Moda

Vocação questionadora da moda deveria aproveitar onda de protestos

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Camiseta estampa uma das frases de maior repercussão nas manifestações organizadas pelo Movimento Passe Livre nas últimas semanas imagem: Divulgação

Fernanda Schimidt

Do UOL, em São Paulo

Num momento em que a apatia generalizada parece ter dado trégua e aberto espaço para uma mobilização popular de proporções históricas, a moda soa como um assunto dos mais fúteis. Mas não é bem assim. O que vestimos é ao mesmo tempo meio e mensagem do que somos e gostaríamos de ser. Além de escancarar a identidade, as vestimentas são proteção e bandeira.

Quando a segunda onda feminista pediu o fim da opressão feminina nos anos 1960, sutiãs foram queimados; cinco décadas depois, um aluno impedido de usar uma saia em um colégio particular de São Paulo tem o apoio de um “saiaço” vindo de colegas. A cultura punk do faça-você-mesmo transforma simples camisetas em cartazes ambulantes com estampas, silks ou até alfinetes para pregar - no sentido mais puro e físico do termo – seus ideais.

Esse ativismo, no entanto, poderia também vir mais “de fábrica”, com um maior número de estilistas apoiando publicamente causas e utilizando suas criações para se fazer ouvir, ao exemplo das inglesas Vivienne Westwood e Stella McCartney, ou dos nossos Ronaldo Fraga e Cavalera. A moda, como negócio, subaproveita sua vocação questionadora, seja por medo de que, ao levantar uma bandeira, afugentará os que não compartilham dela, seja por puro desinteresse.

A classe fashionista tem, sozinha, motivos de sobra para protestar: exploração infantil, racismo, trabalho escravo, distúrbios alimentares, homofobia e, no Brasil, ainda uma pesada carga tributária. Unir-se às aflições coletivas pode ser o empurrão que faltava para uma mudança do mercado.

Que o clima de manifestações incentive esse sentimento ativista de nossas roupas, seus criadores e mediadores – imprensa, obviamente, inclusa. As causas ainda são muitas.

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