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Condição psiquiátrica pode explicar assassinato de recém-nascidos

A grande repercussão do caso da francesa Dominique Cottrez, que supostamente matou oito filhos recém-nascidos, trouxe à tona a pergunta: por que algumas mães assassinam seus bebês?

Cottrez, de 45 anos, pode ter sofrido da chamada negação da gravidez, condição psiquiátrica pouco conhecida e associada ao neonaticídio – o assassinato de crianças com até um dia de vida.

O problema pode se manifestar em diferentes graus, afirma Laura Miller, especialista em saúde mental feminina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e autora do livro When Mothers Kill (“Quando as Mães Matam”, sem edição em português).

Ela afirma que, nas manifestações mais leves, as mulheres admitem a existência da gestação, sem, porém, ter “respostas emocionais” diante do fato. Negam-se, por exemplo, a fazer preparativos para a chegada do bebê ou admitir a gravidez para outras pessoas.

Em outras situações, as mulheres negam a gestação, ainda que seja óbvia aos olhos dos outros. Elas podem, por exemplo, atribuir o ganho de peso a diferentes motivos e culpar fatores como o estresse pela ausência da menstruação.

Nos casos mais graves – a chamada negação psicótica – a mulher insiste em negar a gravidez mesmo diante de provas definitivas, como resultados de exames.

Segundo Miller, diversas situações podem desencadear o problema em seus diferentes graus. A causa mais comum, afirma ela, é o medo de que a gravidez traga “consequências horríveis, como a expulsão de casa”.

Entre outros possíveis desencadeantes, estão o uso de drogas ou a perda de um filho.

Assassinatos
“Nos casos de negação psicótica, a mulher nunca desenvolve o sentimento de que o bebê é uma outra pessoa”, diz Miller. Foi o que parece ter ocorrido com outra francesa, Veronique Courjault, condenada no ano passado a oito anos de prisão pela morte de três filhos recém-nascidos.

“Para mim, eles não eram crianças. Eram uma parte de mim, uma extensão de mim mesma que eu estava matando”, afirmou ela a psiquiatras.

Durante o julgamento, Courjault afirmou que, por não desejar mais filhos, era incapaz de sentir ligação com os fetos. “Eu não conseguia senti-los se mexendo dentro de mim”, afirmou.

No entender de Laura Miller, as mulheres que negam a gravidez podem ter consciência limitada de seus atos.
Para o promotor francês Eric Vaillant, esse, porém, não era o caso de Cottrez.
Ele sustenta que a francesa tinha “perfeita consciência” de seus atos e do assassinato dos oito bebês. O advogado dela, porém, alega que tal conclusão pode ser “um pouco apressada”.

Motivações
A psiquiatra forense britânica Sue Bailey, especializada em crianças e adolescentes, afirma que o caso de Cottrez é pouco comum. Segundo ela, a negação da gravidez é mais frequente entre adolescentes sem relacionamentos estáveis, que temem a reprovação dos adultos.

Para ela, seria importante entender por que Cottrez não matou também suas duas primeiras filhas. Ela acredita que a morte da mãe da suposta infanticida pode ter sido um fator significativo para o desencadeamento dos assassinatos.

A chegada dos netos – cada uma de suas filhas tem um filho – também pode ter contribuído para as mortes, segundo ela. Cottrez era considerada pelas filhas uma “avó apaixonada”.

Para Bailey, a troca do papel de mãe pelo de avó pode ter abalado o estado mental de Cottrez.
Ela afirma que a francesa será questionada sobre a natureza da relação com o marido e as circunstâncias que envolveram as gestações.

O pai dos bebês, Pierre-Marie Cottrez, não é acusado de participação nos crimes e, segundo a polícia, ficou chocado ao tomar conhecimento da morte dos recém-nascidos.
 

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