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Da fluidez às estampas psicodélicas, veja porque os anos 70 bombam na moda

Por Danielle Cerati

Do UOL, em São Paulo

Calças amplas boca de sino e estampas florais marcaram o espírito hippie que apareceu nas passarelas da Chloé e da Anna Sui. Cintos enormes, pantalonas, lurex, franjas, rendas com transparência figuraram na da Balmain. Plumas e vestidões fluidos surgiram no desfile da Just Cavalli. Paisley e patchwork despontaram em ponchos e capas da Burberry. O clima de paz e amor ganhou padronagens com perfume hippie-chique nas criações de Valentino. Estampas psicodélicas deram um toque cool às apostas de Emilio Pucci, Mara Hoffman, Karen Walker e Jill Stuart. A gola rulê retornou triunfante junto às marcas Dolce & Gabbana e Angel Sanchez.

Só deu anos 1970 na apresentação das coleções de outono-inverno 2015/16 nas passarelas internacionais. Em suas mais diferentes vertentes, do boho do início da era ao estilo disco queen que invadiu o período final, passando pela era da alfaiataria dândi, a década roubou a cena nos desfiles do mundo todo. Mas o que faz aquele período ser tão influente na moda a ponto de comandar um revival?

“O mundo atual está passando por uma grande mudança, assim como passou na década de 70. Nasce uma nostalgia do sentimento de liberdade que existia no período, mas agora de uma forma revisada, com um olhar mais sofisticado, um new hippie”, diz Priscilla Simões Freire de Carvalho, estilista da Lebôh. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Em termos mundiais, os anos 70 foram marcados pela recessão econômica, crise do petróleo e continuidade das ideias progressistas lançadas nos anos 60. “Foi um momento da história em que os jovens se reuniram para contestar, para exprimir suas ideias e falar de seus anseios. Esse movimento impactou diversas áreas, como a economia, a política e a moda. O desejo de se comunicar e de liberdade se refletia na maneira de se vestir: começaram a aparecer as pantalonas largas, as camisetas com frases de paz&amor, os vestidos e saias longas, os cabelos crespos e o comportamento mais rebelde”, destaca Karla Seabra, gerente de divisão Estilo e visual merchandiser da Marisa.

Ursula Carvalho, especialista em moda do Senac (RJ), acrescenta que o período foi um divisor de águas na moda com a ascensão dos jovens e o reflexo dos movimentos estudantis de 1968, quando as ruas começaram a ditar tendências, democratizando o vestir. “Tamanha é sua importância que a década é abordada nos cursos de criação e coordenação, no contexto da história da moda do Senac”, destaca. Sua relevância vai além da moda e influenciou o comportamento humano de uma forma geral. “Foi uma década marcada pela revolução. Através da moda, as pessoas conseguiam, enfim, mostrar suas atitudes e convicções. Tudo era permitido”, finaliza Luisa Pimenta, estilista da Mork.

Legado setentista
Salto plataforma, calça boca de sino, óculos tamanho GG, poncho, manga sino, batas, pantalonas, jeanswear, macacão, legging, estampas florais, franjas, paetês, glitter, bordados e
brocados, náilon, tricô, crochê, tie-dye, modelagens amplas, rodadas e fluidas, tom do camelo ao supercolorido e metalizado.  Essas são algumas das heranças deixadas pelos anos 1970 para a moda atual. “Os anos 70 inspiram a moda atual pela diversidade de estilos e tendências que lançaram. Foi um período em que se experimentou de tudo. Desde roupas de algodão leve a peças de alta costura. A ideia era fugir do aspecto normal. A moda passou por muitas reformulações: trabalhos de estamparia digital deixaram as criações mais rígidas, frias e distantes. O que é o oposto disso acaba chamando a atenção. Os anos 70 voltam para um resgate do look boêmio, relembrando uma maneira mais relaxada e livre de se vestir”, revela Waldete Zafanelli do Amaral Silva, diretora de criação e estilo da Avizo.

Divulgação
A estilista Nica Kessler em um look bem anos 70 imagem: Divulgação
Groupies contemporâneas
A estilista Nica Kessler, 33 anos, é uma das adeptas do mood seventies em suas produções. “Sempre curti o estilo boho dos anos 70 e as estampas psicodélicas. São superdivertidas e adotei algumas peças emblemáticas no meu guarda-roupa. Acho que esse estilo tem a cara do Rio e combina com nosso clima. Gosto do colorido, das formas longas e amplas, dos acessórios e, principalmente, da liberdade de escolher o meu próprio estilo, sem a rigidez que acontecia antes. Adoro misturar o crochê com flare jeans no dia a dia. A moda não é figurino, não reconstitui ao pé da letra uma época. Ela se apropria de certas influências e traz novos usos, novos materiais, novas maneiras de usá-los. Ninguém precisa sair vestida de paz e amor. O que importa é pegar referências e usá-las com a silhueta do aqui e agora”, defende.

A atriz e apresentadora Janaína Jacobina, 32 anos, é outra personalidade que aderiu à trend mesmo antes de ela estar em evidência. “Sempre gostei de mesclar em meus looks peças e acessórios no estilo setentista. Uso e sempre usei, pois são peças curingas, que, independentemente da moda, sempre tenho para compor as produções e que dão certo. Uma delas é o headband, que dá um charme no visual, assim como lenços e tiaras customizadas nos cabelos com ondas feitas com babyliss. Fica lindo. As calças com as bocas mais largas dão um ar mais arrojado. Com elas tenho a sensação de ‘me arrumei, mas nem tanto’. Além disso, elas dão uma leve disfarçada no salto, alongando as pernas”, afirma.

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