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21/07/2008 - 00h01

"Prêmio Nobel da arquitetura", iraquiana Zaha Hadid fala de sapatos, edifícios e moda

CAROLINA VASONE
Editora de UOL Estilo

Divulgação/Steve Double

A arquiteta iraquiana Zaha Hadid criou um sapato para a Melissa

A arquiteta iraquiana Zaha Hadid criou um sapato para a Melissa

Zaha Hadid é, hoje, um dos nomes mais importantes da arquitetura mundial. Primeira mulher a ganhar, em 2004, o Pritzker, o "prêmio Nobel" da área, a iraquiana residente em Londres tem projetos construídos em cantos diferentes do mundo, de uma plataforma de esqui na Áustria a uma estação de trem com complexo de estacionamento de carros na França, passando por um museu; o Centro Rosenthal para Arte Contemporânea, nos Estados Unidos.

Entre seus muitos trabalhos idealizados e ainda não realizados estão um sapato de plástico e mais um museu. O primeiro chega às lojas em outubro deste ano e foi feito em parceria com uma empresa brasileira, a Melissa. Sinuoso, de linhas contínuas, torcidas ao subir envolvendo o tornozelo, acompanha o mesmo espírito de sua arquitetura orgânica e descontrutivista (do movimento do Desconstrutivismo, que teve início no final dos anos 80 e representantes ilustres como Frank Gehry. Tempos depois, muitos dos arquitetos rejeitaram a definição). O segundo, o Museu Nacional das Artes do Século 21, em Roma, com inauguração prevista para 2009, é considerado por Zaha um de seus projetos mais empolgantes, entre os cerca de 100 tocados pelo escritório dela atualmente. "Não é mais apenas um museu, mas um centro com muitas galerias e espaços que estão entrelaçados e superpostos uns sobre os outros", afirma.

Divulgação

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Projeto de melissa criada por Zaha Hadid



Outro assuntos que animam a estrela da arquitetura são o Brasil e a moda. O país, por conta de Oscar Niemeyer, assumida forte influência em seu trabalho, motivo de visita ao Brasil para conhecer o mito e suas criações (ela ficou especialmente impressionada com a Casa das Canoas, no Rio). Há um projeto em andamento, ainda, de uma exposição sobre a arquiteta em território brasileiro, planejada para acontecer no ano que vem. Já com a moda, Zaha afirma ter relação "experimental" e gosto pelos japoneses como Issey Miyake e Comme des Garçons. Profissionalmente, fez mais duas incursões pelo universo fashion antes da Melissa: criou uma bolsa para a exposição "Icons", da Louis Vuitton, de 2006, e um container futurista que serve como galeria móvel para a mostra "Mobile Art", patrocinada pela Chanel, e que exibirá, em várias cidades do mundo, reinterpretações da clássica bolsa de matelassê da maison, realizadas por 20 artistas convidados. Neste momento, o pavilhão criado por Zaha deixou Tóquio e segue para Nova York.

Em entrevista por e-mail ao UOL, Zaha Hadid falou sobre arquitetura, design e moda, e como os três assuntos estão interligados em seu trabalho.

UOL Estilo - A sra. já idealizou projetos imensos e importantes. O que a fez se interessar em desenhar um sapato de plástico para a Melissa ou mesmo uma bolsa para a Louis Vuitton?

Zaha Hadid - Nossa abordagem em relação à arquitetura, design de produto ou mesmo moda é bastante semelhante. Todos os projetos estão ligados. É possível dizer que os objetos de design são fragmentos do que poderia ocorrer em nossa arquitetura. A idéia para um prédio ou um objeto pode surgir igualmente rápido, mas há uma grande diferença no processo. O aspecto que traz satisfação no design de móveis e produtos é que o processo de produção entre a idéia e o resultado é muito mais rápido. A colaboração com a Melissa criou uma oportunidade única para continuar nossas explorações na moda. A tecnologia de ponta de injeção de plástico em molde da Melissa era ideal para a linguagem de design inteiriça que nosso escritório estava pesquisando nos últimos 30 anos. Este foi um projeto realmente prazeroso. Esperamos que as pessoas se divirtam tanto usando o sapato quanto tivemos desenhando.

UOL Estilo - A sra. tem projetos por todo o mundo. Gostaria de fazer algo no Brasil? Se pudesse escolher, que tipo de projeto e onde seria?

Zaha Hadid - Eu ainda acho que não há exemplos de algumas idéias que desenvolvemos ao longo dos últimos 30 anos e que são baseadas em uma escala muito maior, não apenas na escala de uma cidade, mas em parte de uma cidade, em uma área enorme. É uma questão de idéias sobre quanto impacto é possível ter de fato em uma escala maior. Não precisa ser um prédio que é grande - mas uma série de prédios. A arquitetura é um veículo por meio do qual acho possível tratar de certas questões sociais muito importantes, evidentes nas complexidades das vidas das pessoas do século 21. Minha obra portanto se preocupa com a expansão de uma linguagem arquitetônica capaz de lidar com este aumento da complexidade. É uma arquitetura de fluidez e porosidade - com muitas camadas interligadas e usos mesclados.

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Modelo do novo Museu Nacional de Arte Contemporânea de Roma, numa maquete virtual



UOL Estilo - Eu li que seu estúdio tem, atualmente, 100 projetos em desenvolvimento. Quais a sra. considera os mais desafiadores e por quê?

Zaha Hadid - Eu diria que temos um repertório formal muito diverso de trabalho. Nós sempre estamos interessados em expandir nosso repertório e fazer coisas diferentes em contextos diferentes, com cada projeto respondendo às suas instruções e contexto de uma forma totalmente singular. Um de nossos novos projetos mais empolgantes é o MAXXI: Museu Nacional das Artes do Século 21, em Roma. Ele está em construção e será inaugurado no ano que vem. Uma coisa interessante sobre este projeto é que ele não é mais um objeto, mas sim uma progressão de espaços, o que implica que muitas funções diferentes podem ser associadas ao museu. Não é mais apenas um museu, mas um centro com muitas galerias e espaços que estão entrelaçados e superpostos uns sobre os outros. Com este projeto, nós estamos tramando uma densa textura de espaços interiores e exteriores. É uma mistura intrigante de galerias permanentes, temporárias e comerciais dentro do ambiente bastante urbano de Roma.

UOL Estilo - A sra. já disse que a influência de Niemeyer em sua obra é forte. Qual dos projetos dele é o seu favorito?

Zaha Hadid - Eu me sinto muito afortunada por ter sido convidada à casa dele no Rio. A Casa das Canoas é uma obra-prima. Um dos princípios ao qual sempre nos mantemos fiéis em nosso escritório é trabalhar para inserir um prédio em seu contexto, por meio de uma série de relacionamentos articulados que são desenhados a partir dos elementos do ambiente ao redor. É um desafio escolher um projeto favorito. Eu realmente admiro todas as casas dele, a Igreja de São Francisco, na Pampulha, e o Ministério da Educação e Saúde. E, é claro, sua obra em Brasília.

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Maquete virtual do prédio do Centro Aquático desenhado pela arquiteta para a Olimpíada de 2012, em Londres



UOL Estilo - Seu trabalho é definido como orgânico, desconstrutivista e com um toque de sensualidade. A sra. busca características semelhantes nas roupas que veste?

Zaha Hadid - Eu realmente não visto roupas "tradicionais" há muitos anos. Meu estilo de moda é "experimental", semelhante ao estilo da minha arquitetura.

UOL Estilo - Quais são seus estilistas favoritos?

Zaha Hadid - Eu sempre apreciei estilistas que ousam brincar com o material e as proporções. Eu sigo com interesse estilistas japoneses como Issey Miyake, Yohji Yamamoto e a grife Comme des Garçons. Eu gosto de descobrir novos talentos, aqui em Londres há abundância de jovens estilistas.

UOL Estilo - Para que contribuem as roupas, em sua opinião? E a arquitetura? Onde moda e arquitetura se encontram (elas se encontram?)?

Zaha Hadid - Estes projetos de colaboração com a moda fornecem uma oportunidade para expressar nossas idéias em uma escala diferente e por um meio diferente. Nós a vemos como parte de um processo contínuo de investigação do design. Nós estamos explorando o potencial de uma nova linguagem de design e arquitetura - incorporando uma sensibilidade escultural onde o ritmo das dobras, nichos, rebaixamentos e saliências siga uma lógica formal coerente. Em nossos designs, nós criamos uma topologia tecida de diferentes camadas, permitindo espaços híbridos fluídos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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