Comportamento

Crise prende jovens da Espanha à casa dos pais

ANELISA INFANTE De Madri, para a BBC Brasil

  • Reuters

    80% dos jovens moram com os pais por falta de recursos financeiros

 

A Espanha está na lanterninha da emancipação familiar na Europa, com sete em cada dez jovens, entre 22 e 30 anos, que ainda moram com os pais, diz um estudo divulgado no país.

A taxa espanhola é mais que o dobro da média dos países nórdicos (30%) e ainda fica longe dos índices das nações centro-europeias (52%). Apenas Eslovênia, Polônia, Bulgária e Portugal têm cifras similares.

Este fenômeno foi analisado no relatório "Individualização e Solidariedade Familiar", divulgado neste mês pelo sociólogo Gerardo Meil. Segundo o estudo, que pesquisou a situação de 1.200 famílias espanholas, o fator principal que dificulta a emancipação dos jovens é a crise econômica.

"Em um contexto de desemprego, precariedade no mercado de trabalho e alta dos aluguéis, o lar familiar funciona como um seguro permanente", cita o relatório.

"O pior é que a faixa etária de não emancipados tem subido desde 2008, já iguala os índices de 17 anos atrás e inclusive está a ponto de superar as mais antigas", disse o sociólogo à BBC Brasil.

Em outras palavras, se a situação se mantiver, os jovens espanhóis do século 21, sairão de casa mais velhos do que seus próprios pais, quando estes fizeram o mesmo na casa de seus avós . "É algo muito preocupante", disse Meil.

União familiar

Viver com os pais permite economizar dinheiro, aumentar o nível de consumo, mas também reforça a união familiar, de acordo com o estudo. Tanto que 69% dos que deixam a casa dos pais preferem morar numa distância limite de apenas cinco quilômetros. E 74% visitam os pais ao menos uma vez por semana.

Os avós também entram na categoria "seguro permanente". Um em cada três avôs e avós, entre 65 e 75 anos, colabora com a renda de seus netos.

Para o sociólogo da Universidade Complutense de Madri Juan Díez, o problema não é apenas a crise. Existe ainda um parâmetro que difere ricos de pobres.

"Ao contrário do que parece, os que demoram mais a sair são os filhos de famílias ricas porque têm mais recursos e decidem prolongar indefinidamente seus estudos. Os pobres se emancipam antes por ter mais consciência", disse Díez à BBC Brasil.

Unicamp

A situação dos jovens espanhóis foi analisada até mesmo no Brasil. Um estudo das universidades Autônoma de Barcelona e Unicamp, publicado em fevereiro na 'Revista Espanhola de Investigações Sociológicas", indica que este atraso na emancipação aumentou seis anos em duas décadas. Em 1981 a média era de 22 anos para mulheres e 24 para homens na hora de deixar o lar familiar. Em 2001 (último censo) passou para 28 e 30, respectivamente.

Para os pesquisadores Joice Melo Vieira (Unicamp) e Pau Miret Gamundi (Universidade Autônoma de Barcelona), os jovens espanhóis prolongam a fase estudantil com o fim de conseguir melhores oportunidades profissionais e relegam os projetos pessoais a segundos planos.

Mas, além da crise e dos objetivos profissionais, outros especialistas citam um fator que contribui com esta falta de iniciativa por declarar independência: a permissividade dos pais.

Falta de recursos

Uma pesquisa feita pelo Centro de Investigações Científicas em parceria com o Instituto da Juventude (ambas instituições do governo nacional) definiu o perfil dos filhos adultos que moram com os pais e como atuam.

O relatório chamado "Jovens e Moradia" teve conclusões como: apenas 10% dos entrevistados acham que viver com os pais é a melhor opção; 80% o fazem por falta de recursos financeiros.

Oito de cada dez jovens responderam que têm liberdade para fazer festas em casa; 85% que podem levar namorados; 75% vão dormir e acordam quando queiram; assim como 70% não tem hora para chegar em casa ou restrições por dormir fora.

O maior controle é na hora de manter relações sexuais em caso de relacionamentos esporádicos: apenas 30% disseram que tem permissão familiar.

Um dos autores deste relatório, o sociólogo Marco Albertini, acha que também há diferenças de mentalidade entre países desenvolvidos e menos industrializados que condicionam a educação e permissividade de pais e filhos.

"Nos países nórdicos os adultos usam as ajudas sociais para promover a independência de seus filhos. Aqui na Espanha estes recursos são destinados para que os filhos tenham melhores condições de vida nas casas dos pais".

"Estão no limite de sua idade de trabalho, deveriam estar desfrutando da aposentadoria, contam com menos recursos e ainda assim se ocupam da economia de seus filhos que já estão criados", concluiu.

Os especialistas espanhóis também ressaltam a influência de um fator cultural como a religião neste vínculo longa de convivência familiar. Indicando que os países com piores índices de emancipação sejam católicos: Espanha, Itália, Portugal e Polônia.

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