Moda

Roupas e acessórios com ligação afetiva seguem por gerações

André Durão/UOL
A atriz Bel Kutner e o casaco comprado na década de 1960 por Cacilda Becker imagem: André Durão/UOL

Adriana Terra

Do UOL, em São Paulo

Um conjunto que a mãe usava há cinquenta anos, um casaco herdado de uma amiga querida, uma pulseira que pertenceu a diversas pessoas da família. Não é difícil encontrar peças de valor sentimental que duram gerações, por vezes incorporadas ao vestuário de gente que mantém uma conexão afetiva com roupas e acessórios de parentes ou amigos.

A atriz Bel Kutner, 43, no ar em “Amor à Vida” como a enfermeira Joana, conta que não é do tipo acumuladora, mas costuma preservar o que ela chama de peças “afetivas do conforto”.

“Camisetas de dormir da minha mãe eu tenho duas, elas estão impecáveis, e já faz mais de vinte anos que ela morreu”, disse Bel, filha dos atores Dina Sfat e Paulo José. “Também tenho uma roupa de couro que ela comprou nos anos 1960 num brechó... Imagina, já era velha na época! Essa, eu uso pouco para ela durar mais uns trinta anos”, brincou a atriz, que cita ainda em sua listinha de "guardados" um anel e um pijama do pai e roupas de baixo de tias-avós, usadas "para sair na rua mesmo” durante a adolescência, lembrou Bel.

Além de roupas e acessórios de família, a atriz tem carinho por uma peça que veio do 'guarda-roupa sentimental' de uma amiga: um casaco que pertenceu à atriz Cacilda Becker (1921-1969) e chegou até Bel como um presente de Cleyde Yáconis (1923-2013), irmã de Cacilda. “Era, para ela, um dos poucos guardados afetivos da irmã. Foi um casaco comprado na Europa, de pele sintética, que eu uso na semana mais fria do ano em São Paulo”, contou a moradora do Rio.

  • Alessandro Shinoda/UOL

    A designer Fernanda Reis Machado e as roupas herdadas do armário da mãe

Com história e adaptáveis

“Quando comecei a comprar roupa com meu dinheiro, passei a dar valor para coisas mais antigas. Elas carregam mais história”, disse a designer Fernanda Reis Machado, 28. Assim como Bel, ela tem em seu armário algumas peças da mãe, além de um acessório herdado do 'guarda-roupa afetivo' alheio: uma pulseira que pertencia a uma ex-sogra de sua cunhada.

Fernanda tem um apego sentimental e também estético por estas roupas e acessórios, já que gosta de peças de décadas passadas em geral e compra muito em brechó.

A designer lembra de momentos em que a mãe, que aprova a ideia das roupas seguirem no armário da filha, usou peças que ela veste atualmente. Um conjuntinho de top e calça da década de 1980, por exemplo, foi o traje materno na festa de cinco anos de Fernanda. Hoje, ela combina a blusa a outras calças e shorts, assim como faz com um maiô colorido, também originalmente da mãe, que adapta como um body.

  • Arquivo Pessoal

    Gabriela Ferreira da Costa Carvalho de Andrade (dir.) e a mãe, respectivamente, em 2009 e 1973, casando-se com o mesmo vestido

O vestido do ‘frio na barriga’

A analista de RH Gabriela Ferreira da Costa Carvalho de Andrade, 31, não coleciona diversas peças de família, mas tem uma história de 'moda afetiva' relacionada a uma data bem importante em sua vida. Por volta de 2008, ela olhava a oferta de vestidos de noiva e, apesar de achar vários modelos bonitos, nenhum lhe causava o “friozinho na barriga” que uma peça de quase quarenta anos lhe provocava desde a infância.

Gabriela costumava admirar o vestido de casamento de sua mãe em uma foto de família. O desejo de usar a peça vinha “desde antes de ter o plano de casar ou mesmo de ter namorado”, conta, mas só se tornou mais próximo da realidade quando ela já estava com a cerimônia marcada.

A única mudança na peça, feita sob medida em 1973, foi uma “abertura de dois dedos de tecido” por conta de um contratempo: o vestido encolheu ao ser lavado. No fim, deu tudo certo. Após a festa, inclusive, o marido já deu a ideia: “‘A gente vai guardar para a nossa filha usar, né?’, ele falou. Eu disse: ‘Calma que ainda nem tem filha, e se tiver nem sei se ela vai querer se casar’”, ponderou a analista. Por via das dúvidas, é claro, o vestido segue bem guardado.

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