Moda

Sustentabilidade ganha força e marcas investem na "moda verde"

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Os estilistas Oskar Metsavaht (à esq.) e Stella McCartney (centro) são ícones da moda sustentável. Já a modelo Gisele Bündchen (à dir.) usou vestido feito à mão e tingido com plantas em evento em Nova York imagem: Getty Images

Cacau Araújo

Do UOL, em Brasília

O verde está na moda. Mas, não, ele não é a cor da vez. O que está na mira de marcas nacionais e internacionais é fazer da moda um negócio mais limpo, sustentável e amigo da natureza. Um dos grandes nomes a aderir à causa foi a estilista britânica Stella McCartney. A filha do ex-Beatle Paul McCartney acumulou um currículo de peso, passando por Gucci, Tom Ford e assumindo o lugar de Karl Lagerfeld na direção criativa da Chloé, antes de se dedicar à marca que leva seu nome e hoje é sinônimo de sustentabilidade na moda.

Vegetariana e defensora dos direitos dos animais, Stella não lançou uma linha com  lã sustentável da Patagônia e faz questão de investir em acessórios com madeira certificada, que respeita regras de exploração das florestas. A estilista se considera uma “eco-guerreira” e defende causas que vão da "segunda sem carne" à luta contra a caça animal, para exploração comercial.

Até a H&M, rede sueca de fast fashion, entrou na onda e, neste ano, lançou uma coleção "eco-friendly" (e cheia de estilo), provando que até as gigantes da moda podem investir em um tipo de confecção mais consciente e preocupada com os estragos que a produção e o consumo em larga escala podem causar. As roupas desta coleção são feitas apenas com tecidos sustentáveis, sem o uso de agrotóxicos que prejudicam o meio ambiente. 

E não são só os estilistas e as marcas que estão estimulando a onda verde. Quem já se mostrou defensora do trabalho manual na moda e reafirmou que o artesanato pode, sim, ser luxuoso, foi Gisele Bündchen. A top prestigiou um evento em defesa da conservação das florestas tropicais usando um vestido de festa, longo e tomara que caia com fenda, totalmente sustentável. Assinado pelo estilista Jeff Garner, a peça foi feita toda à mão e tingida com plantas. "Obrigada, Jeff Garner, por esse lindo vestido 'eco-friendly' feito à mão", ressaltou a modelo, quando publicou a foto em seu perfil no Instagram.

Em suas criações, o estilista procura aliar moda e sustentabilidade, utilizando tintas orgânicas produzidas das plantas, lã de garrafas recicladas e fios naturais, como linho e cânhamo. Miley Cyrus, Cameron Diaz e Sheryl Crow estão entre as famosas que já exibiram criações de Garner. 

Verde e amarelo
Mas não é só na moda internacional que o tema da ecologia tem conquistado espaço. Oskar Metsavaht, criador da marca carioca Osklen, é precursor em pensar em uma moda sustentável no Brasil e esse cuidado ganhou o mundo. O trabalho de Metsavaht foi elogiado pela ONG WWF (World Wide Fund for Nature), do Reino Unido. E o estilista foi citado como um "criador do futuro".

O trabalho do brasileiro não passou em branco nem mesmo por Anna Wintour, a editora de moda mais poderosa do mundo. À frente da revista "Vogue" norte-americana, ela levou a Osklen para um evento que promove a sustentabilidade em marcas de moda de luxo, o Runway Green.

Para a consultora e stylist Chiara Gadaleta, há um aumento da atenção dos consumidores e das marcas para a questão ecológica na indústria da moda. “Sem dúvida, o mercado de marcas e produtos que possuem uma relação com as questões sociais e ambientais está crescendo rapidamente. É uma maneira de ver, pensar e consumir moda que veio para ficar”, explica.

O que é a moda sustentável?
Chiara é criadora do evento SP Ecoera, que chama a atenção de marcas, projetos e empresas, além do consumidor, para questões sociais e ambientais do mercado da moda e da beleza. O evento caminha para sua quinta edição e reúne marcas como Vert, Puket, Pandora, Malwee, entre outras.

Segundo a consultora, a moda integrada à sustentabilidade pode ser resumida em quatro pilares:

- Social: a moda que tem uma relação com o indivíduo e se preocupa com toda a cadeia produtiva do pré-consumo, ou seja, quem fez, em que local e sob quais condições;
- Cultural: que tenha ligação com as raízes e origens da peça;
- Ecológico: que busque alternativas de menor impacto negativo no meio ambiente; 
- Econômica: que gere renda e proporcione desenvolvimento local.

A consultora ainda dá o caminho para quem está preocupado em se tornar um consumidor "eco-friendly" (amigo da natureza, em tradução livre para o português). “É necessário se tornar um consumidor mais atento, curioso e, acima de tudo, responsável. Ou seja, perguntar como, onde e por quem foi feita aquela peça que está usando”, ensina.

Reaproveitar para inovar

A moda brasileira tem, cada vez mais, investido em formas de prezar pelo meio ambiente. Para a designer Petula Silveira, da PP Acessórios, uma das principais chaves para conseguir fazer esse tipo de trabalho é reaproveitando materiais. “Utilizamos a técnica do 'upcyle', que utiliza o material excedente ou descartado e o transforma em algo novo”, conta Petula.

No caso da marca que comanda, o que se aproveita é o excedente da indústria de calçados para desenvolver novos acessórios. “Compramos as peles de teste inteiras que ficam paradas nos estoques dos curtumes do Rio Grande do Sul. Isso, inclusive, enriquece nosso produto, porque eles se tornam exclusivos. Com isso, não só deixamos de produzir mais couro, como evitamos que esse material tão rico seja descartado, o que geraria custo e agrediria o meio ambiente com produtos químicos” explica.

Seguindo a mesma ideia, a estilista Vanessa Montoro trabalha suas peças em crochê a partir de linhas produzidas com materiais reaproveitados, como a seda desprezada pela indústria têxtil. Depois de prontas, as peças são tingidas com pigmentos naturais, à base de beterraba, café, erva mate ou tanino.

“Nunca gostei da ideia do momentâneo, de uma peça que hoje é bonita e está na moda, mas daqui uma semana não mais”, avalia Vanessa. Foi assim que a estilista escolheu trabalhar com material reaproveitado e com produtos feitos à mão. “Um trabalho artesanal bem feito é como uma obra de arte, algo verdadeiramente luxuoso e único”, defende.

O preço de ser sustentável
Um dos maiores desafios que a moda verde ainda enfrenta é o custo de produção, que faz subir os valores das peças para o consumidor. Falta de benefícios fiscais e financeiros para este tipo de produção são fatores que pesam, de acordo com Nina Braga, diretora do Instituto-e, organização com sede no Rio de Janeiro, que faz pesquisas em sustentabilidade ligadas à moda, além de organizar ações ecológicas como mutirões de limpeza na praia. 

“Todos os casos bem-sucedidos ao redor do mundo começaram com políticas públicas facilitadoras desta transição gradual. É preciso um estímulo inicial que permita contornar obstáculos importantes como, por exemplo, o fato de que um agricultor de algodão orgânico pega no banco um dinheiro mais caro que aquele que usa métodos mais convencionais, pois o gerente entende que o risco do primeiro é maior, porque em sua plantação não serão utilizados agrotóxicos”, explica Nina.

A diretora da ONG Instituto-e ainda destaca que muitas variáveis que já deveriam estar em pauta ainda não estão previstas no processo de produção tradicional, como a escassez de água e o conteúdo social presente na peça. “Qualquer inovação tem um custo e, por enquanto, este valor agregado, que inclui contar com confiabilidade e conteúdo socioambiental de um produto não está devidamente reconhecido”, acredita Nina. A diretora da ONG ainda prega que, em um mundo em que os recursos naturais estão caminhando para um esgotamento, o consumidor precisa reconsiderar a equação de custo/benefício da moda. 

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