Moda

Independentemente da moda, brasileiras preferem os biquínis pequenos

Ana Carolina Fernandes/Folhapress
Nas praias brasileiras, os biquínis menores com amarração lateral são os que fazem mais sucesso uma temporada após a outra imagem: Ana Carolina Fernandes/Folhapress

Mayara Geraldini

Do UOL, em São Paulo

As brasileiras não precisam aguardar os desfiles de moda praia para confirmar a maior tendência do litoral: quando o verão chegar, só vai dar biquíni pequeno.

Desde o surgimento das tangas, na década 1970, nenhum modelo de biquíni com mais de cinco dedos de largura ganhou notoriedade no Brasil. “Tem de ter muita criatividade para, a cada verão, pensar em jeitos diferentes de fazer quatro triângulos, dois em cima e dois embaixo”, diz João Braga, professor de história da moda da Faap.

O biquíni foi criado em 1946 por Jacques Heim ou Louis Réard, os dois franceses que disputam a autoria da peça. Na época, foi um escândalo e Réard precisou contratar uma stripper, Micheline Bernardini, para posar para as primeiras fotos de biquíni. As modelos da época se recusaram a participar de ensaios com boa parte do corpo de fora.

No Brasil, eles chegaram a ser proibidos por Jânio Quadros, na década de 1960, nas apresentações televisionadas dos concursos de Miss. Mas foi a partir da década seguinte, que a tanga renasceu para a civilização moderna e criou um capítulo importante da nossa história com os microbiquínis. “A modelo brasileira Rose di Primo havia encomendado uma fantasia para uma festa do Havaí. Em cima da hora, ela percebeu que a calcinha estava pequena. Sem tempo para fazer ajustes, Rose cortou as laterais, colocou cordões e amarrou”, conta João Braga.

Desde então, os biquínis pequenos são protagonistas nas lojas e nas praias brasileiras: o fio dental reinou nos anos 1980, a asa-delta nos 1990 e as tangas nunca mais deixaram o posto da preferência nacional. “Na minha loja, os modelos que mais vendem são os de lacinho”, diz Lenny Niemeyer, estilista da marca Lenny. “O biquíni cortininha e o de amarrar ainda são os favoritos da mulher brasileira”, confirma Thomaz Azulay, diretor criativo da Blue Man.

A tanga é ajustável  por conta das amarrações laterais. Portanto, ela consegue se moldar naturalmente ao corpo de cada mulher, sem apertar as odiadas gordurinhas laterais. “As brasileiras têm o hábito de se pautar pelo corpo na hora de vestir. É por isso que, no Brasil, a moda das periguetes pega”, brinca João Braga.

É com todo esse culto ao corpo que viramos referência internacional em depilação cavada,  em calça stretch e, mais do que biquínis, em beachwear. Como consequência dos 7 mil km de extensão litorânea e clima– é raro inverno abaixo dos 20ºC –, boa parte dos brasileiros passa o ano todo com pouquíssima roupa. “Nos especializamos nesse lifestyle e adquirimos um diferencial de modelagem reconhecido internacionalmente”, acredita Lenny Niemeyer.  “Este definitivamente é o nosso know-how”, completa.

Historicamente, a tanga é uma volta às origens. “Somos descendentes de índios – eles já usavam - e deles pegamos essa naturalidade com a pouca roupa”, diz João Braga. Daí, é só adicionar as curvas dos africanos e o resultado é esse, a mulher brasileira.

João Braga propõe um teste. “Repare como uma mulher anda quando está sozinha e como ela muda, se souber que está sendo observada.  A brasileira é vaidosa, sabe que tem curvas, que o homem cultua essas curvas e gosta de mostrar o que tem de bom”, acrescenta.

Dos índios, também herdamos o gosto pelo banho e pela água, que pode ser transposto para o mar. Aqui, temos uma cultura de praia forte e o hábito  de passar horas entre a areia e o sol. Longe da praia, também temos costume de frequentar clubes e piscinas. “A mulher brasileira se preocupa muito com a marquinha e raramente toma sol de maiô”, acredita Thomaz Azulay, da Blue Man.

A modelo Renata Kuerten, por exemplo, é uma das mais requisitadas para desfiles de moda íntima e beachwear. “Adoro desfilar de maiô, parece que alonga a silhueta e você fica mais elegante”, conta. Mas na hora de tomar sol, o discurso muda. “Na praia, eu uso modelos bem pequeninhos”, diz e sorri.

Os grandes têm vez

“Somos um povo muito diverso, a mulher brasileira não tem um único modelo de corpo. Não somos todas como a Sônia Braga. Existem meninas, inclusive jovens, que se sentem muito desconfortáveis em biquínis minúsculos”, diz a antropóloga Mirian Goldenberg.

Para ela, o que existe é uma espécie de ditadura no mercado que prioriza um só tipo de corpo, e pior, calculadamente. “Na época em que só se encontrava calça jeans de cintura baixa, ouvi de uma empresária da moda que as calças eram feitas propositalmente para jovens, porque as marcas não queriam colocar a sua etiqueta na bunda de uma mulher mais velha”, afirma.

Mas é nessa diversidade que cresce o mercado de nicho. Nas lojas de Adriana Degreas, marca diferenciada de beachwear, a estilista homônima confirma que a peça mais procurada é exatamente a “hot pant”, uma versão de calcinha grande, quase do tamanho de um short. “Eu gosto de lembrar que nem todas as pessoas vão à praia para tomar sol. Tem gente que prefere ficar com um chapelão, na sombra, embaixo do guarda-sol e não necessariamente está preocupada com a marca que vai ficar”, fala a estilista.

Mesmo assim, Adriana acrescenta que, entre as peças da sua marca procuradas no atacado, fora das suas lojas próprias, os biquínis de lacinho são os que mais vendem. 

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