Crise é "aquela doença" cujo nome a moda não ousa pronunciar. Quando são obrigados a tocar no assunto, a reação de alguns setores é se esquivar. "Quanto à semana de moda de Paris, não tivemos nenhuma mudança significativa: o número de desfiles é o mesmo e o patrocínio vem do governo francês. Quanto às marcas participantes, será difícil que admitam [a crise], porque têm medo que isso só faça piorar a situação", comentou a assessoria de imprensa da temporada parisiense. Diretor criativo da
Chanel, o estilista
Karl Lagerfeld aconselhou que os estilistas não pensassem sobre o assunto. E até o novato
Gareth Pugh se recusou a admitir qualquer possibilidade de economia na troca de seu desfile por um vídeo.
Juliana Lopes/UOL  A Chanel abusou das fendas para seu Inverno 2009/10 |
Se oficialmente a palavra de ordem é ignorar "a" questão, na passarela a medida já foi tomada e é explícita. A saída para tornar irresistível o desejo de consumo no próximo inverno europeu foi recorrer ao poder do sexo na moda.
AFP  A top russa Sasha Pivovarova desfilou looks da Louis Vuitton munida de orelhas rosa de coelho |
Diferente da sensualidade italiana, já conhecida em marcas como Roberto Cavalli e
Versace, o recurso utilizado pelas grifes que desfilam em Paris, porém, é mais sutil e complexo. Mas não menos impactante. Marcas conceituais como
Hussein Chalayan chegaram a apelar para um quase erotismo, remodelando seios e nádegas das modelos em um material com textura entre látex e couro, em vestidos curtíssimos com modelagem justa, botas até as coxas com detalhe de cinta-liga. Para garantir que nenhuma imagem caia na vulgaridade, é aplicada uma boa dose de humor, irônico ou não. Mesmo humor utilizado no momento em que Pamela Anderson, um dos ícones do apelo sexual escancarado, é eleita a diva do desfile da alternativa
Vivienne Westwood. Ou que
Marc Jacobs coloca um par de orelhas de coelhinha nas modelos da
Louis Vuitton, que também usam botas fetichistas como na apresentação de
Chalayan e exibem as longas pernas e os belos contornos em silhuetas curtas e muitas vezes ajustadas.
Reuters  A estilista Vivianne Westwood colocou a 'playmate' Pamela Anderson como musa de sua passarela nesta temporada |
Além desta pitada irônica e divertida em relação ao que é sensualmente explícito - o que autoriza as mulheres a adotarem o artifício sem achar que estão "apelando" - uma outra arma é usada pelas maisons de luxo: a modelagem e os tecidos impecáveis e a citação ao guarda-roupa masculino. É assim, por exemplo, que
Chanel abusa das fendas, decotes profundos, silhuetas ajustadas, sem correr o risco de ter sua reputação de elegância nem um milímetro abalada.
Sem abandonar o luxo, as grifes da temporada parisiense parecem querer prender suas clientes não pela economia, mas pela necessidade que toda mulher tem de seduzir, haja crise ou não. Manobra antiga - afinal, sexo sempre vende - mas que deve funcionar.