Moda

Metrô de SP tem "carão" e tietagem em desfile de moda a R$ 3

Alexandre Schneider/UOL
A modelo Débora Müller posa dentro de vagão durante desfile que percorreu a linha verde do metrô de São Paulo imagem: Alexandre Schneider/UOL

Fernanda Schimidt

Do UOL, em São Paulo

Com o soar do alarme de fechamento das portas, o vagão do trem que saía da estação Vila Madalena sentido Vila Prudente estava especialmente cheio para o início de uma tarde de domingo na capital paulista. "Olha a pose e segura o carão!", gritou Augusto Mariotti, diretor de conteúdo do São Paulo Fashion Week, a um grupo de dez modelos que participavam do desfile aberto ao público promovido pela semana de moda e o Metrô de São Paulo. O evento funcionou como uma espécie de pré-estreia para a temporada Inverno 2014, que começa nesta segunda (28) e vai até a sexta-feira, com apresentações fechadas para convidados no Parque Villa Lobos.

A ordem de Mariotti foi recebida com risos, das próprias modelos e de quem acompanhava o início da jornada. Manter pose e carão sobre salto e com acessório de cabeça dentro de um vagão em movimento é tarefa especialmente difícil, mesmo para as tops. Momentos antes, ao entrar no trem, a modelo Drielly Oliveira deu a dica para as colegas não perderem seus chapéus: "lembrem de abaixar a cabeça". Muitas só podiam se locomover com as pernas arqueadas, as costas curvadas e a cabeça um pouco de lado -- caso de Fabi Mayer, que comandava outro grupo de dez meninas. No total, participaram do desfile 40 modelos, entre elas Talytha Pugliesi, Débora Müller, Samira Carvalho, Lovani Pinnow, Michelli Provensi e Ronaldo Martins.

Quem pegou o "fervo", como diz o povo da moda, desde o início na Vila Madalena, onde foi montado um camarim aberto aos olhos curiosos do público -- fashionistas ou não --, já não se impressionava tanto com a presença de modelos em looks trabalhados, com direito a maquiagem carregada e cabelos volumosos. O curioso era observar a reação de quem estava em plataformas de outras estações, aguardando para embarcar.

Na primeira parada, um jovem skatista solitário viu o vagão parar, as portas serem abertas, mas continuou imóvel. Um segurança que acompanhava o evento ainda tentou encorajá-lo com um "Pode entrar!", mas foi recebido por um balançar horizontal de cabeça. O motivo era nobre: "está muito cheio, e estou suado", justificou para a reportagem do UOL. Mais adiante, na Consolação, a dupla de estudantes Nae Matakas e Guilherme Schutzer, ambos 19, esboçou um certo pânico e confusão ao adentrar o vagão. "Achei que era um propaganda", disseram eles, quase ao mesmo tempo.

Sentada por não caber em pé dentro do trem, Fabi Mayer tomava cuidado para que seu chapéu com três pontas afiadas não machucasse quem passava no corredor. Sua maior preocupação, no entanto, era uma mulher sentada ao seu lado, dormindo na janela. "Ela vai morrer de susto se acordar e me vir assim", comentou a top. 

O cuidado com a segurança e regras básicas de convívio no metrô tinha sido reforçado pela produção do evento. Os modelos estavam no papel de exemplos de civilidade para os demais usuários do transporte, portanto teriam de prestar atenção em não sentar em assento preferencial, manter sempre a direita nas escadas rolantes deixando a esquerda livre para circulação e respeitar a faixa amarela das plataformas.

Democratização

A maioria das pessoas que acompanhavam o trajeto era composta por quem tinha ido ao Metrô especialmente para o evento. As intenções estavam claras já na bilheteria da Vila Madalena pela profusão de mix de estampas, coques no alto da cabeça e muitos óculos escuros aguardando para comprar a passagem de R$ 3 para o desfile. Na passarela, looks de 15 estilistas e marcas famosas, como Alexandre Herhcovitch, Reinaldo Lourenço, Gloria Coelho, Huis Clos, Neon e André Lima, reviviam edições anteriores do São Paulo Fashion Week.

"Fiquei sabendo pelo Facebook e resolvi vir para tentar algum contato. Estou amando, é a primeira vez que vejo de pertinho. Antes era só na TV. E, aqui no metrô, é público. Acho um avanço", disse Alessandra Alves, 25, estudante de moda. No vagão, ela tirava fotos de cada modelo à sua volta e mostrava, sorridente, o resultado para as fotografadas, uma a uma.

A ala mais jovem era a que mais se divertia na ação. Acompanhado pela mãe, o estudante Thauan Arruda, 17, ganhava atenção especial da modelo Dani Witt -- uma de suas favoritas, ali, graças ao look com cabelo azul bem curtinho -- com quem havia acabado de fazer um retrato, no estilo "selfie". Minutos antes, ainda na plataforma, eram as modelos que haviam pedido para tirar foto com o rapaz, pequenininho ao lado delas e com visual pensado especialmente para o desfile combinando camisa com bordados, jeans de barra dobrada, sapato sem meia e óculos escuro espelhado.

Em outro vagão, depois da parada na estação Alto do Ipiranga, a pequena Nicole, 8, olhava em volta boquiaberta, agarrada à sua tia, que contou que a sobrinha sonha em ser estilista". "Ela bate no teto!", disse Nicole, apontando para a modelo Lovani Pinnow em vestido xadrez, com quem tinha tirado uma foto minutos antes. Outra modelo que recebia os olhares atentos da criança era Amanda Lopes, que vestia calça e blazer com gorro na cabeça, numa proposta quente e fechada para um vagão cheio e sem ar condicionado. A top mostrava o peso das peças, repleta de aplicações em metal. Questionada sobre qual look tinha achado mais bonito, Nicole não teve dúvida: "os dois".

Vida real

Quando está longe dos desfiles de moda, a modelo Drielly Oliveira também é usuário do transporte público, especialmente do metrô de Nova York, onde mora. No cotidiano, ela evita ao máximo o uso de salto. "A não ser quando tem algum evento e preciso ir de salto, aí tem de ser táxi", contou. Para quem não pode evitar o uso do look completo com salto no metrô a dica dela é uma só: "segura com força!! Ainda bem que tem essas barras."

Com a chegada à Vila Prudente, as modelos fizeram uma última apresentação na escada rolante  da estação. Os looks foram devolvidos ali mesmo, mas a produção de beleza continuou. De volta às suas próprias roupas tomaram o trem seguinte para voltar à vida normal. Algumas ainda guardavam resquícios da apresentação como os olhos marcados e o cabelo armado, caso da modelo Bettina Brezolin. Deslocada do grupo de modelos e sem poses de moda, as reações que recebia dos demais usuários do metrô eram mais de curiosidade do espanto. Uma senhora apertava os olhos por trás do óculos para entender o conceito da maquiagem e cabelo, enquanto que dois amigos esperaram que ela deixasse o vagão para comentar sobre o que teria acontecido.

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