Moda

Atualizada em 14.10.2016 19h14

Grife recebe crítica de consumidores por estampa que remete à escravidão

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Estampa da Maria Filó causa polêmica; marca afirma ter se inspirado nas obras de Debret imagem: Reprodução/Facebook

Thalita Peres

Do UOL, em São Paulo

A grife Maria Filó causou polêmica nas redes sociais depois que uma consumidora se deparou com uma estampa da marca retratando a escravidão dos negros, em uma loja em Niterói, no Rio de Janeiro.

Em entrevista ao UOL, Tâmara Isaac contou que não acreditou quando viu o desenho na roupa e perguntou à vendedora do que se tratava. “Entrei, estava olhando as roupas e sendo invisível [para as vendedoras] porque é assim que os negros vivem. Entramos em uma loja e ninguém presta atenção em nós", disse. 

"Depois de um tempo, veio uma vendedora branca me atender. Vi a estampa que remetia à escravidão, tirei uma foto e mandei para uma amiga porque não conseguia acreditar. É racista. Ainda procurei na etiqueta algo que explicasse o motivo da estampa, mas nada. A vendedora também não sabia explicar, disse só que fazia parte da coleção inspirada no Brasil”.

Ao chegar em casa, Tâmara, que é servidora pública, foi ao site da marca para ver se existia ali alguma explicação do uso da estampa intitulada "Pindorama", mas não encontrou nada. Então, fez um desabado em sua página no Facebook --o post até o momento conta com mais de 7 mil curtidas. 

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imagem: Reprodução


"O que me deixou chocada é que aprovaram essa ideia, passou por uma linha de produção. A naturalização do racismo ainda existe. É vergonhoso que um momento tão pesado da história do Brasil sirva como recurso estético à venda."

Por meio de comunicado oficial, a grife comentou que a estampa será retirada da coleção. "A Maria Filó esclarece que a estampa em questão buscou inspiração na obra de Debret e que não houve a intenção de ofender. A marca pede desculpas e informa que já está tomando providências para que a estampa seja retirada das lojas.” As peças já não aparecem mais no e-commerce.

O artista francês Jean-Baptiste Debret veio ao Brasil na Missão Artística Francesa em 1816, com a finalidade de iniciar o ensino regular das artes no país. Viveu aqui por 15 anos e, como outros nomes, Debret registrou por meio da pintura a paisagem e os costumes da sociedade da época, o que incluía o trabalho de escravos negros. 

Repercussão
Taís Araújo, que já sofreu preconceito na web, usou suas redes sociais para criticar a estampa da Maria Filó. Em seu Instagram, a atriz escreveu que as peças “Pindorama” não devem ser vendidas.

Reprodução/Instagram
imagem: Reprodução/Instagram

"Uma marca de roupas resolveu usar uma estampa de negros escravizados, inspirada na obra de Debret e sua visão sobre a sociedade brasileira nos idos de 1800. Há quem defenda que Debret, na verdade, fazia uma denúncia, mas é também provável que Debret nunca tenha tido esse objetivo, flertando com o estranhamento dos horrores causados pela escravidão nesse nosso mundo novo. Acho que, em 2016, os quadros de Debret devem ser mantidos em museus, retratados em livros, e não estampados como uma homenagem.”

“A escravidão não pode virar 'pop', não pode ser vendida como uma peça de moda. A moda nos representa, nos posiciona, nos empodera, comunica quem somos. Não se pode fazer dela uma vitrine de uma história da qual devemos nos envergonhar. Já contaram nossa história de maneira distorcida. Esse [nosso] povo, na verdade, construiu esse país e merece respeito na nossa época!”, escreveu.

“Precisamos reconhecer o nosso valor. São atitudes como essa da Tâmara Isaac, que trouxe luz ao assunto das estampas, que me deixam a cada dia mais certa de que estamos no caminho. De nos encorajar com amor, nos abraçar e defender nossas ideias, nossos direitos e nossa história”. 

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