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01/12/2006 - 00h11

Bate-papo UOL: Jairo Bouer esclarece dúvidas dos internautas sobre HIV e Aids

da Redação

Adriana de Barros

Jairo Bouer esclarece dúvidas sobre o vírus HIV e a Aids

Jairo Bouer esclarece dúvidas sobre o vírus HIV e a Aids

Na véspera do Dia Mundial de Luta Contra a Aids, o psiquiatra esclarece as dúvidas dos participantes sobre o vírus e a doença.

Durante a conversa, Bouer citou dados do último boletim epidemiológico que aponta que, em 20 anos da epidemia, foram notificados 430 mil casos no Brasil, mas que muitos dos infectados ainda têm conhecimento de que estão contaminados. "Em torno de 0,5% da população está contaminada pelo HIV, e a gente precisa se prevenir, se cuidar e fazer sua parte. Se tiver uma suspeita faça o teste, e use camisinha em todas as relações sexuais".

Leia a seguir a íntegra do Bate-Papo do Dr. Jairo Bouer:

(07:08:18) Jairo Bouer: Bem vindos a mais um Bate-papo aqui do UOL. Mande suas perguntas, a gente pode focar um pouquinho em Aids hoje.

(07:08:20) ilana: Como posso saber se o sangue que estou recebendo durante uma transfusão, não está contaminado?
(07:09:12) Jairo Bouer: Ilana, hoje, é muito difícil ter um caso de contaminação por HIV em transfusões de sangue. Ele é submetido a vários testes, são várias etapas. Pode acontecer, mas não é comum.

(07:09:33) leo: Jairo sobre o sexo oral e muito fácil ter contato com o vírus?
(07:11:35) Jairo Bouer: Leo, os estudos mostram que o HIV pode estar em qualquer secreção do corpo humano: esperma, lágrimas, saliva, secreção vaginal, urina e fezes. A transmissão acontece mais em sexo anal e vaginal, mas existe o risco de contrair durante o sexo oral. Existe esse risco teórico, mas quase não acontece. No beijo na boca não pega Aids porque na saliva há menos vírus do que em outras secreções.

(07:11:37) Fabiana: Jairo,existe algum remédio que enfraquece o vírus da Aids no organismo?
(07:14:21) Jairo Bouer: Fabiana, sim. Praticamente a gente tem quase 20 tipos de medicamentos diferentes, que diminuem a força do vírus. A epidemia começou nos anos 80, e descobriram o vírus HIV. Não existia nenhum tratamento, o primeiro foi o AZT, que atua em uma das etapas da multiplicação do vírus. Durante muito tempo ele foi a única droga que existia para combater a Aids. Com o tempo alguns vírus mais fortes sobreviviam. Hoje a gente tem várias outras drogas que podem ser usadas em combinações.

(07:14:23) CATARINENSE: SOU BI, TRANSO COM MULHERES E HOMENS, MAS SENDO SOMENTE ATIVO, NÃO FAÇO SEXO ORAL, RECEBO, ROLA BEIJO, PENETRAÇÃO SÓ COM CAMISINHA, QUAL O RISCO DE SER CONTAMINADO? SEXO ORAL ANAL É RISCO?
(07:16:58) Jairo Bouer: Catarinense, é o seguinte. Você está contando que suas relações são feitas com camisinha. Os passivos correm mais riscos, mas os ativos também têm o risco. Os riscos de quem pratica o sexo oral são maiores do que quem recebe. Existem outras doenças que são transmitidas no sexo oral. O que a gente pode falar é que você esteja totalmente seguro, mas o método de barreira é de bom tom.

(07:17:00) Fabiana: Quanto tempo o vírus da Aids pode ficar latente no organismo?
(07:18:27) Jairo Bouer: Fabiana, pois é, não dá pra dar uma resposta única. Varia muito. O vírus entra no organismo e tende a se multiplicar. A taxa de vírus fica muito alta e a defesa é baixa. Depois ocorre uma fase de equilíbrio, ou infecção latente, por muito tempo, varia muito. Essa fase acontece entre 5 a 10 anos.

(07:18:56) Teresina-PI: Por que não há expectativa de descoberta de uma cura em médio e curto prazo? Qual o grande problema do vírus?
(07:20:37) Jairo Bouer: Teresina, o vírus é altamente mutante. Existem sub-tipos do vírus e eles podem mudar. Quando você coloca uma pressão, como um medicamento muito forte, ele pode se modificar e ficar ainda mais forte. Vacina ainda não existe, a gente tem uma série de tratamentos e pesquisas.

(07:20:43) Vitor-BH: Jairo, sou gay, acabei de fazer meu primeiro exame e irei buscar os resultados na próxima semana, tenho duas perguntas. Ouvi um ator pornô dizer que para não contrair o vírus do HIV durante o sexo oral basta babar e cuspir o tempo todo. Isto procede?
(07:22:30) Jairo Bouer: Vitor BH, isto não procede. O risco de contaminação é menor, mas o risco teórico existe. Essas histórias não são confiáveis.

(07:22:39) edu23a: boa noite, sou dentista, você já teve conhecimento de algum dentista ter pegado o vírus, por um acidente de trabalho na minha área? obrigado, abracao
(07:26:02) Jairo Bouer: Edu23a, acidentes com pessoas que manipulam secreções, sangue em procedimentos é o que a gente chama de contaminação ocupacional. Eu não tenho conhecimento de nenhum dentista. Mas todos os procedimentos de segurança devem ser adotados. A gente recomenda que os profissionais da saúde recebam vacinas de hepatite. Caso aconteça algum acidente é bacana você procuram um médico para que você não se contamine.

(07:26:09) brian: os preços dos coquetéis ficarão mais em conta?
(07:30:23) Jairo Bouer: Brian, tomara que sim. A gente sabe que esses medicamentos são muito caros, mas houve avanços. Algumas patentes venceram e puderam ser feitas de forma genérica, há acordos dos governos com as empresas. A expectativa é que caia o preço. Em casos mais extremos, como na África, mesmo o custo mais barato não permite as pessoas de terem acesso, lá a negociação dos governos, o ideal é que todo mundo tenha acesso. No Brasil, o último boletim epidemiológico mostrou que, em 20 anos da epidemia, temos mais de 430 mil casos notificados, sendo que desses, 170 mil pessoas faleceram vítima da AIDS. Outras 170 mil recebem os medicamentos do governo. A gente estima 600 mil pessoas vivam com HIV ou Aids e muitas delas não sabem de sua condição.

(07:30:31) wemerson: Se estou com AIDS quer dizer que qualquer pessoa, sem exceção, que tiver contato sexual comigo contrairá a síndrome?
(07:32:50) Jairo Bouer: Wemerson, não é isso não. Não é porque você tem HIV e você transa com uma pessoa sem proteção não necessariamente ela vai contrair AIDS, vai depender de uma série de fatores. É muito difícil determinar o risco. Mas se a pessoa sabe que tem HIV ela tem que se prevenir para não contrair outras doenças.

(07:32:53) Jonas: Dizem que é muito mais difícil o homem pegar AIDS com relação sexual, pelo simples fato de que a mulher numa relação sem preservativo recebe a ejaculação do homem, enquanto q o homem hétero teoricamente não recebe secreções dentro do seu corpo. Isso tem fundamento?
(07:35:29) Jairo Bouer: Jonas, em parte o que você diz procede, em parte não. O risco é sempre maior para quem recebe, do que para quem está sendo ativo na relação. Isso não significa que o homem não vá se contaminar, no momento da relação sexual a mucosa do pênis entra em contato com a secreção da vagina. Homem também se contamina, também pode pegar Aids.

(07:35:32) paulo: Você não acha que preconizar o uso da camisinha é uma maneira simplista de dizer que se evita a contaminação ? A camisinha não é um paliativo ?
(07:36:47) Jairo Bouer: Paulo, a camisinha é o que a gente tem hoje como recurso, é a melhor opção. Se a pessoa usa a camisinha ela está protegida, ela é uma solução, não é paliativo. O vírus não passa pela camisinha, ela protege sim.

(07:36:50) Cerveja na Kbeça: Dr. tinha um irmão portador de HIV que desenvolver problemas mentais, parecia uma criança grande, os médicos disseram que ele que o cérebro dele envelheceu... Isso é normal em pessoas com Aids?
(07:38:21) Jairo Bouer: Cerveja na Kbeça, há uma série de alterações psiquiátricas, algumas são causadas pelo próprio vírus do HIV. Mas o HIV diminui a imunologia da pessoa e isso faz com o organismo esteja sujeito a outras doenças, como tumores cerebrais, e fazem com que alterações mentais e neurológicas possam aparecer.

(07:38:24) Rafael1234: Jairo... eu tenho uma duvida em relação ao exame: eu tive uma relação de risco há três meses e gostaria de fazer o exame, mas não sei se o resultado vai ser confiável devido ao tempo de incubação do vírus. Portanto eu queria saber se esses três meses já são suficientes pra ter um resultado confiável. Existem tipos de exames q detectam o vírus logo apos a contaminação?
(07:42:19) Jairo Bouer: Rafael1234, a gente tem duas grandes categorias de exames usados para detectar o vírus. A maioria detecta nossos anticorpos, logo no início a gente ainda não produziu essas defesas então não dá para perceber no exame. Com três meses você já tem uma certeza, para você ficar mais seguro, o médico deve pedir para você repetir esse exame com seis meses. Se você não está com grana, vá num centro de testagem das secretarias de saúde, lá dá para fazer de forma gratuita e anônima. Existem sim exames modernos e caros que detectam a carga viral do vírus, ele é muito específico, não é feito de rotina, mas teoricamente pode detectar a infecção logo no início.

(07:42:20) Sérgio Ramos: Dr. Jairo, tenho um amigo com Aids que sofreu muito com os efeitos colaterais do coquetel. Os efeitos colaterais melhoraram atualmente?
(07:43:31) Jairo Bouer: Sérgio, como a gente tem muitos remédios, a gente pode tentar trocar o medicamento para evitar os efeitos colaterais. Algumas pessoas têm efeitos colaterais sérios, mas há alternativas.

(07:43:57) voltaire: Jairo, fiz o exame há 10 meses e depois de seis meses fui pegar o resultado, na época eu tive herpes zoster pediram pra eu fazer porque as taxas deram altas, tive medo de voltar lá, porque a psicóloga disse que deu positivo, tem como esse teste segundo que eu fiz dar negativo e o primeiro ter sido errado?
(07:46:02) Jairo Bouer: Voltaire, é difícil avaliar sua situação se a gente não tiver os exames em mãos. Você disse que teve o vírus do herpes zoster no período do exame. Toda lesão de zoster, hoje em dia, a gente fica pensando, se não tem outra coisa. Você tem que voltar no centro de testagem e ver o que está acontecendo com você. Lida melhor com esse teu medo e receio e vá buscar uma nova avaliação.

(07:46:04) Claudia: Tenho Aids, namoro há dois anos e fiquei grávida. Meu filho pode nascer sem AIDS?
(07:48:20) Jairo Bouer: Cláudia, a boa notícia é que pode nascer sem Aids, sim. Mas você já devia estar fazendo o pré-natal e informado que tem o vírus para se fazer tratamentos. Procure um médico o mais rápido possível, você vai ter que tomar remédios e a criança também, com isso a chance de contaminação materno-fetal cai muito. Procure o médico mais rápido possível para que seu filho possa nascer saudável. Mesmo que você esteja com certo tempo de gravidez, dá pra intervir.

(07:48:23) eumorp: O senhor JAIRO disse em uma resposta que "Existem sim exames modernos e caros que detectam a carga viral do vírus, ele é muito específico, não é feito de rotina, mas teoricamente pode detectar a infecção logo no inicio". Qual seria esse teste que impede a infecção? Qual seria o custo de tal?
(07:50:48) Jairo Bouer: Eumorp, ele não impede infecção, ele é um teste que se usa para pacientes que já estão em fase de tratamento. Nele é pesquisada a carga viral, o material genético do vírus. Esse exame é feito de rotina para pessoas que tomam coquetéis. Na teoria ele pode detectar a infecção logo no início. Ele deve estar custando uns R$2.000,00.

(07:50:49) Marcelo Recife: Sou farmacêutico e acho bem bacana o programa de distribuição grátis pelos governos. Mas não potencializaria a adesão terapêutica se as redes de farmácias (cadastradas pelo governo) fossem multiplicadoras deste programa?
(07:53:00) Jairo Bouer: Marcelo Recife, talvez sim. O grande problema é garantir que o paciente vá tomar o remédio para sempre. A gente sabe que se a pessoa deixa de tomar o remédio, a chance de o vírus ficar mais forte é maior. Há o trabalho de ONGs conscientizando os pacientes. A sua sugestão talvez seja interessante, só não sei como fica a questão do controle. De qualquer forma é uma possibilidade.

(07:53:57) Nyna: é verdade que o Brasil é o único país do mundo que remédios pra AIDS de graça?
(07:54:56) Jairo Bouer: Nyna, não é o único, mas é um dos melhores exemplos do mundo, porque é pioneiro e a distribuição é em larga escala. A França, por exemplo, e alguns países africanos também distribuem.

(07:55:18) edu23a: boa noite, fiz odontologia, e na faculdade quando acontece algum acidente de trabalho, tanto o aluno quanto o paciente fazem o exame, e em caso de positivo o não infectado toma uma coquetel, este procedimento e totalmente seguro? e caso o paciente não aceite fazer o exame, tomamos o medicamento, gostaria de saber a real! abracao
(07:56:55) Jairo Bouer: Edu23a, é isso mesmo, quando acontece o contágio é preciso fazer o exame. Alguns são rápidos, obviamente você tem que fazer o teste e tomar o coquetel.

(07:56:57) Brunooooo: Jairo como posso desconfiar que esteja com o vírus????? Existem sintomas q de pra perceber ou só com o exame???
(07:58:01) Jairo Bouer: Bruno, às vezes as pessoas passam cinco, sete anos sem ter qualquer sintoma. Se você tem qualquer dúvida faça o teste para ficar tranqüilo ou então se tratar da melhor maneira possível.

(08:00:24) Jairo Bouer: Gente, queria dar um recadinho final. A gente sabe que a epidemia entrou numa fase de estabilidade, não quer dizer que não existe mais epidemia. São quase 33 mil novos casos por ano, ou seja, quase 100 novas notificações por dia. O que é bastante. Em torno de 0,5% da população está contaminada pelo HIV, e a gente precisa se prevenir, se cuidar e fazer sua parte. Se tiver uma suspeita faça o teste, e use camisinha em todas as relações sexuais.

(08:00:38) Jairo Bouer: Quem sabe ano que vem a gente volte com notícias melhores. Valeu. Até a próxima.

(08:00:42) Moderador/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença do doutor Jairo Bouer e de todos os internautas. Até o próximo.

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