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Cabelos, melhor não tê-los

Ivan Lessa Colunista da BBC Brasil

Os piores barbeiros do mundo estão situados – ou entricheirados – em Londres. Cuidado com todos eles. Principalmente, os cipriotas.

Até uma certa época, no Brasil, me lembro muito bem que bastava sentar na cadeira do barbeiro e pedir uma desbastada geral. Só. Saía direitinho e pronto para enfrentar qualquer Glostora ou Gumex que me viesse à cuca.

Além do mais, com uns cobres de gorjeta, era bem baratinho. Pelo que tenho lido e escutado de conhecidos e amigos, não mudou nada. Manjamos de cabeça.

Infelizmente, apesar da idade avançada, meu cabelo não recuou. Tá quase que todo intacto lá. E todo mês sento na cadeira do barbeiro aqui na arcada que dá para a entrada a Bush House, sede dos serviços externos da BBC, e sofro a humilhação a que eu já deveria estar acostumado. E olha que o rapaz que me corta o cabelo (francês e não cipriota) é simpático e, como única vantagem, posso exercitar a miséria que é meu francês.

De resto, ele me taca aquela máquina antipática. Zzzzzz. Levanto-me, constato pelo espelho que ele, gentil, me coloca pelas costa, focando minha nuca, orgulhoso por certo, e, depois, ao pagar, dou de cara, de frente para o espelhão perto da caixa registradora que anda à solta, e aqui na barbearia, mais um tarado ou um debilóide. Não. Sou eu. Aquela tristeza no espelho.

Acabei de pagar uma fortuna – vocês não têm idéia – e ainda por cima, sem ironia, dei uns cobres para o pastis do rapaz e sigo em frente, pronto para o susto de desconhecidos, gozação de conhecidos e abordagem justificada das autoridades.

Cortar o cabelo, comme il faut (para continuar sentado e sofrendo mais um pouco na cadeira do francês), só no Brasil de meus tempos de juventude. E em Portugal. Principalmente Portugal. De onde ainda trago comigo, no cocoruto, o corte na barbearia da rua da Polícia, em Cascais. Poucos minutos, a instrução singela (“Basta acertar por igual”) e tacou-me a senhorita profissional – é, a barbeira era jovem e pertencente ao sexo frágil, se é que há esse tipo de sexo em nosso país irmão – um corte de fazer inveja a mim mesmo, que vivo para o passado que passou. Ainda por cima, é das coisas que menos encareceram no Portugal de hoje, do euro, juntamente com os pastéis de natas e o jornal diário.

Deixo de lado, relutante, confesso, meus cabelos cor de prata, ora tão bem aparados, e dedico-me agora aos sofrimentos por que devem passar as mulheres desta ilha. Reparem nos dados que eu, com minha diligência, tendo Hopalong Cassidy do lado, andei catando na mídia britânica. Espelhemo-los.

A cidadã típica do Reino Unido terá tido no cabeleireiro, no decorrer de sua vida, cerca de 104 estilos de corte de cabelo. Entre as idades de 13 e 65 anos, a britânica essa irá aparar, cortar ou pintar suas madeixas num mínimo de duas vezes por ano.

O principal motivo, segundo tricologistas de gabarito, não é asseio ou vaidade. Ao que parece, as mulheres – e isso é válido para qualquer nacionalidade – vão ao cabeleireiro por tédio ou para se defenderem de um “caso amoroso” recém-encerrado.

Um tricologista (ele se chateia se chamarem de cabeleireiro) muito em moda, Andrew Collinge, acrescenta ainda que tanto senhoras quanto senhoritas experimentam pintar os cabelos num mínimo de três vezes no decorrer de suas vidas. Louro, escuro e ruivo, quero crer.

Ninguém fala nada em highlights, faixas essas coisas que eu vejo anunciadas na televisão entre um assassino em sequência e outro. Nem fala do preço. Provável que a ida ao profissional, seguramente abalizado, acabe custando muito mais caro que um barbeiro de arcada da BBC ou de ruela de Cascais. Que pague o marido. Ou que vá a conta, só de picuinha, para o caso que deixou de sê-lo.

Uma coisinha mais: vem cá, não há por aí, correndo o mundo, uma história de que ida de mulher ao cabeleireiro é conversa fiada, que na verdade elas … Bem, vocês manjam. Eu me recuso a manjar. Bons cabelos em cima, boa cabeça embaixo é meu moto.
 

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