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Ivan Lessa: O despertar de Julia Roberts

Você todos viram aqui mesmo na BBC Brasil: Julia Roberts foi proibida para todo território nacional britânico. Ou pelo menos seu rosto, mais seus 64 dentes, sorrindo para as câmeras em anúncio de um produto de beleza da L´Oréal.

Eram anúncios em cartazes e comerciais de TV vendendo as marcas Lancôme e Maybelline da poderosa indústria da beleza feminina.

Nada havia que pudesse ofender a moral dos cidadãos britânicos. Apenas o seu rosto e de uma modelo, que eu nunca vira mais gorda ou mais magra, chamada Christy Turlington. Esta também se encontrava enquadrada dentro dos rigorosos padrões de moralidade vigentes nesta Grã-Bretanha ainda sacudida pelas artes negras do magnata australiano-americano Rupert Murdoch. Estes padrões foram reforçados diante dos últimos acontecimentos midiáticos ligados ao magnata em questão mesmo para não-parlamentares, não-policiais e não-jornalistas.

Na rua, e mesmo em casa, as pessoas falam baixo e usam expressões que evitam vulgaridades. Uma espécie de Primavera Britânica, ou melhor, Verão Britânico, ocorre após tantos escândalos, grampos e comissões parlamentares de inquérito.

Por falar em grampos: volto à notícia que nosso aprazível sítio deu. Julia Roberts não é bem essa Julia Roberts que a publicidade divulgou procurando vender produtos de beleza. Aquela era outra pessoa.

Segundo a denúncia feita pela parlamentar Jo Swinson, do partido Liberal-Democrata, que afirmou que as propagandas em questão “não são representativas dos resultados que os produtos podem alcançar.”

Nunca vi uma foto da parlamentar em questão. Não sei se usa batom, base, delineador, algum creme de beleza ou mesmo grampos nos cabelos, se é que ainda são moda. E como é que ela sabe da suposta mistificação estética?

São mistérios que, com prazer, terei que desconhecer para sempre.

Ocorre-me, no entanto, que, com tanto fuzuê acontecendo nos setores políticos, midiáticos e policiais, a ilustre Jo Swinson tenha encontrado tempo e recursos tecnológicos para expor a verdade e nada mais que a verdade sobre as feições de Julia Roberts e da modelo cujo nome já me esqueci.

Pergunto-me: será que foi de orelhada? Ou, melhor dizendo, de mera olhadela? Bom olho deve ter a parlamentar Jo Swinson, além de tempo para se dedicar a assunto tão complexo e que envolve a cada vez mais avançada tecnologia informática.

A mesma notícia informa que a Advertising Standards Authority (ASA) concordou plenamente com a parlamentar liberal-democrata e decidiu que as imagens das duas estrelas em questão violavam o código de conduta da entidade em questão.

A L´Oréal admitiu ter retocado as imagens embora – e eis o paradoxo – negando que os anúncios foram enganosos.

Como observador curioso, e farto de tragédias norueguesas e estrepulias murdochianas, além de ex-publicitário e razoável conhecedor, no sentido ao menos platônico, de senhoras e senhoritas daquele que já foi, e para mim continua a ser, o “sexo frágil”, estou em grande parte com a companhia francesa de produtos de beleza.

Sempre me invoquei com tanta preocupação e ocupação (e aí é que eu chamo de sexo frágil mesmo, ao menos em certos setores que envolvem as faculdades cerebrais) das mulheres, com tanto creme, tanto... ora, tantos produtos ditos embelezadores, para não falar de saltos altos, dietas, regimes, depilações, perfumes, desodorantes, xampus, condicionadores, operações plásticas estetizantes, geléias reais e plebéias, e tudo mais, mas, muito, muito mais, que faz a fortuna de algumas centenas de organizações (a indústria da beleza feminina gasta 3 vezes mais que a bélica) com suas artes talvez mais negras que as de Rupert Murdoch.

Alguém neste mundo acha mesmo que a Julia Roberts, mal dormida, às oito da manhã, antes de lavar a cara, escovar os dentes e tomar seu suquinho de laranja, tem mesmo aquele rosto?

Na verdade, e isso tem de ser dito, 99% das mulheres, feias, bonitas, parlamentares ou editoras de tabloides sensacionalistas, usam do realce maquiador, inda que analógico e não cibernético.

E eu nem devassei as portas de um cabeleireiro.

Quantas horas passa (ou passava, ela não está mais com a bola branca) Julia Roberts no camarim do estúdio sendo preparada por uma equipe de bem pagos profissionais para, diante de refletores e lentessoftespeciais, exibir sorrindo com seus 64 dentes, muitos deles, uns 45%, naturalmente embranquecidos de cegar o espectador, graças a uma generosa natureza?

Sejamos sérios, sem realces, retoques ou computadores.

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