Moda

Sinônimo de sofisticação, pérolas são opção de joia mais em conta

Museu Victoria & Albert/Divulgação
As pérolas não são produzidas apenas no famoso tom "perolado", espécie de branco leitoso e com brilho. Aqui, conjunto de raras pérolas naturais produzidas por diferentes ostras e conchas pertencente à coleção do Departamento de Museus do Catar imagem: Museu Victoria & Albert/Divulgação

Claudia Silveira

Do UOL, em São Paulo

A eterna musa de Hollywood Marilyn Monroe podia até afirmar que os “diamantes são os melhores amigos das garotas”, como cantou no filme  “Os Homens Preferem as Loiras” (1953), mas eram as pérolas que a atriz usava sempre que queria relembrar os momentos felizes. Essa é uma das curiosidades com que os visitantes se deparam na exposição “Pérolas”, em cartaz no museu Victoria &  Albert, em Londres, numa parceria com o Departamento de Museus do Catar. Mais de 200 peças, entre joias, roupas e obras de arte, retratam a imensa variedade de cores e formas das pérolas naturais e cultivadas na mostra que fica aberta até 14 de janeiro na capital inglesa.

Logo na entrada, a exposição tenta acabar com o mito de que a pérola se forma a partir de um grão de areia que entra no molusco. Na verdade, aprende o visitante, é preciso que alguma partícula impreterivelmente viva penetre não só na ostra, mas consiga chegar até a camada mais profunda do manto, que é a membrana entre o corpo do animal e a concha. Quando esse material orgânico (geralmente uma larva ou verme), entra, dá-se início a um processo de irritação da mucosa e de reação de defesa da ostra contra o invasor. Assim, a ostra tenta encapsular o corpo estranho com camadas sucessivas de nácar, também conhecido como madrepérola, dando origem à pérola como conhecemos.

Esse é um processo natural que, além de depender da presença do micro-organismo, pode levar dez ou mais anos para gerar uma pérola de aproximadamente 6 milímetros – considerado um tamanho médio. Até o início do século 20, essa era a única forma de “fabricação” dessas gemas orgânicas. Por serem tão raras, elas foram objeto de desejo e símbolo de status de nobres e aristocratas, inclusive homens, que as exibiam pelo corpo não só como adorno mas também para ostentar a riqueza da família. Entre as peças da exposição no museu londrino, há joias que mostram que o desejo pelas pérolas já era realidade desde a Roma Antiga, no século 1 D.C.

Para todos os bolsos

Após encantar o visitante com brincos, colares, broches e tiaras exclusivos e deslumbrantes, a exposição conta os bastidores da popularização das pérolas a partir do século 20. Se, até então, só os muito endinheirados poderiam ostentar pérolas, o cenário mudou quando o japonês Kokichi Mikimoto desenvolveu e patenteou, em 1916, uma técnica para produzir em larga escala essas gemas redondas, dando uma “mãozinha” à Mãe Natureza.

Segundo a gemóloga Antoinette Matlins, essa técnica consiste na introdução cirúrgica de uma matriz esférica (que costuma ser feita da casca de outro molusco) e de um pedaço minúsculo da “carne” de outro molusco no interior da ostra. Essa “invasão” de corpos estranhos dá início ao processo natural de formação da pérola, com a ostra instintivamente envolvendo a esfera com camadas de madrepérola para se proteger.

“Mikimoto, com a sua pérola cultivada, mudou o mercado para sempre. Ao longo dos anos, várias técnicas de cultivo foram aprimoradas e outras foram desenvolvidas”, observa Antoinette em seu livro “The Pearl Book” (“O Livro das Pérolas”, em tradução livre), considerado referência para quem se interessa pelas gemas orgânicas.

Apesar da possibilidade da pérola cultivada, uma vez que a esfera é implantada, a ciência perde o controle e fica à mercê da natureza, o que mantém a pérola como uma gema tão especial e não elimina o risco de deformações. “Nem sempre a pérola formada está livre, ela pode estar presa à parede da concha, recebendo o nome de meia-pérola. Essas são as mais comuns. Pérolas soltas e perfeitamente cilíndricas são ainda mais raras”, observa o conquiliologista Carlos Henckes, estudioso das conchas e membro da entidade Conquiliologistas do Brasil, que reúne pesquisadores e colecionadores do país.

Hoje em dia, graças ao cultivo em larga escala, quando as joalherias falam em pérolas genuínas ou verdadeiras é das pérolas cultivadas que elas estão tratando, afirma a gemóloga Antoinette. As pérolas naturais se tornaram gemas raríssimas e joias só com elas são praticamente limitadas a coleções privadas, museus e leilões por causa do seu alto valor.

A desvantagem é que a produção industrial inundou o mercado com pérolas de qualidade duvidosa, o que não tem nada a ver com o formato ou cor, mas com a quantidade de tempo que as esferas permanecem dentro das ostras para que sejam cobertas de nácar. Segundo a gemóloga Antoinette, atualmente, a maioria das pérolas fica até dois anos na concha, mas esse período pode ser de apenas seis meses. Quanto menos tempo na concha, mais fina será a espessura da camada de nácar. E quanto mais fino esse nácar, menor o valor de mercado, o preço e a durabilidade da pérola.

É justamente por causa de intervalos de tempo tão diversos que é possível encontrar no mercado joias similares, mas em diferentes faixas de preço. Um par de brincos simples, contendo apenas uma pérola, por exemplo, pode custar R$ 150 (com pérola de 3,8 milímetros), R$ 990 (com gema de 1 centímetro) ou até passar dos R$ 4 mil, se também tiver diamantes. A mesma variação de preços pode ser encontrada nos colares. Há opções de joias custando cerca de R$ 180, com 40 centímetros de comprimento, ou chegando a quase R$ 6 mil e tendo apenas 43 centímetros.

Como usar

Além de clássicas, as pérolas não têm restrição de idade e embelezam da orelha dos bebês ao pescoço das vovós e combinam tanto com a descontraída calça jeans quanto com o elegante tailleur. Apesar dessa versatilidade, existem algumas limitações para o uso, dependendo do objetivo na hora de compor o visual.

“A pérola traduz um estilo muito clássico e é bem aceita no 'dress code' de todas as empresas. Mas quando usada em grande quantidade no pescoço ou no braço, com várias voltas e muito volume, ela deixa de compor um estilo elegante e vai para um mais dramático, impactante”, observa a consultora de imagem e postura Cristiane Siviero, da Your Design.

Isso significa, orienta Cristiane, que um colar básico de pérolas complementa muito bem aquele pretinho básico na hora de um jantar formal ou a camisa discreta da reunião profissional. “É uma joia que confere sofisticação”, diz. Não é à toa que as pérolas são escolha certa de mulheres poderosas como Michelle Obama, primeira-dama dos Estados Unidos, e Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, e viraram marca registrada de ícones de estilo, como Jacqueline Kennedy e Coco Chanel.

Para quem tem dúvidas se pérolas falsas também são elegantes, Cristiane é firme: “Se tiver postura e elegância, a mulher pode estar usando pedra descascada que ninguém vai notar”. A própria Coco Chanel não escondia que misturava gemas verdadeiras e falsas em um mesmo look.

Se a ocasião permite um visual mais descontraído, as pérolas podem ajudar a compor um look dramático e criativo. A mistura com outros materiais pode deixar para trás a ideia de que um colar de pérolas é acessório careta. “Ultimamente tem-se visto a pérola em joias com traços mais contemporâneos, combinadas a outras gemas e metais, o que atrai mulheres mais jovens, que combinam colares de pérola com correntes de ouro mais pesadas”, observa Amanda Salgado Borges, gemóloga da joalheria Vivara.

Tipos de Pérolas

- Natural

Ganha esse nome a pérola que surge na ostra ou molusco sem a intervenção humana. Hoje, devido à poluição e consequência da pesca predatória é raro encontrar uma pérola natural.

- Cultivada

É a pérola que encontramos no mercado atualmente. É “fabricada” em larga escala com o uso de técnicas e mão-de-obra especializada tanto em água doce quanto em água salgada. Entre os principais países “fabricantes”, estão Tailândia, Vietnã, Indonésia, Polinésia Francesa, Japão, China e Estados Unidos.

- De água doce (freshwater)

Como o nome já indica, são as pérolas retiradas de moluscos cultivados em lagos e rios. São as mais acessíveis, já que uma única ostra, dependendo da espécie, pode chegar a produzir 50 pérolas de uma única vez. Pode vir em diferentes cores, como violeta, lavanda, dourado e laranja, dependendo do tipo de ostra usada no cultivo.

- De água salgada (saltwater)

São as pérolas retiradas de ostras criadas em água salgada, ou seja, no mar. São mais caras que as de água doce, porque, entre outros fatores, cada ostra produz entre duas ou três pérolas por vez.

- Redonda, esférica ou circular

São as que se caracterizam por serem perfeitamente redondas, sem falhas no formato.

- Barroca

Não é bem um tipo, mas uma classificação, já que, tecnicamente, é uma pérola que não é perfeitamente redonda. Mesmo assim, ela tem o seu valor e pode ser classificada como simétrica ou assimétrica. As barrocas simétricas podem ter o formato perfeito de um pingo, por exemplo, e chegam custar tanto quanto a redonda perfeita devido a sua excentricidade e raridade. Já as barrocas assimétricas têm preços mais acessíveis por causa do seu formato irregular.

- South Sea

Cultivada em água salgada, é considerada a “rainha das pérolas”. As South Sea são as mais caras, raras e desejadas, podendo chegar a 1,6 centímetro. O formato é circular, como as demais, mas o que há de especial nelas é o cultivo, que é feito em uma ostra mais rara (que pode chegar a 30 centímetros) e é mais demorado, fazendo com que a pérola fique mais tempo dentro da ostra e, assim, tenha uma camada mais espessa de nácar. Isso significa maior durabilidade e brilho mais intenso e “profundo”.

- Akoya

Originalmente produzida no Japão a partir de uma espécie específica de ostra, está entre as mais caras, com formato mais perfeito e mais brilhosas. Seu tamanho, no entanto, é limitado a 1 centímetro de diâmetro.

Dicas para a hora da compra

- Procurar uma joalheria de confiança é a dica principal. Não há como fugir da relação melhor qualidade, preço mais alto. Mas lembre-se de que há pérolas para todos os bolsos;

- Observe com atenção o brilho da pérola, que costuma ser furta-cor. Brilho intenso e “profundo” indica nácar espesso. Se, por outro lado, ela tiver uma aparência opaca ou leitosa, lembrando um giz, é sinal de que o nácar é muito fino e a pérola não é da melhor qualidade;

- Faça o “teste do dente”: friccione a pérola gentilmente na ponta dos dentes da frente, como se fosse roê-la. Se a pérola for verdadeira, ela terá uma superfície porosa, arenosa. Já a pérola falsa criará a sensação de superfície lisa nos dentes. A dica é prestar bem atenção nos dentes superiores, que são mais sensíveis. O teste, vale ressaltar, não tem eficácia com dentes postiços e não prejudica a pérola;

- Procure por falhas ou descamações. Quando o nácar é muito fino, ele pode descascar facilmente, deixando à mostra a esfera matriz usada para a fabricação da pérola;

- Pérolas coloridas, como as nas cores rosa, lilás ou dourada, podem ser naturais, mas também tingidas. Pergunte ao joalheiro e, se a coloração for natural, peça um certificado ou que a informação conste na nota fiscal;

- Se for comprar uma pérola de tipo South Sea ou Akoya, por exemplo, peça um certificado de autenticidade.

(Fonte: “The Pearl Book – The Definitive Buying Guide”, de Antoinette Matlins)

Dicas para suas pérolas durarem mais

- Nunca jogue suas joias com pérolas na bolsa de qualquer jeito. Lembre-se que as pérolas são finas camadas de nácar e o atrito com outros objetos pode danificá-las;

- Evite o contato da joia com substâncias químicas e abrasivas, como água sanitária, amônia e até vinagre, o que inclui molho de saladas. O vinagre corrói as pérolas e pode danificar a joia seriamente;

- Não use pérolas se for mergulhar na piscina. O cloro poderá comprometer o brilho;

- Ponha as pérolas somente depois de passar cremes hidratantes, aplicar perfume ou maquiagem e até spray fixador no cabelo. Por serem gemas porosas, essas substâncias penetram na superfície, alterando a cor e comprometendo o brilho;

- No caso dos colares, troque o cordão que une as pérolas – geralmente feito de seda – anualmente, caso seja uma joia usada com frequência;

- Após o uso, limpe a joia com uma flanela limpa e macia, sem qualquer outro produto. Faça isso, se possível, toda vez que usá-la. Dessa forma, os vestígios de oleosidade natural da pele são removidos e a joia fica em condições ideais para o armazenamento;

- Umidade, calor ou excesso de luz devem ser evitados no local onde as pérolas são guardadas. Por outro lado, um ambiente seco demais pode fazer com que o nácar trinque;

- O ideal é que as joias com pérolas sejam embaladas e guardadas individualmente. Use um tecido natural e suave, como o linho.

(Fontes: Amanda Salgado Borges, gemóloga da joalheria Vivara; “The Pearl Book – The Definitive Buying Guide”, de Antoinette Matlins)

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