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Pais ingleses enfrentam dilema quanto a denunciar filhos saqueadores

Peter Jackson Da BBC News em Londres

Seu filho adolescente chega em casa com produtos saqueados e você o pega no flagra. Você deve entregar o jovem à polícia?

Esse dilema está sendo enfrentado por pais ingleses cujos filhos participaram da onda de saques e destruição vista na última semana em diversas cidades do país.

Para alguns, a escolha entre entregar o filho às autoridades depende totalmente da gravidade do crime cometido. Os progenitores pesam o dano que o histórico criminal terá sobre o futuro dos jovens – e sobre o próprio relacionamento entre pais e filhos.

Outros não abrem exceções: acham que os jovens têm de aprender a enfrentar as consequências de suas ações, apesar da angústia que isso possa causar.

Aos prantos, Adrienne Ives explicou por que delatou sua filha de 18 anos, Chelsea, após vê-la na TV, aparentemente cometendo saques.

“É muito triste. É uma decisão difícil, mas é a decisão que qualquer bom pai tomaria”, ela disse a jornalistas na porta de sua casa, no leste de Londres. “Espero que outras pessoas encontrem essa coragem. Fiz o que achei que era certo.”

Chelsea Ives, uma jovem embaixadora olímpica, nega ter cometido atos violentos, ataques a um carro policial e roubo – crimes dos quais é acusada.

Na última sexta-feira, dois garotos de 14 e 15 anos foram entregues por suas mães após terem sido supostamente fotografados durante distúrbios em Manchester.

Um juiz elogiou o gesto das mães neste sábado e disse à corte: “Quem dera mais pais levassem suas responsabilidades tão a sério”.

‘Amor duro’

Alguns pais denunciaram seus filhos após suspeitar o envolvimento deles nos distúrbios. Outros se viram forçados a fazê-lo depois que fotos dos jovens foram divulgadas em listas de suspeitos. Esses pais preferiram agir a esperar que a polícia aparecesse na porta de sua casa.

Para Margaret Morrissey, fundadora do grupo Parents Out Loud (que debate políticas educacionais e familiares), não há dúvida de que esses pais agiram corretamente.

“Às vezes o amor é algo duro, mas esse amor duro ajuda”, diz ela, que é mãe de dois filhos. “É como dizer 'vamos apoiá-lo, mas é isso que acontece se você faz algo que é moralmente e criminalmente errado à sociedade'.”

Ela opina também que isso não significa que os pais não se preocupam com seus filhos. “Provavelmente significa que nos preocupamos ainda mais. Para preservar a sociedade para você e para seu filho, você tem que pagar o preço.”

Mas o escritor e ativista educacional Toby Young discorda. Questionado pela BBC se entregaria seus filhos à polícia, ele disse: “Acho que dependeria da gravidade do crime. Assassinato sim, obviamente. Saque? Se meu filho tivesse pego algo de uma loja que havia sido invadida, provavelmente não”.

Ele justifica dizendo que “é preciso pesar o quão errado foi o ato e o dano que (uma ação judicial) poderia ter sobre as perspectivas profissionais” do jovem.

“Se fosse a primeira vez que ele tivesse desrespeitado a lei e tiver se deixado levar pelo calor do momento, pode ser excessivo levá-lo à delegacia.” Young defendeu, nesses casos, que o jovem fosse forçado pelos pais a pagar pelo produto saqueado, ainda que “anonimamente”.

Fóruns

Depoimentos postados em fóruns online sobre o assunto pareciam tender mais a favor de entregar os jovens à polícia. Mas havia vozes dissidentes.

“Daria minha própria punição. Não ia querer atrapalhar perspectivas futuras de meu filho com uma condenação criminal”, dizia um dos depoimentos. “Todo o mundo diz ‘sim’ (a delatar os filhos), mas no mundo real, você faria isso mesmo?”

Para pais cujos filhos estão presos em um círculo vicioso de drogas e crime, a decisão de levar o caso à polícia pode ser mais direta.

Caroline Goodall, de 47 anos, da cidade de Bradford, passou os últimos 11 anos tentando lidar com o fato de sua filha ser viciada em heroína, seu envolvimento com roubos e suas aparições perante a Justiça.

Sua filha – que hoje tem 23 anos e não vive mais com ela – começou a usar heroína aos 12 anos e roubava a família para sustentar o vício.

Goodall diz que chamou a polícia em diversas ocasiões para que sua filha fosse presa, porque “não via o que mais eu poderia fazer”.

O mais difícil, diz, “é não saber. Não saber onde ela está, o que está fazendo e o que está usando. Chega num ponto em que é ou você ou ela.”

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