01/12/2006 - 10h54
Aids enfrenta o desafio da falta de informação na China

Carmen González Pequim, 1 dez (EFE).- Com quase 185 mil portadores do HIV registrados, 650 mil estimados oficialmente e pelo menos 1 milhão segundo os números mais otimistas dos analistas independentes, a China é ainda uma incógnitas no que se refere à aids.
Após anos ignorando a doença, considerada "estrangeira", em 1989, o Governo chinês admitiu seu primeiro caso de contágio do vírus da imunodeficiência humana (HIV). A vítima foi um homem, preso por manter relações homossexuais, consideradas um crime no país até 1997 e doença mental até 2001.
A partir de 2003, o Governo começou a ceder às críticas internacionais ao sigilo com que tratava o problema, e declarou uma guerra à aids. No entanto, o programa de combate à doença sofre vários problemas.
Desconhecimento, falta de comunicação entre Governo central e locais, tratamento gratuito só em teoria, discriminação e restrições às ONGs nacionais e estrangeiras estão entre as dificuldades.
Na semana passada, o Ministério da Saúde publicou seus últimos dados: 183.733 infectados, 30% a mais que no ano passado. Do total, 40.667 desenvolveram a síndrome e 12.464 morreram.
"O aumento se deve à campanha em massa de testes, sobretudo entre os grupos de alto risco. O perigo é que o resto da população continua se achando imune à doença", disse hoje à Efe Kate Janis, responsável pelas campanhas na China da ONG americana Mercy Corps.
Janis, que trabalhou também para a Fundação Bill Clinton, visitou várias das províncias mais afetadas pela doença. Ela se diz "confusa" em relação aos números. Mas tem certeza de que há mais do que os 650 mil afetados das estimativas oficiais.
"Alguns especialistas falam de até 1 milhão de mortos", diz a especialista, que trabalhou na África e ressalta que na China a aids também se espalha entre os mais pobres.
Em relação ao tratamento, os avanços são marcantes no país, que pesquisa uma vacina. Mas ainda resta um longo caminho pela frente.
"O tratamento não é 100% gratuito. As drogas são distribuídas, mas os doentes têm que pagar, por exemplo, exames complementares e consultas", explicou Janis.
Além disso, só está disponível uma linha de remédios. Pacientes que apresentam rejeição ou que após ano de tratamento adquirem resistência não têm acesso à segunda fase.
As mais afetadas são as crianças, que precisam de remédios especiais, mais caros. O grupo é extremamente ameaçado devido à falta de medidas para evitar a transmissão mãe-filho.
De novo segundo números oficiais, há 800 crianças portadoras do vírus registradas. A maioria morre antes dos 5 anos.
"Os departamentos sanitários de todos os níveis devem garantir que o anti-retroviral para as crianças seja incluído no tratamento gratuito para os doentes de aids", diz uma norma do Ministério da Saúde divulgada esta semana.
"O principal desafio do Governo central é conseguir a aplicação efetiva das medidas aprovadas", disse à Efe Edmund Settle, responsável de HIV/aids do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento na China.
Outro desafio é acabar com a discriminação. Segundo uma enquete divulgada pela agência "Xinhua", 5% da população são a favor de discriminar "ativamente" os afetados e 36,6% dizem que não se importam com o destino deles.
Os homossexuais, um dos grupos mais afetados pela doença devido às relações sem proteção, também são alvo de preconceito, segundo um relatório publicado hoje pela imprensa.
Para os especialistas, Pequim deveria regularizar a situação das ONGS estrangeiras, que no momento atuam num vácuo legal e sequer podem abrir contas bancárias. As organizações chinesas, sobretudo as menores e mais próximas às comunidades, também enfrentam dificuldades.
Esta semana, o ativista Wan Yanghai, diretor da ONG Aixhi Xing, foi interrogado durante três dias pelo Birô de Segurança Pública de Pequim, que não quis fazer comentários à Efe. Ele estava organizando um seminário sobre o contágio de aids por transfusões de sangue que acabou sendo cancelado.
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