais ou discursar a uma plateia de transeuntes desconhecidos sobre qual é o seu posicionamento na divertida dinâmica da moda.

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