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Lucas Mendes analisa crise imobiliária nos Estados Unidos

Lucas Mendes De Nova York para a BBC Brasil

Lá se foram e lá se vão os tetos. De ricos e pobres. Com ou sem dinheiro para pagar as prestações das hipotecas, os americanos abandonam milhões de casas. Quatro milhões até agora, mais de cinco até junho.

Na ponta do lápis, os pobres e os caloteiros têm razão. Suas casas estão “submersas”, é a expressão para imóveis que valem menos do que 75% da dívida. Milhões destes americanos têm dinheiro para pagar a prestação, mas é prejuízo certo. A saída é o "calote estratégico".

Nestas proporções, isto nunca aconteceu na história do país. Até 2006, quando o mercado começou a pipocar, compradores que podiam pagar não devolviam seus imóveis. Era humilhante. Embora a opção seja legal, as consequências são dolorosas, entre elas a destruição do crédito, que pode afetar a possibilidade de um novo emprego, além da infernal mudança. Mas o calote voluntário deixou de ser um estigma social.

Quando todo mundo dá o cano, qual é a vergonha? A culpa é dos compradores, que pagaram muito mais do que as propriedades valiam, ou dos bancos, que incentivaram empréstimos? Ou do governo, que alimentou o sonho da casa própria com taxas de juros rasteiras?

O governo Obama quer ajudar os proprietários ameaçados, mas a conta chega perto de um trilhão de dólares. Indigerível. Os bilionários também dão calotes. Quando alguns dos maiores investidores imobiliários compraram um conjunto de 11 mil apartamentos em Manhattan por 5,4 bilhões, foi não o maior negócio imobiliário da história americana, mas um “grande negócio” .

Os próprios inquilinos chegaram a oferecer mais de quatro bilhões. Agora, os apartamentos estão valendo menos de 2 bilhões e os compradores devolveram o conjunto aos financiadores. Um dos maiores calotes imobiliários da história. Criminoso? Negativo. Legalíssimo.

No momento, não corro o risco de ficar sem teto, mas acho que vou ficar sem meu santo, neste caso o São Vicente, o mais antigo - e último - hospital católico de Nova York. A dois quarteirões de minha casa, depois de mais de 150 anos, São Vicente vai perder o teto. Com mais de 700 milhões de dólares no vermelho, sangrando por todos os lados, qual santo poderá salvar meu hospital?

Foi o São Vicente das Sisters of Charity que cuidou dos pacientes na epidemia de cólera em 1849, dos sobreviventes do Titanic, do 11 de setembro, e foi o epicentro dos pacientes com Aids. Ainda é o endereço dos sem teto e dos sem seguro de Nova York, e esta é uma das principais causas da sangria. O número de pacientes que entram pela sala de emergência é muito maior do que o dos que entram pelas outras portas, as que dão dinheiro.

Enquanto outros hospitais de Nova York investiram em equipamentos sofisticados e médicos célebres, que atraem pacientes ricos, o São Vicente atrai todas as classes, na maioria os pobres. Administradores incompetentes e corruptos contribuíram com a decadência. Parte do gigantesco hospital poderia ter sido vendida quando o mercado imobiliário estava em alta para pagar as contas, comprar equipamentos e atrair estrelas.

Quase toda minha família passou por lá, alguns chegaram a situações difíceis e foram muito bem tratados, mas a conta de meu filho, que entrou pela caótica emergência e passou apenas 15 horas no hospital, foi de mais de US$ 20 mil. Nunca descobriram a causa da dor. O hospital esfolava - ainda esfola - quem tem bom seguro para compensar pelos que não têm.

Eu sou o único da família que nunca foi hóspede do São Vicente, mas quase fui levado à força pela polícia quando acordei no meio da noite com uma convulsão que tirou meu controle dos braços e das pernas. Não era uma tremedeira como a de frio. Os movimentos eram exagerados. Fiquei azulado, mas não sentia dor, nem mesmo desconforto, nem perdi a lucidez. Achava até engraçado. Contra minha vontade, meu filho chamou a ambulância, que veio em poucos minutos.

O enfermeiro me olhou e trouxe a maca, mas enquanto media pulso, pressão e temperatura, a tremedeira diminuiu. Disse a ele que se tivesse que passar pela sala de emergência só iria amarrado. Ele conversou com o médico e disse que então eu iria amarrado, com a ajuda da polícia.

Pedi para falar com o médico. Estiquei a conversa. A tremedeira passou. Me fizeram assinar documentos pelos quais assumia toda responsabilidade pela decisão. O pessoal da ambulância ficou triste porque, sem levar o paciente, não recebe o pagamento.

Logo que ele saiu tomei meia dúzia de aspirinas para criança, me transformei numa fonte de suor - milagrosa? - e depois dormi um sono de santo.

No dia seguinte fui trabalhar e fiz uma batelada de testes. Nunca descobriram a causa das convulsões. O São Vicente é uma causa perdida, mas vou trabalhar para salvá-lo.

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