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18/01/2008 - 18h36

Glamour da SP Fashion Week não reflete diversidade do Brasil

Gary Duffy
Correspondente da BBC News em São Paulo
Todo o glamour e estilo que se espera de um evento de moda internacional pode ser encontrado na São Paulo Fashion Week.

O evento já se estabeleceu no calendário da moda e dezenas de fotógrafos disputam as melhores imagens que vão parar nas revistas brasileiras e internacionais.

Mas, mesmo com o Brasil sendo um dos países com maior variedade racial do mundo, a grande maioria dos modelos que participam do evento são brancos, de aparência quase européia.

O Brasil tem mais pessoas de ascendência africana do que qualquer outro país fora da África. Metade da população seria negra ou mestiça e a ausência de modelos negros nas passarelas brasileiras é uma questão que já foi levantada por figuras de influência da moda mundial.

O estilista britânico Judy Blame e Michael Roberts, diretor de moda e estilo da revista Vanity Fair teriam ficados preocupados e surpresos com o fato depois de visitas do país.

Blame teria até observado que estilo não tem cor.

Diferença

Do lado de fora do prédio da Bienal, onde ocorre o evento, jovens modelos negras falaram sobre sua frustração.

"Acho que o negócio é mais restrito para garotas negras. Mas não sei se isto (acontece) apenas porque somos negras ou porque somos diferentes, com padrão de beleza diferente - nossos cabelos e nossos corpos", afirmou a modelo Rafaela Favero, 19 anos.

"Em um evento de moda é praticamente impossível", afirma o modelo Rafael Milagres, de 24 anos.

"Você precisa ter sorte e alguém que sugira o seu nome. Pois hoje em dia, para participar de um desfile, você precisa estar em uma agência onde a maioria das pessoas é branca, assim como a maioria das agências do Brasil, enquanto apenas 2% dos modelos são negros."

O proprietário de uma das agências que promovem o trabalho de modelos negros afirma que a escravidão pode ter sido abolida há muito tempo no Brasil, mas sua sombra permanece

"É como se a abolição nunca tivesse existido. É uma fachada e a história continua", disse Helder Dias à BBC.

"Modelos negros não conseguem trabalho e não têm acesso, não são bem pagos e vivem em um submundo, pois não existem oportunidades de emprego", acrescentou.

Reflexo

Estilistas brasileiros afirmam, por sua vez, que não existe a intenção deliberada de excluir modelos negros e insistem que o mundo da moda apenas reflete a sociedade.

"O Brasil é um país muito misturado etnicamente. Temos muitos negros, muitos japoneses. Na verdade, o Brasil é feito desta mistura, que também aparece em nossas passarelas", disse o estilista Fause Haten.

"Se as modelos são boas, não importa se são brancas ou negras. Não falo não a modelos negras, adoro modelos negras, (...) não tenho nenhum preconceito para trabalhar com modelos negras", disse Dudu Bertholino, da Cori, cujo desfile no primeiro dia não tinha modelos negras.

Quando questionado a respeito das alegações das modelos negras, de que é difícil conseguir trabalho em eventos como a São Paulo Fashion Week, o estilista respondeu com outras perguntas.

"Elas acham? Elas são boas modelos? São bonitas? São altas? São boas o bastante?"

Já a jornalista Erika Palomino critica a postura do mundo da moda em relação às modelos negras.

"Algumas pessoas na indústria da moda podem ser muito, muito burras, elas podem ser conservadoras e, às vezes, entendem as coisas muito tarde. Acho que seria maravilhoso ter modelos negros", disse.

Acesso

Paulo Borges, organizador da São Paulo Fashion Week, afirma que a falta de modelos negros reflete problemas maiores da sociedade brasileira.

"Acho que isto reflete a exclusão social no Brasil. Acho que a moda trabalha com uma grande série de perfis e uma série vasta de qualidades estéticas", afirmou.

"Existem vários modelos negras que fazem desfiles e, se não existem mais (modelos nas passarelas), isso é devido à história da raça negra no Brasil, que ainda é uma história marcada por restrições (de aceitação)."

Não restam dúvidas de que as principais semanas de moda no país trouxeram charme e sabor brasileiros para a indústria. Mas quem quiser que a face pública da moda no Brasil reflita a diversidade de sua sociedade terá que esperar um pouco mais.
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