Moda

Diretora de criação mostra os bastidores da "Vogue" em livro de memórias

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Capa de "Grace", livro de memórias de Grace Coddington, diretora criativa da revista "Vogue" nos Estados Unidos imagem: Divulgação

Do The New York Times

A chegada das memórias formidáveis, escandalosas e boas para presentear de Grace Coddington, “Grace”, pode ser diretamente relacionada ao “Vogue – A Edição de Setembro”, documentário de R.J. Cutler lançado em 2009 sobre os bastidores da revista “Vogue”. Embora Anna Wintour, a editora-chefe da revista, pareça ser o assunto principal, o filme é roubado pela ranzinza Grace, diretora criativa da “Vogue”, que é vista brigando muito pelas suas ideias, reagindo com rancor quando são rejeitadas e geralmente passando por cima de sua chefe, aparecendo como o cérebro por trás da operação. 

Fãs do mundo da moda (“Grace: Thirty Years of Fashion at Vogue”) e adoradores de passarelas (“The Catwalk Cats”, de Coddington e Didier Malige) já conheciam Grace – não por causa de seus dois recentes livros, mas pela beleza extrema e alucinógena dos editoriais com os quais ela sonha, faz o styling e supervisiona. Mas Grace dá créditos ao documentário como sendo “o único motivo pelo qual alguém já ouviu falar sobre mim”. Ela está sendo modesta, é claro. Uma das surpresas do filme é que ela, aos sessenta e tantos anos (hoje, tem 71 anos) ainda mantinha um visual de fantasma vingativo, e fora uma jovem belíssima, com uma carreira de modelo de alto nível. “Grace” traz muitas fotos dela, da infância no País de Gales ao mais fabuloso momento da moda em Londres, além de sua carreira que começou na Vogue britânica e seguiu para a “Vogue” americana. Em todos esses momentos, seu caráter camaleônico é fenomenal. 

Em princípio, ela podia parecer uma jovem Patty Hearst ou uma jovem Greta Garbo. Ela interpretava a sofisticação da alta costura e o futurismo dos anos 1960 com a mesma facilidade. Ela conta que foi a modelo em quem Vidal Sassoon criou seu famoso corte de cabelo de cinco pontas, e que ela desenhava cílios postiços inferiores muito antes de Twiggy. Sua aparência mudou dramaticamente depois que Eileen Ford, rainha soberana do universo das modelos, tirou com pinça toda a sua bela e vasta sobrancelha, para lhe dar um ar etéreo – e para erradicar seu look natural, que nunca mais voltou.

“Grace” é mais que um texto de acompanhamento para essas fotos. Mas, já que Grace “leu quase dois livros na vida que não fossem de fotos”, o texto deste (no qual ela colaborou com Michael Roberts), é leve e brilhante. É também charmoso e franco, como quando Grace se lembra do uso de sutiãs push-ups e bobs quentes no começo de sua carreira.

“Você tinha isso se fosse absurdamente antenada e vanguardista, coisa que eu era”, diz ela. Grace teve vários impetuosos romances e trabalhos como modelo, mas sua abordagem para tudo era com o olhar de moda. “Pijamas de algodão listrados” apareceram em seu primeiro caso sexual.  

Grace trabalhava como garçonete quando foi convidada a posar para Norman Parkinson, o fotógrafo de moda que ela mais admirava na época. Ela descreve seu primeiro trabalho com ele: correr nua pela floresta, e diz: “Tive uma experiência ótima”. Logo, ela estaria ao lado das modelos mais famosas e fotógrafos da elite de Chelsea, me Londres.

De maneira abrupta, ela menciona o terrível acidente de carro que rompeu uma de suas pálpebras. O ferimento foi milagrosamente reparado, mas aquilo a marginalizou por um tempo, e a levou a usar maquiagem pesada e escura nos olhos. Hoje, ainda uma provocadora que prefere os extremos ao meio termo sem graça, ela clareia a área ao redor dos olhos para conseguir o que ela chama de “look pálido e renascentista”. É um look que passa uma mensagem assustadora para a beleza convencional do mundo.

O trabalho de Grace como editora não tira o glamour de suas histórias de aventuras juvenis. Mas ele está no cerne deste livro, e ela o apresenta com paixão e extravagância. Ela recheia o livro com pequenas esquetes cômicas e caricaturas convenientes de muitos amigos e colegas. Suas legendas são espirituosamente autoexplicativas. Para Azzedine Alaïa, conhecido pelos peças bem ajustadas: “Diga-me, Azzedine, meu bumbum fica grande nisso?”

Acontece que Alaïa também é conhecido pela atitude desdenhosa com relação a Anna Wintour, assim como Coddington veio a ser. Então estas memórias incluem um capítulo apreciativo sobre a relação profissional com Anna, sobre como Anna ama seus filhos, trabalha duro, mantém uma aparência férrea e assim por diante.

No entanto, enquanto elogia “o cabo de guerra criativo do modo como eu e Anna trabalhamos juntas”, e lealmente exprimindo seu desprezo por “O Diabo Veste Prada”, Grace também dá suas cutucadas. É bacana que Anna tenha feito tanto para transformar a “Vogue” em uma marca global, diz Grace. “Entretanto, um pouco de nostalgia pelos dias em que a moda vinha em primeiro lugar não faz mal a ninguém.”  

Um dos melhores aspectos deste livro é a sua avaliação dos estilos dos maiores fotógrafos de moda. Grace trabalhou com todos eles. Ela se defende do comportamento de diva (o perfeccionismo de Annie Leibovitz é citado), fica perplexa pelos fotógrafos que não saem das próprias zonas de conforto e se diverte por causa das demandas malucas que sessões de fotos podem gerar.
Uma de suas histórias mais engraçadas envolve Puff Daddy querendo aparecer exatamente no meio de uma foto de duas páginas de Annie Leibovitz apesar de ter sido avisado que ele iria sumir na dobra da revista.

Outra, sobre a sessão de fotos fantástica inspirada em Lewis Carroll, um dos maiores triunfos de Grace, que fala sobre a chegada de Tom Ford, impecavelmente vestido, para fazer o papel do Coelho Branco. Mas a foto iria mostrá-lo entrando no buraco do coelho. Para a surpresa dele, Ford se viu de cabeça para baixo contra uma ladeira de veludo preto. Então, ele pediu para a sempre engenhosa Grace ajudá-lo a segurar a gravata para que não cobrisse seu rosto e evitar que aparecesse muita meia.

Tradutor: Erika Brandão

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