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Divulgação/Reprodução
Melissa criada pelos irmãos Campana (à dir) e o modelo da marca argentina Lady Stork (à esq)
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Que marcas populares são vorazes ao produzir roupas, calçados e acessórios pautadas por criações internacionais, não é segredo e nem polêmica na indústria da moda. No entanto, as coincidências nas criações de sapatos nacionais e internacionais chega a ser tão freqüente e detalhada, que fica difícil saber quem copiou quem.
Um passeio por catálogos para o inverno 2008 e análise de coleções internacionais recentes revelam uma realidade que está no ar, ou melhor, pronta a ir aos pés: exemplares de calçados nacionais idênticos e/ou similares aos que desfilaram em badaladas passarelas dos centros mundiais de moda começam a chegar a lojas de shoppings e butiques. Por outro lado, também é possível encontrar exemplares de calçados internacionais bastante semelhantes a modelos lançados primeiramente no Brasil.
Levantamento do
UOL com grifes brasileiras e estrangeiras identificou várias "coincidências" em relação à criação, seja no modelo ou no material. Compare.
Coincidência?Vendido a US$ 797 em um site de comércio eletrônico internacional, um peep toe (clássico modelo de sapato que deixa a pontinha dos dedos de fora) da Gucci, com fenda, é remanescente da coleção primavera-verão 2008 da grife, apresentada na temporada de moda européia, em setembro do ano passado. Mas, passando os olhos rapidamente, dá para confundir com as variações da Shoestock propostas para o próximo inverno, a um custo médio de R$ 250. No catálogo da grife de bolsas e sapatos de São Paulo, há outras semelhanças de formato e material (verniz). A marca brasileira não faz questão de se intitular 100% "mãe" dos seus modelos.
"Nós assumimos que as tendências e grandes inspirações são internacionais, porém, as transportamos para à realidade e ao gosto da mulher brasileira", afirma o consultor de estilo da Shoestock, Arnaldo Silva. Questionado se já se viu impelido a copiar, respondeu: "Sim, com a globalização nossas consumidoras estão muito antenadas nas tendências mundiais, porém, na hora de interpretar, colocamos a cara da nossa coleção".
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 O do meio, da Shoestock, é lançamento do inverno deste ano. Os demais modelos são da Gucci, lançados em setembro do ano passado para a primavera-verão européia |
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Fendas, fivelas, enfeites e calçados que resultam da mescla de formatação (sapato que parece bota, e bota que parece sandália), clássicos na alta temporada (primavera-verão) européia, aliás, estão por toda a parte das coleções de calçados comerciais para o inverno brasileiro. Nos saltos, detalhe para os que lembram uma vírgula ou em cone. Recobrem os sapatos brasileiros neste inverno muito verniz, igual ao que foi feito para a estação passada da Europa. Como as estações do ano diferem na América e na Europa e nosso inverno não costuma ser pesado, as tendências do verão parecem ser um prato cheio para a inspiração dos sapatos mais comerciais.
Ética no debateVários estilistas do Brasil reconhecem que fazem releitura, são simpáticos às versões genéricas feitas por marcas populares mas rechaçam a cópia literal em certos casos, principalmente quando o alvo é o público de alto poder aquisitivo.
Os limites entre cópia, releitura e reprodução, para os consumidores leigos, parecem próximos. Os criadores demonstram um misto de conformidade e revolta. "Acabei de entrar com uma notificação contra um concorrente que nos copiou", afirmou Valéria Lima, proprietária da carioca New Order. "Infelizmente, ele continua copiando e estamos nos preparando para entrar com um processo", reclama, e diz que não declara nomes para não prejudicar o caso na Justiça. Para ela, porém, a reprodução de "clássicos" é algo positivo e o limite entre cópia e releitura varia de acordo com o limite do senso ético de cada um. "Já fizemos reproduções, sim, até porque em calçados, os clássicos são cíclicos e sempre voltam com releituras."
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 À esquerda, modelo da Miss Sixty para o Verão 2008/09; à direita, nova coleção da Arezzo |
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Procurada várias vezes para comentar as tendências outono/inverno e semelhanças na indústria da moda, a Arezzo não respondeu à reportagem. No modelo exposto no
álbum de fotos (sandália bota), a grife parece ter feito uma releitura da forma do modelo também da estação passada da grife Miss Sixty.
"Antes, o produto lançado em uma butique, demorava um ano para chegar à 25 de Março, hoje são dois ou três meses", diz Paulo Pedó Filho, gerente de Marketing da Melissa, ao comentar a indústria da massificação e do "remix".
É por isso que alguns dizem preferir o isolamento. "Faço questão de nem acompanhar o que é de fora", conta o designer de sapatos Fernando Pires. "Tem até cliente que me diz: Dior ou Dolce&Gabbana copiaram você, minhas inspirações são minhas e vêm da minha cabeça, não costumo dizer que me inspirei nisso ou naquilo", diz.
De dentro para foraO executivo da Melissa acredita que é possível criar o novo e se diz contente com o sucesso da grife. Ele chama a atenção de que a questão chave, com a globalização, é a exposição internacional.
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 Gloria Coelho criou o modelo Melissa Gladiador (na foto em primeiro plano) em 2005. Mais tarde, Marc Jacobs investiu em modelo similar (atrás) |
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Procurado para comentar o que achou das réplicas genéricas encontradas pela reportagem do UOL de Melissas feitas pelos irmãos Campana e Gloria Coelho e a semelhança de outros modelos (veja as imagens no
álbum de fotos) produzidos posteriormente por Louis Vuitton e Marc Jacobs, o executivo da Melissa respondeu: "É muito difícil descobrir até que ponto há má-fé ou coincidência de criação. Vivemos num mundo de massificação, de informação e mix e remix."
Martha Ribeiro, estilista e sócia da Capodarte, trata o tema com humor e leveza. "Sempre que crio um modelo, ainda que ele saia por completo da minha cabeça, pesquiso para ver se não copiei da Prada", conta e gargalha. "Mas, às vezes, a gente melhora um Prada um pouquinho para o Brasil", confessa. Para ela, a releitura é algo positivo e há muito desafio na pesquisa de matéria-prima, inovação de formas e cores. "Sou apaixonada pela arquitetura dos sapatos." Ao criar novos designs, ela diz que confere se não é igual ao de uma grife famosa e, se for, deixa de lado o modelo. "Há percepções e tendências ao mesmo tempo por quem trabalha na área."
Desafio cultural"O maior empecilho em criar calçados e acessórios no Brasil ainda é o cultural. A pesquisa internacional está radicada na cabeça dos industriais calçadistas e dos lojistas brasileiros, pois o varejo de calçados nacional se alimenta das vitrines internacionais", diz Fanny Littmann, sócia da Penso Moda, empresa que presta consultoria em desenvolvimento de materiais para várias marcas, entre elas, Alexandre Herchcovitch.
"Fazer o similar e o genérico gera um baita negócio, um faturamento estratosférico, mas não sustenta a marca. Portanto, dar personalidade a um calçado é a chave da continuidade, seja em design ou em atendimento."