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05/09/2007 - 00h42

Suzy Menkes: A primeira-dama da França e a guerra dos sexos na moda

SUZY MENKES
"The New York Times"

Brainpix

Cécilia Sarkozy veste Prada de seda em tom champagne para a posse do marido Nicolas

Cécilia Sarkozy veste Prada de seda em tom champagne para a posse do marido Nicolas

Eu quase desmaiei ao ver Cécilia Sarkozy na posse de seu marido, em maio. Em seu vestido Prada em seda champanhe, o top marcando o busto, as pequenas pregas se abrindo de sua cintura e a saia caindo graciosamente sobre seus joelhos, ela exibia frescor, modernidade e sensualidade. E eu não fui a única editora de moda a saudar esta injeção de glamour em um mundo geralmente dominado por terninhos e conjuntos maternais de casaco e vestido. A imprensa de moda francesa até mesmo a comparou a Jacqueline Kennedy durante os anos de Casa Branca.

Mas então eu ouvi o veredicto dos rapazes. Eles desdenharam o estilo da primeira-dama como sendo para "les bonnes soeurs", ou freiras, e o compararam desfavoravelmente ao das saias-lápis curtas e paletós justos de Ségolène Royal, a candidata presidencial derrotada e pretensa "femme fatale". É possível, a partir deste episódio, extrapolar para que o que é considerado sexy não depende apenas do olho de quem vê, mas também do sexo de quem vê.

Apesar de nós mulheres - inclusive a própria Miuccia Prada - vermos uma maliciosa sensualidade na Prada e pensarmos que os sapatos estranhos e pesados da Miu Miu são provocantes, os homens não tendem a compartilhar do nosso entusiasmo. O mesmo vale para Marni e sua geometria elegante, assim como ouvi homens lamentarem as batas de gestante da Chloé. Estas roupas não recebem mais votos dos homens (héteros), tanto quanto marcas como Comme des Garçons não ganham fãs entre as esposas-troféu que vestem looks em cor-de-rosa.

Se há estilistas que as mulheres amam mas os homens não entendem, o inverso também é verdadeiro. O tapete vermelho, provido pelo rol familiar de nomes italianos, é infinitamente previsível, com seus hectares de pele exposta e vestidos de noite tomara-que-caia. Para os entendidos em moda, é apenas um grande bocejo. Por que ninguém aparece em uma festa do Oscar com um turbante Prada superchique? Afinal, ninguém esqueceu a ousadia de Björk ao vestir aquele cisne morto.

Se plumas para atrair o sexo oposto é algo natural entre as garotas (especialmente as do tipo já "emplumado"), por que as mulheres se desviam deliberadamente da natureza zombando dos desejos masculinos?

A resposta fácil é que as mulheres independentes superaram esta idéia de se vestirem para agradar um homem. A individualidade é mais prezada do que a aprovação do parceiro. Mas isto não explica por que nos sentimos tão bem e mesmo desejáveis em roupas que os detratores rotulam de algo como um "chic desalinhado". Nem por que costumam ser as próprias mulheres que desenham essas peças.

Prada e suas roupas freqüentemente são descritas como "intelectuais". (Isto é um elogio tanto quanto era há mais de um século, quando mulheres inteligentes e instruídas eram desprezadas como sabichonas.) Mas mesmo Prada pode desconcertar suas próprias seguidoras. Sua coleção de inverno, com tecidos sintéticos, felpudos, fizeram as modelos parecerem ter fugido de um desfile de Páscoa. Consuelo Castiglioni, da Marni, não se saiu melhor. Em vez do veludo acariciável, suas roupas incorporaram um plástico que não é exatamente convidativo. Ainda assim, há mulheres que permanecerão leais a ambas as marcas.

Rei Kawakubo, com sua austeridade e severidade, é considerada a arquiintelectual da moda. Mas de forma intrigante, sua mais recente coleção era tão cor-de-rosa quanto goma de mascar, no espírito do kawaii - a graciosidade juvenil da menina mulher japonesa - para a qual Comme des Garçons sempre pareceu anátema. Mas fora os caçadores de meninas do distrito Harajuku de Tóquio, será que os homens realmente se impressionam com vestidos infantilóides?

Eu tentei olhar para a história para ver se houve com freqüência uma desconexão de moda entre os sexos. Não havia polícia de moda para informar o que as mulheres shakespeareanas pensavam de homens de colantes ou se os vestidos estilo império de Jane Austen eram aprovados. Mas parece que os homens vigorosos não ligam muito para as melindrosas sem busto de Coco Chanel. E mesmo se Balenciaga era o máximo da elegância para as grandes damas, seus parceiros certamente preferiam as formas mais curvilíneas de Christian Dior.

Você pode argumentar que este "yin e yang" é o motor do estilo, com Armani versus Versace e Prada versus Gucci impulsionando a moda à frente. Mas nossa era parece única em sua rejeição deliberada pelos estilistas do sex appeal tradicional. Fora com as mules de saltinho e que venham as sandálias de plataforma! A moda não é nada se não for perversa.

(Suzy Menkes é editora de moda do jornal "International Herald Tribune" e colaboradora da revista de estilo do "The New York Times")

Tradução: George El Khouri Andolfato
Hospedagem: UOL Host